A mídia como ferramenta de manipulação social


Por João Corrêa Neves Junior

No início da década de 30, o correspondente do New York Times na União Soviética, Walter Duranty (1884-1957) publica uma série de artigos sobre o regime de Stalin. Por seu “distinto” trabalho, Duranty foi premiado com o Prêmio Pulitzer de Correspondentes, equivalente ao Oscar do jornalismo. O prêmio, no entanto, causaria controvérsia: Duranty omitiu nada menos do que as políticas de Stalin responsáveis pela tragédia que viria a ficar conhecida como Holomodor Ucraniano. Apesar de inúmeras críticas à premiação e aos artigos que omitiram a existência de um episódio que deixou um rastro de 7.5 milhões de mortes de fome - fatos esses que já eram debatidos desde a época da publicação dos artigos, e que foram confirmados inúmeras vezes nas décadas posteriores, inclusive pelos próprios Russos após o fim do regime de Stalin - ; apesar das críticas pesadas feitas em 1986 na obra The Harvest of Sorrow de Robert Conquest, que confirmou através de Moscow a omissão sobre o Holodomor por parte de Duranty; o New York Times manteve-se em silêncio.

Foi apenas na década de 90, quando da publicação de Stalin’s Apologist (1990), de Sally J. Taylor, que essencialmente coloca sobre a mesa todos os fatos sobre o assunto compilados em uma obra, que o New York Times se pronunciaria formalmente a respeito do assunto, quando já existia um movimento para que o Prêmio Pulitzer dado a Duranty fosse revogado em respeito às vítimas do Holodomor. Nesse mesmo ano, face às acusações que pesavam contra Duranty e contra o próprio New York Times, o jornal reconheceu a calamidade do Holodomor, o absurdo de seu repórter em ter omitido a existência das políticas responsáveis pela tragédia e ainda receber um prêmio pela série de reportagens. Em artigo publicado pelo próprio periódico e assinado pelo editor Karl Mayer, o editor condenou as reportagens como “alguns dos piores trabalhos já publicados neste jornal”.

Em 2003, depois de uma campanha internacional liderada pela Associação Ucraniana e Canadense de Liberdade Civil, os diretores do Pulitzer iniciaram um processo de estudo para revogar o prêmio dado à Duranty. O New York Times por sua vez, contratou o professor de História da Rússia pela Universidade de Columbia, Mark Von Hagen, para revisar o trabalho. Von Hagen concluiu que os artigos de Duranty de fato foram feitos sem absolutamente nenhum senso crítico, sem objetividade e de fato, davam voz à propaganda Stalinista. Von Hagen disse à imprensa na época: “Pela reputação e honra do New York Times, tirem este prêmio deste homem” . A fundação Pulitzer, no entanto, se negou a revogar o prêmio , e Walter Duranty, continua até hoje, sendo um jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer de Jornalismo, mesmo sendo de conhecimento público que Duranty omitiu uma das maiores catástrofes da história, o Holodomor Ucraniano. Por um instante, deixemos Duranty e seu ‘prestigioso’ prêmio Pulitzer de lado.

Ainda sobre a Rússia, chamo a sua atenção para um outro aspecto presente na União Soviética, de que pouco se fala nas universidades ou na mídia em geral, um tema que em meio a tantas referências sobre a Rússia no ano da “comemoração” dos cem anos de sua revolução, passou despercebido.

Até 1917, a Red Square, em Moscou, possuía muitas igrejas, pequenas e grandes, e outros locais de culto e oração. Todos esses lugares foram fechados depois da Revolução Russa e, a partir dos anos 1920's, transformados, entre outras coisas, em banheiros públicos . Isso mesmo, banheiros públicos. Essas ações foram deliberadamente perpetradas com o objetivo de destruir, humilhar e apagar da memória russa, tudo que tivesse ligação com qualquer forma de cultura da religião.


Quanto aos católicos russos, nenhum estudo sistemático havia sido realizado até o final da década de 1990, quando foi revelado por estudiosos a extensão da repressão. Com a exceção de duas igrejas, todos os 1.240 locais de culto católico na Rússia foram transformados em lojas, armazéns, chácaras, piscinas públicas, depósitos de entulhos ou casas sanitárias . A política Soviética Marxista-Leninista advogava consistentemente pelo controle, supressão e eliminação de crenças religiosas, ativamente encorajando o ateísmo. Essas políticas se mantêm presentes até os dias de hoje. Basta você acompanhar o que ocorre na Bolívia neste momento, onde o governo de Morales tenta proibir a evangelização no seu país, com uma lei que essencialmente acaba com o direito de liberdade de expressão, de livre associação e a liberdade religiosa, em nome da defesa de uma agenda “bolivariana”.

Ainda na Rússia, as chamadas ‘Campanhas Anti-Religiosas’ deixariam um rastro de perseguição, mortes e destruição em distintos períodos do regime soviético. Nas campanhas de década de 20, e 30’, praticamente todo o clero da Igreja Ortodoxa Russo foi, ou enviado para os campos de trabalho forçado, ou assassinado. Escolas teológicas foram fechadas e publicações religiosas proibidas. Por volta de 1939, apenas 500 das quase 50 mil igrejas ortodoxas existentes em 1917 ainda restavam. Templos medievais, como o Mosteiro Andronikov do Salvador, o primeiro campo de concentração para prisioneiros políticos dos comunistas, foi praticamente destruído, sendo reconstruído apenas após a queda da União Soviética.


