[Relacionamentos violentos] Um amor de valentão

Resultado de imagem para violencia domestica

Por Theodore Dalryple

Semana passada, uma moça de dezessete anos foi admitida na minha enfermaria completamente embriagada, tão mal que quase não podia respirar sozinha, já que o álcool lhe causara depressão respiratória. Quando finalmente acordou, doze horas depois, contou-me que era grande consumidora de álcool desde os doze anos.

Havia parado de beber quatro meses antes de dar entrada no hospital, disse, mas voltara à bebida por causa de uma crise. Seu namorado, de dezesseis anos, acabara de ser condenado a três anos de detenção por uma série de invasões de domicílios e assaltos. Ele era o que ela chamou de “terceiro relacionamento sério” — os dois primeiros duraram quatro e seis semanas, respectivamente. Após quatro meses de vida com esse jovem assaltante, no entanto, a perspectiva da separação era demasiada dolorosa, e isso a fez retornar à bebida.

Acontece que eu também conhecia sua mãe, uma alcoólatra crônica com predileção por namorados violentos; o último fora apunhalado no coração, poucas semanas antes, numa briga de bar. Os cirurgiões no meu hospital salvaram-lhe a vida; e para celebrar a recuperação e a alta, ele foi direto para o bar. De lá, voltou para casa bêbado, e espancou a mãe da minha paciente.

Minha paciente era inteligente, mas tinha pouca cultura, como só o sistema educacional britânico pode produzir após onze anos de frequência escolar compulsória. Achava que a segunda guerra mundial acontecera na década de 1970 e não conseguia acertar nenhuma data histórica.

Perguntei se ela achava que o jovem assaltante violento era realmente um bom companheiro. Ela admitiu que o rapaz não era bom, mas era do tipo físico que ela gostava; além disso — em ligeira contradição — todos os rapazes são iguais.

Adverti, da maneira mais clara que pude, que ela já estava muito abaixo na ladeira rumo à pobreza e miséria — e, como aprendi pela experiência com incontáveis pacientes, ela logo teria uma sucessão de namorados violentos, possessivos e exploradores, a menos que mudasse sua vida. Disse-lhe que, nos últimos dias, tinha visto duas pacientes cujas cabeças foram arrebentadas no banheiro, uma outra paciente que teve a cabeça esmagada contra a janela e a garganta cortada por um caco de vidro; outra que teve o braço, maxilar e crânio fraturados; e ainda uma que fora suspensa pelos tornozelos do lado de fora da janela do décimo andar de um prédio ao som de “Morra, vagabunda!”.

- Sei tomar conta de mim — disse-me a moça de dezessete anos.
- Mas os homens são mais fortes que as mulheres — disse. — Quando se trata de violência, eles estão em vantagem.
- Você está sendo muito sexista — respondeu.

Uma moça que não absorvera nada na escola tinha, contudo, assimilado o jargão do politicamente correto e, em particular, do feminismo.

- Mas é um fato simples, direto e inescapável — respondi.
- É sexista — a garota reiterou com firmeza.

Uma recusa obstinada em enfrentar fatos inconvenientes, não importando quão óbvio sejam, impregna nossa atitude acerca da relação entre os sexos. Um filtro ideológico que toma desejos por realidade retém tudo o que preferimos não reconhecer a respeito dessas relações difíceis e controversas, com resultados previsivelmente catastróficos.

Deparo-me com tal recusa em todos os lugares, mesmo entre as enfermeiras da minha ala. Esse grupo de pessoas inteligentes e capazes, decentes e dedicadas, no quesito julgamento de caráter, parecem, total e quase deliberadamente, incompetentes.

