A virgindade política dos mais jovens que veem em Freixo o retrato de um "mundo melhor"


Por Wilson Oliveira

É quase impossível, no Rio de Janeiro, em um encontro com amigos do trabalho/estágio ou em uma reunião na faculdade - seja num curso de graduação, mestrado ou doutorado - conversar com um jovem que tenha mais de 16 anos e não escutar dele que o voto para prefeito em 2016 será em Marcelo Freixo. É, de fato, uma moda que se espalha pela cidade e atinge porcentagem impressionante. Esse fenômeno antes se concentrava mais em jovens universitários que estudam ou moram na zona sul. No entanto, agora está se expandindo para jovens do ensino médio e para os recém formados, assim como aqueles que estão ingressando ou ingressaram há poucos anos no mercado de trabalho.

Dados da última pesquisa Ibope, divulgada no dia 27 de setembro, mostram que a primeira colocação absoluta entre eleitores de 16 a 24 anos pertence a Marcelo Crivella. Isso se explica pela questão religiosa, também muito forte na cidade, que o faz disparadamente o favorito tanto entre os evangélicos como entre os moradores de comunidades carentes. Mas na briga pela segunda colocação, apesar de uma queda no gráfico, Marcelo Freixo aparece quatro pontos percentuais acima do terceiro colocado, Índio da Costa. No entanto, desde o início da campanha, especialistas têm observado uma transferência para Freixo de votos nessa faixa etária que seriam de Jandira Feghali, considerado votos úteis da esquerda, o que até a eleição pode aumentar ainda mais a sua distância para os demais.

Na conversa com esses jovens, ao se aprofundar na escolha do candidato, bastam mais alguns minutos para perceber um fenômeno: a maioria desses eleitores que iniciam sua trajetória na democracia não parou para ler a fundo as propostas de Marcelo Freixo - e também não possui uma noção exata do que significa a esquerda política no mundo atual. O critério de escolha desse eleitorado, em particular, que costuma ir na onda dos amigos, é um desejo de viver num "mundo melhor". Até por não terem pesquisado especificamente a plataforma de programa e de história política, também não perceberam que a trajetória da esquerda internacional apoiada pelo PSOL vai na contramão das melhorias significativas para o mundo ao longo das últimas décadas.

Freixo: aumentar atribuições municipais, como no transporte, mesmo sem dinheiro em caixa

Em entrevista a Revista Veja Rio, para apresentação das suas propostas, Marcelo Freixo afirmou que o objetivo do seu governo "será retomar o controle público sobre o planejamento das políticas de mobilidade urbana". Existem dois pontos importantes nessa afirmação. O primeiro trata-se de uma inverdade. O planejamento da mobilidade urbana jamais deixou de ser público no Rio de Janeiro. Foi o poder público (municipal) quem comandou a construção dos traçados do BRT, embora sua operação pertença a iniciativa privada, assim como também foi o poder público (estadual) quem definiu a construção da linha 4 do metrô, embora tenha contado com o auxílio da iniciativa privada. O segundo ponto é: de onde tirar verba para assumir atribuições que eventualmente estejam a cargo de empresas privadas? E como promover ações que não cabem ao poder executivo?

É um fato a necessidade de maior fiscalização nas relações e nos contratos firmados entre governo e iniciativa privada. No entanto, é um erro conceitual acreditar que isso caiba ao poder executivo, que é e sempre será uma das partes interessadas. Qualquer leitura dessa questão com um mínimo de bom senso concluirá que tal ação investigatória cabe ao Ministério Público e, caso irregularidades sejam comprovadas, à Justiça caberá qualquer medida punitiva. Portanto, quando Freixo afirma que "quer enfrentar o cartel do transporte, acabar com a falta de transparência e abrir a “caixa-preta” do sistema", ele está, na verdade, deixando a competência do cargo que ele disputa de lado para prometer que assumirá uma responsabilidade de outro poder, que certamente não é o da prefeitura, mas sim do Judiciário.