A partir da década de 90 diante o colapso da União Soviética, a situação na Rússia mudaria. Desde o fim do fracasso projeto socialista, 25 mil igrejas foram construídas ou reformadas na Rússia , e outras tantas igrejas abandonadas na França e Itália, adquiridas e transformadas em centros de culto da Igreja Ortodoxa Russa, um feito que a transformaria na segunda maior denominação cristã unida em uma única igreja, depois da Igreja Católica. O apoio do Kremlin, sobretudo sob o governo de Vladimir Putin, certamente preencheria o vazio deixado pela descrença total na vida russos após a queda da União Soviética - especialmente quando mais de dois terços dos russos se declaram cristãos ortodoxos - que utiliza essa união para garantir apoio à sua agenda nacionalista.

Essa agenda nacionalista e suas ramificações culturais, sobretudo a religião cristã ortodoxa, por sinal, tem sido bastante criticada pela grande mídia, já que de acordo com a mídia mainstream, “são nocivas às minorias”. Além disso, o Kremlin tem sido acusado pela mídia, inclusive o próprio New York Times, de influenciar no voto do referendum sobre o Brexit, nas eleições presidenciais da França, e principalmente, nas eleições presidenciais americanas, na qual a Rússia teria fornecido suporte cibernético para perverter a opinião pública em desfavor da candidata Hilary Clinton e em favor do então candidato Donald Trump, que eventualmente venceria as eleições americanas. Essas narrativas, no entanto, carecem de evidências que comprovem se de fato houve alguma interferência, qual seria a natureza dessa interferência e se as mesmas teriam tido qualquer efeito nas decisões das pessoas.

No caso dos Estados Unidos, de fato, a recente publicação do documento conhecido como FISA Memo sugere precisamente o contrário: se houve qualquer conluio com indivíduos os agencias russas, fora por parte do Partido Democrata e seu comitê nacional, o DNC, que durante a campanha de Hilary Clinton, financiou a emissão do chamado Trump Dossier através da empresa Fusion GPS, um documento inverificável e aparentemente forjado que buscava incriminar e debochar do então candidato para presidente do partido Republicano, Donald Trump, com acusações de natureza política e sexual. Este documento seria crucial para que a corte do FISA aceitasse um pedido de espionagem feito pelo FBI, sobre membros da equipe de campanha de Trump. O episódio expõe, em tempo real, o nível da corrupção e o uso das agências de segurança americanas como instrumentos de perseguição política durante a administração de Barack Obama, bem com de toda a estrutura do Partido Democrata nos Estados Unidos.

O que é curioso, e aqui eu peço encarecidamente a sua atenção, é o seguinte detalhe: Quando a Rússia estava transformando igrejas em banheiros públicos; assassinando o clero; enviando dissidentes para campos de concentração, massacrando o seu próprio povo e provocando a morte de mais de 7 milhões de pessoas de fome no Holodomor da Ucrânia, o New York Times e seus amigos do Pulitzer, davam prêmios de reportagens para jornalistas “corajosos” como Walter Duranty. Já hoje, depois da queda da União Soviética e do fracasso do comunismo, quando a Rússia busca resgatar suas tradições, sua cultura e sua religião e se recuperar da tragédia da experiência soviética que deixou um rastro de dezenas de milhões de pessoas mortas, de repente a mídia aparece para tecer as suas críticas sobre sua “intolerância”, “radicalismo” e sobre os riscos que a Rússia representa para as democracias ocidentais. Eu não tenho o objetivo de defender certas práticas do governo russo, muito pelo contrário, considero muitas delas simplesmente abomináveis. A minha pergunta é, onde estava essa mesma mídia “corajosa” quando os corpos estavam sendo amontoados em valas aos milhões durante o regime de Stalin, em nome dos “ideais da igualdade” e da luta contra os “fascistas” e o contra o capitalismo?

Entenda: A grande mídia e seu relativismo moral e descompromisso com os fatos, representa uma das maiores ameaças à democracia e à civilização ocidental - juntamente com o aparato acadêmico pós-modernista e neo-marxista. O papel da mídia, tal fora o da máquina de propaganda Stalinista, é dissimular uma determinada narrativa, e se nessa narrativa for preciso omitir alguns milhões de corpos para te dar uma informação enviesada - ou mesmo produzir outros milhares de milhões de corpos - eles o farão sem nenhum problema. Evidências podem ser encontradas todos os dias em qualquer reportagem de jornal que você assista, e exemplos como estes apresentados neste artigo podem ser verificados por cada um por si próprio. A boa notícia, no entanto, é que com o advento da internet e das novas tecnologias de comunicação e a decadência eminente da mídia tradicional, os seus dias estão contados.


*João Corrêa Neves Junior é radicado no Reino Unido, atua na área administrativa do mercado formal. Estudante de Mestrado em História do Império Português na Universidade Nova de Lisboa. Defende a Liberdade e o “rule of Law”, influenciado pelo pensamento filosófico conservador iluminista e o liberalismo clássico britânico.

O Congressista precisa de sua ajuda. Nos faça uma doação através de nosso apoia.se
A mídia como ferramenta de manipulação social A mídia como ferramenta de manipulação social Reviewed by O Congressista on 13:46:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

Tecnologia do Blogger.