Na enfermaria de Toxicologia, por exemplo, 98% dos 1.300 pacientes que atendemos a cada ano tentaram o suicídio por overdose. Um pouco mais da metade são homens, e ao menos 70% deles recentemente cometeram algum ato de violência doméstica. Após esfaquear, estrangular ou apenas bater naquela que agora aparecem nos registros médicos como companheiras, tomam uma overdose ao menos por um desses três motivos, e as vezes pelos três: para evitar comparecer ao tribunal; para chantagear emocionalmente suas vítimas; e para mostrar que sua violência é circunstância médica, sendo dever do médico curá-la. Das pacientes femininas que tentam suicídio, uns 70% sofreram violência doméstica.

Dadas as circunstâncias, não é de surpreender que agora possa afirmar, num simples relance — com um bom grau de precisão -, que um homem é violento para com os que considera importantes (isso não significa, é claro, que possa dizer quando um homem não é violento com sua companheira). Na verdade, os indícios não são particularmente sutis. Uma cabeça bem raspada com muitas cicatrizes, fruto de pancadas com garrafas ou copos; nariz quebrado; tatuagens azuladas nas mãos, braços e pescoço, com mensagem de amor, ódio ou protesto, mas, sobretudo, uma expressão facial de malignidade concentrada, egoísmo indignado e desconfiança feral — tudo isso entrega o jogo logo de cara. De fato, não analiso mais os indícios e deduzo a conclusão: a propensão de um homem para a violência é imediatamente identificável no rosto e no comportamento, assim como qualquer outro traço do caráter.

O que mais me surpreende, no entanto, é que as enfermeiras percebem as coisas de maneira diferente. Não veem a violência no rosto, nos gestos, na conduta e nos corporais do sujeito, muito embora tenham a mesma experiência com os pacientes que eu. Elas ouvem as mesmas histórias e veem os mesmos sinais, mas não fazem os mesmos juízos. E mais ainda, parecem nunca aprender. A experiência — como a sorte, no famoso dito de Louis Pasteur — só favorece os espíritos preparados. E quando, num olhar rápido, adivinho que um homem é um inveterado espancador de esposas (utilizo o termo “esposa” bem livremente), elas ficam estarrecidas com a brusquidão de meu julgamento mesmo quando, mais uma vez, eu provo estar certo.

Isso não é questão de mero interesse teórico para as enfermeiras uma vez que muitas delas, em suas vidas privadas, são também vítimas complacentes de homens violentos. Por exemplo, o namorado de uma de minhas enfermeiras sênior, uma jovem atraente e alegre, recentemente a manteve sob a mira de um revólver e a ameaçou de morte após tê-la deixado, nos meses anteriores, várias vezes com o olho roxo. Encontrei com ele uma vez, quando foi procurar por ela no hospital: era exatamente o tipo de homem egotista e feroz, de quem manteria distância em plena luz do dia.

Por que as enfermeiras relutam tanto para chegar às conclusões inevitáveis? O treinamento que recebem diz, acertadamente, que o dever é cuidar de todos sem levar em conta méritos e deméritos; mas para elas, não há diferença entre suspender o juízo para determinados propósitos e não fazer nenhum juízo em hipótese alguma. É como se temessem muito mais dar um veredicto verdadeiro negativo a respeito de uma pessoa do que tomar um soco no rosto — uma consequência bastante provável, incidentalmente, de seu erro de discernimento. Já que dificilmente é possível reconhecer um homem que bate na mulher sem condená-lo intimamente, é mais seguro não reconhece-lo como tal em primeiro lugar.

Esse erro de reconhecimento é quase universal entre minhas pacientes violentamente maltratadas, mas, nelas, essa função difere um tanto das enfermeiras. As enfermeiras precisam manter um certo apreço pelos pacientes para que consigam realizar suas funções; no entanto, nas vítimas de violência, a falha em perceber antecipadamente a violência do homem que escolhem serve para absolve-las de toda a responsabilidade pelo que acontece depois disso, permitindo-lhes pensar que são apenas vítimas, e não vítimas e cúmplices como de fato o são. Ademais, isso serve como desculpa para que obedeçam a seus impulsos e caprichos, permitindo-lhes supor que a atração sexual é a medida de todas as coisas, e que a prudência na escolha de um companheiro masculino não é possível nem desejável.

