A intervenção não resolve, mas algo precisava ser feito


Por Wilson Oliveira

A visão marxista-progressista contaminou por completo os debates acerca de segurança no Rio de Janeiro e no Brasil. Os arrastões, os tiroteios, a banalização do assalto e das mortes, inclusive de crianças, são o resultado da tese de que "prendemos demais" e que "cadeia não resolve, mas sim escola". A proposta de medidas questionáveis cujo resultado duvidoso só aparecerá, se aparecer, daqui a décadas, deram toda a liberdade do mundo para o crime organizado avançar sobre a sociedade civilizada e hoje possuir o domínio que possui de boa parte do território da Cidade Maravilhosa. As favelas se transformaram em regiões completamente hostis aos serviços e à presença do Estado.

A intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro corre um sério risco de naufragar se pontos de extrema importância e urgência não forem reparados. A começar pelo que será permitido ser feito pelas Forças Armadas. É preocupante sabermos que as possibilidades estão aquém das dificuldades que serão encontradas. Um soldado do Exército não poderá prender nem abater quem tiver portando um fuzil, por exemplo. Uma equação completamente desproporcional, pois é sabido que quando um bandido armado tem a oportunidade, ele abate qualquer membro de força de segurança que ele vir pela frente. O número de policiais mortos só no ano de 2017, no Rio, estão aí para comprovar.

Não menos urgentes são os problemas encontrados no centro das corporações policiais. A corrupção, o corporativismo levando inclusive a associações de uns com o crime organizado e negligência de outros, causando uma corrosão que pega desde o aspirante ao alto comando, sobrando o trabalho extremamente burocrático aos policiais que se negam a entrar no jogo sujo da corporção, impede o bom uso dos serviços para os quais aquela instituição combatente foi treinada. Corre no boca a boca dos cidadãos cariocas que entre morrer e continuar vivo, os policiais escolhem continuar vivo, do jeito que é possível. Mas vemos que mesmo assim eles estão morrendo, um a um.

Comandante militar do Leste, o general do Exército Walter Braga Netto, interventor responsável pela segurança do Rio de Janeiro, a priori, não poderá ordenar aos seus homens do Exército que façam o trabalho de polícia. Independente se isso é positivo ou negativo, será com essa polícia problemática que ele terá que contar para, ao menos, dar voz de prisão os bandidos, que carregam fuzis pendurados no pescoço e nas mãos, que possui um exército também treinado para impedir a aproximação de qualquer força de segurança, e que ainda conta com o apoio, voluntário ou involuntário, dos moradores das favelas, que servem de escudos humanos para o tráfico.

Um episódio nem tão longe na história de violência e criminalidade do Rio de Janeiro trouxe à tona imagens de como é difícil capturar bandidos em favelas cariocas. A ocupação do Complexo do Alemão, na Penha, em 2010, que de uma forma até hoje inexplicável acabou sendo televisionada ao vivo para todo o país, expôs para o Rio e para o Brasil os desafios impostos ao Estado de Direito pela legislação no enfrentamento ao governo paralelo montado pelo narcotráfico. Policiais avançaram sobre os becos mais remotos da região, mas bandidos puderam promover uma fuga cinematográfica sem maiores dificuldades, uma vez que sem terem reagido a tiros também não poderiam ser alvejados.

Quando esse mesmo Exército brasileiro foi designado, em 2004, para comandar a Missão das Nações Unidas para Estabilização da Paz no Haiti, que foi encerrada apenas no ano passado sob aplausos da comunidade internacional, houve uma forte campanha naquele país de que quem transitasse em qualquer área portando um armamento considerado pesado ou de guerra poderia ser eliminado pelas forças expedicionárias. Óbvio que se trata de uma medida dura, extrema, mas que, na opinião do General da reserva Augusto Heleno, em participação no programa Painel, da Globo News, sem a qual nada poderia ser feito de relevante para se atingir o estabelecimento da ordem no local.


Facções de tráfico possuem nível operacional profissional e sofisticado

A exemplo do fenômeno que acontecia no Haiti, vemos a repetição, no Rio de Janeiro, de áreas que funcionam como mini países informais, com território e população completamente dominados pelos marginais. É o poder soberano do crime. É uma ocorrência que durante décadas ficou restrita às favelas, operadas por facções de tráfico de droga, mas que hoje já ocupa bairros inteiros e que ganhou a concorrência das milícias (grupos paramilitares formados por ex-policiais e ex-bombeiros, que também já se especializou no tráfico e na venda de drogas). Esses grupos contam com apoio logístico e financeiro de políticos e policiais corruptos, capazes de vazar e de sabotar operações feitas justamente para o combate a esse tipo de crime organizado, drenando recursos e afetando diretamente o sucesso das últimas administrações de segurança pública no Estado do Rio de Janeiro.