Marcelo Freixo também mostra uma visão equivocada ao bater sistematicamente na administração do transporte público do Rio de Janeiro. Embora ainda enfrente muitos problemas, como a Supervia e a prestação de serviços modais em horários de picos, avaliações e estudos junto a população mostram que mesmo assim o transporte é um dos itens que atinge melhor avaliação na gestão Eduardo Paes. Tanto o BRT como a racionalização das linhas de ônibus (que Freixo tanto critica) estão sendo responsáveis por reduzir os congestionamentos na cidade. Cidadãos que vão da zona sul para a Barra da Tijuca, de carro ou no transporte público, estão começando a perceber a diminuição de tempo gasto no trajeto. Da zona norte para a Barra acontece o mesmo. Segue abaixo o traçado da linha Transcarioca, do BRT, responsável por ligar o aeroporto Tom Jobim, na Ilha do Governador, ao Terminal Alvorada, na Barra da Tijuca.

Marcelo Freixo propõe uma série de mudanças, como a transformação do BRT em transporte sobre trilhos, o que aumentaria a capacidade de passageiros. No entanto, em momento algum o candidato do PSOL explica como conseguir o investimento necessário para essa e outras obras. Por um lado dizendo que "não demoniza a iniciativa privada", mas por outro jurando que vai rever todos os contratos do poder público com empresas privadas, num tom bastante ameaçador, Freixo aponta sua plataforma para a estatização do planejamento e execução de qualquer plano urbano. Porém, em plena crise econômica, com a arrecadação pública obtendo queda em todas os níveis, Marcelo Freixo não teria outra saída a não ser aumentar a cobrança de impostos que, mesmo que seja direcionada aos mais ricos, acabará sendo repassada para os mais pobres através de itens de consumo.

A obra de revitalização de áreas na zona norte para construção do BRT Transcarioca só saiu do papel graças a contribuição da iniciativa privada. Confira no vídeo abaixo:



Freixo quer aumentar poder público sobre a saúde: ele ignora melhorias obtidas por organizações sociais

O cidadão carioca, principalmente o mais carente, tem duas realidades à sua frente: um governo estadual completamente falido, sem condições de administrar áreas importantes como a saúde, e um governo municipal numa situação não muito melhor, mas que buscou parcerias para a saúde, como as Organizaçoes Sociais (OSs), entidades privadas que prestam auxílio na administração de unidades hospitalares. De acordo com Piétro Sìdoti, especialista em Direito Administrativo pela Fundação Getulio Vargas (FGV), "um estudo patrocinado pelo Banco Mundial comprovou que os índices de mortalidade dos hospitais sob gerenciamento das OSs caem até a metade dos apresentados pelos hospitais da administração diretamente pública, e o custo de procedimentos e internações é sensivelmente menor nos centros gerenciados".

Ainda de acordo com o especialista da FGV, "cerca de um ano após a implantação, verifica-se maior assiduidade de médicos e profissionais da assistência. Isto se deve à mudança no regime de contratação, pois as entidades gerenciadoras atuam e contratam com base nas leis de direito privado". E certamente aí está um ponto de enorme queixa por parte de Freixo e seus apoiadores. Com uma forte presença em sindicatos de trabalhadores do serviço público, Freixo sempre foi contra a meritocracia. O PSOL é abertamente partidário da prestação pública de serviço, mesmo que isso signifique incompetência, péssimos resultados e metas não alcançadas. Para se ter a certeza da visão de Freixo sobre o assunto, basta pegarmos sua proposta para a área.

Na entrevista cedida à Veja Rio, Freixo citou o custo da parceria com as OSs, mas não comparou os resultados do modelo com uma administração totalmente pública, ignorou as melhorias e mesmo assim apontou sua proposta para a reestatização da administração na área de saúde: "O modelo de gestão das OS está custando cerca de 40% do orçamento da saúde e os resultados não vão ao encontro do quantitativo de recurso utilizados. Ou seja, os indicadores comprovam que o modelo além de caro não é eficiente. Defendemos a retomada do domínio público sobre a administração dos programas de saúde do município, com a implementação de um plano que promova em acordo com estrutura orçamentária do município a progressiva redução da participação das Organizações Sociais na administração das unidades de saúde, garantindo a continuidade na prestação dos serviços e criando novos postos de trabalho mediante concurso público para recompor o quadro de servidores, especialmente na rede básica e nos hospitais".