Por diversas vezes a imprudência dessas mulheres seria digna de riso se não fosse trágica: amiúde, na minha ala hospitalar, vi surgirem relacionamentos entre uma mulher vítima de violência e um paciente masculino que maltrata mulheres, meia hora depois após se conhecerem; logo, posso vaticinar a respeito da relação — e profetizar que certamente terminará em violência, assim como o sol nascerá novamente amanhã.

No início, as pacientes negam que a violência dos parceiros fosse previsível. Quando pergunto, no entanto, se elas acham que eu teria percebido antecipadamente, a grande maioria — nove entre dez — respondem que sim, claro. E quando pergunto como elas pensam que eu conseguiria perceber, enumeram precisamente os fatores que me levaria àquela conclusão; portanto, a cegueira é intencional.

A desatenção desastrosa atual a respeito de questões tão sérias como o relacionamento entre sexos, certamente, é algo novo na história: mesmo há trinta anos, as pessoas demonstravam uma circunspecção muito maior do que hoje em dia para começar um relacionamento. A mudança representa, é claro, o cumprimento da revolução sexual. Os profetas dessa revolução desejavam esvaziar do relacionamento entre os sexos todo o significado moral e destruir os costumes e as instituições que o regiam. O entomologista Alfred Kinsey reagiu à própria criação repressora e puritana ao concluir que todas as formas de repressão sexual eram injustificadas e psicologicamente prejudiciais. O romancista Norman Mailer, levando os estereótipos raciais tão a sério quando qualquer membro da Ku Klux Klan, viu na sexualidade supostamente desinibida dos negros a esperança do mundo para uma vida mais abundante e rica. O antropólogo social de Cambridge, Edmund Leach, informou ao público pensante britânico, pelo rádio, que a família nuclear era a responsável por todo o descontentamento humano (isso no século de Adolf Hitler e Josef Stalin!); o psiquiatra R. D. Laing culpou a estrutura familiar por sérias doenças mentais. De modos diferentes, Norman O. Brawn, Paul Goodman, Herbert Marcuse e Wilhelm Reich entraram na campanha para convencer o mundo ocidental de que a sexualidade sem entraves era o segredo da felicidade e que a repressão sexual, juntamente com a vida familiar burguesa que outrora limitava e direcionava a sexualidade, não eram nada além de mecanismo da patologia.

Todos esses entusiastas acreditavam que, se as relações sexuais pudessem ser libertadas das inibições sociais artificiais e das restrições legais, algo belo surgiria: uma vida em que nenhum desejo precisaria ser frustrado, uma vida em que a mesquinhez humana derreteria como a neve na primavera. O conflito e a desigualdade entre os sexos desapareceriam, porque todos teriam aquilo que ele ou ela quisessem, quando ele ou ela quisessem. Os motivos das emoções burguesas triviais, como ciúme e inveja, desapareceriam: num mundo de perfeita satisfação, cada pessoa seria tão feliz quanto a outra.

O programa dos revolucionários sexuais foi mais ou menos executado, especialmente nas classes mais baixas da sociedade, no entanto, os resultados foram imensamente diferentes do que fora previsto de maneira tão estúpida. A revolução foi a pique na rocha da realidade inconfessa: de que as mulheres são mais vulneráveis à violência que os homens exclusivamente em virtude da biologia, e que o desejo da pessoa exclusividade sexual do parceiro continuou tão forte quanto antes. Esse desejo é incompatível, é claro, com o desejo igualmente poderoso — eternos nos sentimentos humanos, mas até agora controlado por inibições sociais e legais — de total liberdade sexual. Por conta dessas realidades biológicas e psicológicas, os frutos da revolução sexual não foram o admirável mundo novo de felicidade humana, mas, ao contrário, um enorme aumento da violência entre os sexos por razões prontamente compreensíveis.