A realidade do crime organizado estão tão avançada e sofisticada que eles já contam com um departamento de informações e propaganda, gerenciando a vida diária e noturna das comunidades que administram, lançando cantores de funks que promovem shows nas próprias favelas organizados pelo próprio tráfico, que já conta inclusive com empresas que prestam assessoria artística a esses funkeiros. Nos bailes, é comum a promoção do sexo e da exaltação ao poder paralelo que domina a comunidade, tudo para manter seus frequentadores sob total domínio. E engana-se quem acha que esses eventos são frequentados apenas por moradores. Muitos são anunciados, inclusive, em grandes emissoras de rádio, com a participação de grandes marcas como patrocinadores.

Há uma larga estrutura operacional para que os moradores das favelas não objetivem nada que venha do Estado. O próprio tráfico é responsável por serviços de água, de gás, de TV a cabo, de internet e de transporte, com o uso de motos, vans e táxi, que atualmente já operam por toda a cidade. E chega a ser surpreendente o fato dessas empresas serem legais, possuírem CNPJ, mas tudo com o uso de laranjas, justamente para dificultar ainda mais a expedição de mandados judiciais de busca e apreensão dentro das favelas. Os traficantes também são proprietários dos estabelecimentos comerciais nas comunidades, ficando responsáveis pela cobrança de taxas, aluguéis e impostos, além de confeccionarem a documentação que "permite" o funcionamento de qualquer atividade dentro da favela.

Todo esse conjunto de ações resulta numa cuidadosa marcação de território com a sigla da facção responsável, que pode ser CV (Comando Vermelho), TC (Terceiro Comando) ou ADA (Amigo dos Amigos), que vem acompanhada do nome do líder ou dos líderes daquela delimitação geográfica na comunidade. Com essas imposições de comando, o crime organizado também faz um trabalho de garimpo, com distribuição de panfletos e colocação de faixas em pontos estratégicos para conseguir novos recrutas, todos jovens, em idade escolar, muitos dos quais participantes obrigados pelos próprios traficantes do Curso de Formação de Cabos do Exército para que tenham formação militar, que posterioramente é usada em benefício da própria facção.

As facções também possuem o cuidado de manter departamentos jurídicos, que funcionam na obtenção de habeas corpus aos seus membros quando são "acidentalmente" presos em alguma operação policial fora ou dentro das favelas. A partir daí, entra em cena o que é chamado de “arrego” (pagamentos de propinas a policiais e políticos). As facções contam ainda com departamentos financeiros e logísticos, que cuidam do fluxo de caixa, das matérias-primas, do suprimento de armas e munições, da produção, com um gerenciamento para cada tipo de droga e de distribuição, com os departamentos de venda e de varejo, além da "entrega em domicílio", que é o formato de comercialização adotado para os clientes das áreas de maior poder aquisitivo do Rio de Janeiro, além, ainda, dos franqueadores, que atuam em festas e bares.

Por fim, o departamento de alerta é apenas a ponta do iceberg, aquele que aparece nas reportagens e nos vídeos que circulam pela internet, com crianças (os aviõezinhos do tráfico) portanto rádios de comunicação, celulares e outros sistemas como fogos e pipas, para avisar os combatentes da chegada de policiais ou de grupos rivais, tudo isso com a escolta dos "guardiãos de tráfico", jovens um pouco mais velhos, mas também menores de idade, que por sua vez portam todo o armamento disponível como fuzis, metralhadoras e bombas.

Diante de toda essa realidade que o carioca convive de domingo a domingo, sem trégua, sem pausa e sem descanso, fica no ar, desde o anúncio da intervenção na segurança pública do Rio de Janeiro, que o problema não será inteiramente resolvido, mas que ao menos sirva como ponto de partida para que todos acordem e parem, de uma vez por todas, de dar ouvidos às bobagens marxistas responsáveis por contaminar todo e qualquer debate acerca da segurança, permitindo a completa prostituição do país quando se fala na punição aos bandidos.


*Wilson Oliveira é defensor do retorno da monarquia parlamentar no Brasil. É conservador monarquista, com influências da tradição anglo-saxã do liberalismo clássico, do minarquismo, da Escola Austríaca e da Escola de Chicago. Reside no Rio de Janeiro, é jornalista e editor-chefe de O Congressista.

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