Novamente Marcelo Freixo tropeça na questão do orçamento, assim como nas suas promessas para o transporte e as outras áreas. Nem Freixo, nem seus apoiadores, muitos menos seus eleitores estão demonstrando a mínima preocupação com o fato do volume de investimentos em decorrência da Copa do Mundo e das Olimpíadas terem ficado para trás, assim como os eventos. E o que nos restou foi uma crise financeira ocasionada por medidas desastrosas apresentadas pelo governo federal do PT, que Freixo apoiou. A visão de aumento do poder público e da restrição da iniciativa privada significa justamente aumento do gasto público. Como as arrecadações estão caindo, será necessário aumentar a cobrança dos impostos, que recairão sobre os mais pobres. Não existe outro caminho para as propostas de Marcelo Freixo serem colocadas em práticas que não seja o sufocamento financeiro dos cidadãos do Rio de Janeiro.

Modelo político do PSOL é o governo chavista de Nicolás Maduro, na Venezuela

Para não ficarmos apenas na teoria ao explicar as propostas de Marcelo Freixo e dos demais candidatos do PSOL à prefeitura, como Luiza Erundina em São Paulo e Luciana Genro em Porto Alegre, temos exemplos práticos do modelo que o "Partido Socialismo e Liberdade" apoia. O governo chavista de Nicolás Maduro, responsável pelo impressionante empobrecimento da Venezuela, autor de medidas autoritárias para se manter no poder, com prisões arbitrárias de opositores, domínio ditatorial do sistema jurídico, dissolvimento do parlamento após derrota nas eleições legislativas e abertamente censurador ao proibir que veículos de comunicação divulguem reportagens que não sejam de interesse governamental, é o modelo cujo qual o PSOL se ancora para apresentar propostas aos cidadãos brasileiros.


O site oficial do "Partido Socialismo e Liberdade" divulgou uma nota manifestando não apenas uma aberta torcida por Maduro na última eleição presidencial (que foi acusada de fraude), como ainda informou o envio de uma comitiva para acompanhar a disputa. O pleito venezuelano foi cercado de protestos, ações arbitrárias da polícia governamental e prisões sem julgamento nem motivos previstos em lei. No entanto, ao reportar a situação no país sul-americano, o PSOL apresenta um texto completamente chapa branca, ignorando as inúmeras e excessivas ilegalidades cometidas por Nicolás Maduro.

Em uma reportagem do jornal "O Globo", publicada recentemente, no mês de setembro, há um retrato do estado de caos encontrado na Venezuela. De acordo com a publicação, "diante de uma grave crise econômica, um hospital se viu obrigado a acomodar seus bebês recém-nascidos dentro de caixas de papelão na Venezuela. Apertados em condições impróprias, eles dormem nos recipientes que são colocados sobre o chão porque não há berços. A imagem foi divulgada por um funcionário do hospital da cidade de Barcelona, no estado de Anzoátegui, em mais um retrato de escassez de itens médicos que atinge o país".


Em outra publicação, dessa vez do site "Spotniks", há uma listagem que explica e esclarece as incoerências que formam o espírito da legenda que distorce a história ao colocar socialismo e liberdade lado a lado. Logo de cara, o primeiro item traz a justificativa para o PSOL ser visto como espantalho partidário: a defesa de democracia sem democracia. O segundo item vai ao encontro do que foi dissecado neste artigo sobre as propostas de Freixo para o RJ: que taxar os ricos é mais importante que diminuir a carga tributária sobre os mais pobres. Há também destaque para outros pontos defendidos pelo partido, como a defesa de uma liberdade desde que se retire a liberdade de expressão; que a homofobia deve ser denunciada, menos se ela partir de líderes políticos de esquerda; e que uma suposta defesa da mulher está muito mais voltada para pautas partidárias do que uma legítima... defesa da própria mulher.

Na tentativa de angariar votos dos despolitizados, Marcelo Freixo se utiliza de uma estratégia bastante perceptível: a de evitar o uso da palavra "esquerda" em debates televisivos e discursos para o grande público. No entanto, os militantes do PSOL sabem que isso não passa de um blefe. Em um vídeo compartilhado no YouTube, Marcelo Freixo aparece fantasiado de ditador esquerdista promovendo uma doutrinação em uma mulher. Na encenação, a mulher inicialmente faz o papel de uma caricatura do que seria a direita na visão esquerdista, para depois terminar no papel de feminista que acredita estar lutando por seus direitos ao não se depilar.