É claro, mesmo antes de qualquer explicação, a realidade desse aumento encontra uma raivosa negação por parte daqueles que possuem interesses ideológicos escusos e pretendem dissimular os resultados das mudanças que ajudaram a implementar e saúdam entusiasticamente. Utilizarão o tipo de ofuscação que os criminologistas progressistas há muito empregam para convencer-nos de que o medo do crime, e não o próprio crime, aumentou. Dirão (acertadamente) que a violência entre homem e mulher sempre existiu em todas as épocas e lugares, mas nossa postura diante disso mudou (talvez, também corretamente), de modo que os maus-tratos são relatados com maior frequência do que antes.

Ainda assim, continua a ser verdadeiro o fato de um hospital, como o em que trabalho, ter experimentado nas últimas duas décadas um aumento enorme no número de maus-tratos à mulher, a maioria dos casos resultado de violência doméstica e muitos do tipo que sempre requer cuidados médicos. O aumento é real, não um artefato produzido pela denúncia. Uma entre cinco mulheres, dos dezesseis aos cinquenta anos, que vivem na área atendida pelo meu hospital, dão entrada no setor de emergência durante o ano em decorrência dos ferimentos sofridos durante uma briga com o namorado ou marido; e não a motivo para supor que meu hospital seja diferente de qualquer outro hospital local, que junto com o meu oferecem atendimento médico a metade da população da cidade. Nos últimos cinco anos tratei de pelo menos uns dois mil homens que foram violentos com suas mulheres, namoradas, amantes e concubinas. Parece-me que tamanha violência, em tão grande escala, não poderia ter sido facilmente negligenciada em épocas anteriores — mesmo por mim.

Existe uma excelente razão por que esses tipos de violência aumentaram durante a nova dispensação sexual. Se as pessoas procuram liberdade sexual para si mesmas, mas fidelidade sexual da outra parte, o resultado é a excitação do ciúme, pois é natural supor que aquilo que um faz, está sendo feito da mesma maneira pelo outro — e o ciúme é o precipitador mais frequente da violência entre os sexos.

O ciúme sempre foi uma característica das relações entre homens e mulheres: a peça Otelo, escrita por William Shakespeare há quatro séculos, ainda é instantaneamente compreensível. Encontro ao menos uns cinco Otelos e umas cinco Desdêmonas por semana, e isso seria algo novo, caso os livros de psiquiatria impressos há poucos anos estivessem certos em afirmar que o ciúme de tipo obsessivo é um caso raro. Longe de ser raro, hoje em dia é quase a norma, em especial entre os homens da subclasse, cujo senso frágil de autoestima deriva unicamente da posse de uma mulher e está sempre se equilibrando à beira da perspectiva humilhante de perder seu esteio na vida.

A crença na inevitabilidade do ciúme masculino é uma das principais razões de as minhas pacientes violentamente maltratadas não deixarem os homens que as maltratam. Essas mulheres experimentaram, sucessivamente, uns três ou quatro homens desse tipo, e quase não faz sentido trocar um pelo outro. Os maus-tratos conhecidos são melhores que os desconhecidos. Quando pergunto se elas não estariam melhor sem nenhum homem do que com um algoz masculino, elas respondem que uma mulher solteira na vizinhança é vista como presa fácil para todos os homens e, sem o protetor nomeado por ela mesma, ainda que violento, sofreria mais violência, e não menos.

O ciúme masculino — e a paixão é mais comum nos homens, apesar de as mulheres, por sua vez, estarem quase alcançando os homens e se tornando violentas — é a projeção, na mulher, do próprio comportamento. A grande maioria dos homens ciumentos que encontrei são extremamente infiéis ao objeto de suporta afeição, e alguns mantêm outras mulheres na mesma submissão ciumenta em outra parte da cidade e até a uns 150 km de distância. Não têm escrúpulos em imaginar, saber, ver ou estar com a mulher de outros homens e, nas verdade, têm prazer em fazê-lo como um meio de inflar os próprios egos frágeis. O resultado é que imaginam todos os outros homens como rivais: pois a rivalidade é um relacionamento recíproco.

