A história do soldado russo que sobreviveu à Batalha de Moscou


Por Nicolas Carvalho de Oliveira*

Vários jovens soldados soviéticos que sobreviveram a guerra e ao fim da União Soviética se disponibilizaram para contar suas histórias e relatos para historiadores de todo o mundo. Um deles foi Abram Gordon, um russo judeu.

Durante a Batalha de Moscou, Gordon foi designado para a defesa da estrada de Varsóvia, junto de outros 2.000 soldados. Em menor número e com escassez de equipamentos e armas, no final do dia só restaram de 300 a 350 vivos e capazes de se locomover. Não demorou muito para Gordon ser capturado pelos alemães.

Na prisão, junto de milhares de prisioneiros soviéticos tratados como lixo, um oficial da Alemanha logo gritou para Gordon, desconfiando da sua tez morena: "você é judeu?!". Ainda aterrorizado pela pergunta, alguém ao seu lado respondeu: "não, ele é do Cáucaso". O oficial alemão pareceu satisfeito com a resposta e foi embora. Sua vida ficou por um triz. Se o oficial tivesse descoberto sua origem, teria matado Gordon na hora e hoje não saberíamos nem seu nome.

Na primeira marcha para um campo de prisioneiros atrás das linhas alemãs, Gordon encontrou o tenente Nicolai Smirnov, que planejava fugir imediatamente, escondendo-se numa das pilhas de feno das redondezas. Sabendo que pouquíssimos prisioneiros soviéticos sobreviviam sob o jugo alemão, Gordon topou.

Apesar de muitos terem sido mortos por guardas alemães tentando seguir Smirnov e Gordon, a dupla sobreviveu. Foram auxiliados por aldeões locais e orientados para o front soviético. No mundo civilizado, eles seriam alimentados e poderiam descansar por um tempo e depois voltar pro front. Mas não na União Soviética.

Stálin acreditava que ninguém - soldado ou civil - poderia se render. Deveriam se suicidar ou lutar até a morte. Quem fosse capturado seria tratado como um espião em potencial. Foi o que aconteceu com centenas de milhares de soldados e civis soviéticos capturados, mesmo após o fim da guerra. Grande parte foi enviada direto para um lagpunkt da Gulag.

Aleksandr Soljenitsin, o autor de Arquipélago Gulag (soldado e oficial durante a guerra), escreveu que o tratamento da União Soviética dispensado aos seus soldados e civis capturados é a página mais infame da história da Rússia. Na Grã Bretanha, Estados Unidos e França eles estavam sendo recebidos com festas e medalhas. Até na Alemanha nazista os soldados que sobreviviam a captura eram promovidos. Na União Soviética, eram torturados pela NKVD e enviados pra Gulag.

O interrogador de Abram Gordon estava convencido de que ele era um espião. Gordon e Smirnov contaram tudo que aconteceu, confiantes de que não tinham feito nada de errado. Mas a lógica soviética era insana, infernal, e não tinha piedade de ninguém. Gordon disse, amargurado: "mas eu sou judeu... Os alemães não poupam judeus". Isso pareceu convencer seu interrogador.

Gordon disse para os historiadores, numa passagem que veio a se tornar recorrente em livros sobre a guerra e a Gulag: "foi a única vez na minha vida que ser judeu me ajudou". Um tempo depois, Gordon foi enviado novamente para o front.

Mas o tenente Smirnov teve um desfecho diferente. Por ser oficial, era duplamente suspeito. Gordon soube posteriormente que seu corajoso camarada de fuga foi enviado para a Gulag e apenas quatro meses depois já estava morto, por tuberculose. Dezenas de milhares de soldados e de civis soviéticos capturados tiveram precisamente o mesmo fim, por terem o azar de viver numa pátria apátrida que só sabia responder com brutalidade a qualquer tipo de situação.


*Nicolas Carvalho de Oliveira é um jovem estudante liberal clássico da tradição Whig que não gosta de autodescrições longas.
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