Assim, uma simples olhadela num bar dirigida à namorada de um homem desses é o suficiente para começar uma briga, não só entre a moça e o amante, mas, mesmo antes disso, entre os dois homens. Graves crimes de violência continuam a aumentar na Inglaterra, muitos deles ocasionados por ciúme sexual. Cherchez la famme nunca foi um indicador seguro para explicar uma tentativa de assassinato como nos parece, hoje em dia; e a natureza extremamente instável das relações entre os sexos é o que o torna um preceito tão sólido.

A violência do homem ciumento, no entanto, nem sempre é ocasionada pelo suposto interesse da companheira por outro homem. Ao contrário, tem função profilática e ajuda a manter a mulher totalmente submissa a ele, até o dia em que ela decidir deixa-lo; pois o ponto central da vida dessa mulher é evitar a cólera furiosa. Evitar, todavia, é impossível, já que é a própria arbitrariedade da violência que a mantém submissa. Assim, quando escuto de uma paciente que o homem com quem vive a espancou severamente por um motivo banal — por ter servido batatas assadas quando ele as queria cozidas, por exemplo, ou por ter deixado de espanar o pó de cima da televisão — imediatamente sei que o homem é obsessivamente ciumento, pois o homem ciumento deseja ocupar todos os pensamentos da mulher, e não há método mais eficiente de conseguir isso do que esse terrorismo arbitrário. Desse ponto de vista, quanto mais arbitrária e completamente desproporcional a violência, mais funcional ela é. De fato, muitas vezes ele estabelece condições impossíveis de a mulher cumprir — que a refeição esteja pronta, esperando por ele, no momento em que chegar, por exemplo, embora não diga nem mesmo quatro horas antes quando chegará em casa — exatamente para ter oportunidade de surrá-la. Na verdade, esse método é tão eficiente que a vida mental de muitas das mulheres violentamente maltratadas que atendo esteve concentrada, durante anos, nos seus amantes — no seu paradeiro, desejos, comodidades, estados de espírito — a ponto de pôr de lado todas as outras coisas.

Quando ela finalmente o deixa, como quase sempre ocorre, ele vê a partida como um ato de extrema traição e conclui que deve tratar a próxima companheira com severidade ainda maior para evitar que isso se repita. Ao observar a instabilidade dos relacionamentos sexuais ao seu redor e ao refletir sobre a própria experiência recente, ele se torna vítima de uma permanente paranoia sexual.

Pior ainda, a tendência social desse tipo de relacionamento é de autorreforço: as crianças que geram são criadas suponde que todos os relacionamentos homem-mulher são apenas temporários e estão sujeitos a revisão. Desde a mais tenra idade, portanto, as crianças vivem numa atmosfera de tensão entre o desejo natural de estabilidade e o caos emocional que veem ao redor. Não são capazes de dizer se o homem de suas vidas — o homem a quem chamam de “papai” hoje — estará lá amanhã. (Como me contou uma de minhas pacientes ao falar da decisão de deixar o último namorado. “Ele foi pai de meus filhos até semana passada.” Não é preciso dizer que ele não era o pai biológico de nenhuma das crianças, todos esses partiram muito antes).

O filho aprende que a mulher está sempre prestes a abandonar o homem; a filha, que os homens, inevitavelmente, são violentos e não são confiáveis. A filha é mãe da mulher: e já que aprendeu que todos os relacionamentos com homens são violentos e temporários, conclui que não há muito que pensar no amanhã, ao menos no que diz respeito a escolher um companheiro. Não apenas há pouca diferença entre eles, exceto qualidades acidentais de atratividade física, como qualquer erro pode ser consertado ao abandonar o homem ou os homens em questão.

Assim, podemos iniciar relacionamentos sexuais quase com a mesma seriedade de raciocínio que dedicamos à escolha do cereal de café da manhã — essa era, precisamente, o ideal de Kinsey, Mailer et al.

Por que a mulher não abandona o companheiro assim que ele manifesta ser violento? Porque, perversamente, a violência é o único sinal de compromisso que ela possui. Da mesma maneira como ele quer a posse sexual exclusiva da mulher, ela quer um relacionamento permanente com seu homem. Ela imagina — falsamente — que um soco no rosto ou uma esganadura é, ao menos, sinal de contínuo interesse, o único sinal, além das relações sexuais, que provavelmente receberá a esse respeito. Na ausência de uma cerimônia de matrimônio. Um olho roxo é uma nota promissória de amor, honra, cuidado e proteção.

Não é tanto a violência dele que faz com que ela o deixe, mas a percepção derradeira de que a violência dele não é, de fato, um sinal de compromisso. Descobre que ele é infiel ou que sua renda é maior do que ela suspeitara e que é gasta fora de casa; é somente aí que a violência parece intolerável. Ela está tão convencida de que a violência é uma parte intrínseca e indispensável da relação entre os sexos que se, por acaso, na próxima vez ela se relacionar com um homem que não é violento, sofrerá um terrível desconforto e desorientação; poderá até deixa-lo por esse homem não demonstrar suficiente preocupação por ela. Muitas das minhas pacientes violentamente maltratadas contaram-me que acham os homens que não são violentos intoleravelmente indiferentes e emocionalmente distantes, visto que a ira é a única emoção que já viram um homem expressar. Elas os abandonam mais rapidamente do que deixam os homens que as espancam e maltratam.

Os revolucionários sexuais queriam liberal as relações sexuais de todos os conteúdos, exceto o meramente biológico. Doravante, tais relacionamentos não estariam mais sujeitos aos arranjos contratuais restritivos dos burgueses — ou, Deus nos libre, aos sacramentos — tais como o casamento religioso. Não haveria estigma social relacionado a qualquer conduta sexual que fosse vista, previamente, como repreensível. O único critério que regeria a aceitabilidade das relações sexuais seria o consentimento mútuo dos que nelas ingressavam: nenhuma ideia de dever para com o outro (com as próprias crianças, por exemplo) atrapalharia a realização do desejo. A frustração sexual fruto de obrigações sociais artificiais e das restrições era o inimigo, e a hipocrisia — a consequência inevitável de manter as pessoas presas a padrões de conduta — era o pior pecado.

O coração quer coisas contraditórias, incompatíveis; as convenções sociais surgiram para resolver alguns conflitos de nossos próprios impulsos; a eterna frustração é uma companheira inescapável da civilização, como Freud observara — todas essas verdades recalcitrantes não foram percebidas pelos proponentes da liberação sexual, o que condenou a revolução ao fracasso definitivo.

O fracasso atingiu em cheio a subclasse. Nem por um momento sequer os libertadores sexuais pararam para considerar os efeitos da destruição dos sólidos laços familiares nos mais pobres, laços que, pela mera existência, faziam com que um grande número de pessoas saísse da pobreza. Estavam preocupados somente com os dramas insignificantes das próprias vidas e com as próprias insatisfações. Ao subestimar, obstinadamente, as mais obvias características da realidade, como fizera minha paciente de dezessete anos que pensava na superioridade da força física masculina como um mito sexista socialmente construído, seus esforços contribuíram, em grande parte, para a intratabilidade da pobreza nas cidades modernas. Apesar do grande aumento geral da riqueza, a revolução sexual transformou os pobres de classe em uma casta da qual estão impedidos de sair, enquanto a revolução prosseguir.

Este texto foi publicado originalmente no City Journal e publicado no livro A Vida na Sarjeta

Theodore Dalrymple é um psiquiatra britânico e autor de vários livros A Nossa Cultura- Ou o que Restou Dela, A Vida na Sarjeta, Podres de Mimados e outros.

O Congressista precisa de sua ajuda. Nos faça uma doação através de nosso apoia.se




[Relacionamentos violentos] Um amor de valentão [Relacionamentos violentos] Um amor de valentão Reviewed by Unknown on 02:03:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

Tecnologia do Blogger.