As contradições por trás dos protestos políticos do Carnaval


Por Nivia Junqueira

O Carnaval brasileiro muitas vezes visto apenas como um dos maiores espetáculos de entretenimento do mundo, continua sendo uma forma de representação de liberdade sexual, de liberdade de expressão política e artística. 

Em relação às críticas políticas, em 2016 e 2017 as ruas demostraram apoio pelo combate à corrupção e ridicularizaram políticos corruptos. Vimos diversas máscaras do Japonês da Federal e de Sérgio Moro, bem como fantasias de presidiário do ex presidente Lula.

Já em 2018, o Carnaval das Avenidas Anhembi (São Paulo) e Marquês de Sapucaí (Rio de Janeiro) surpreendeu pela volta de enredos de Escola de Samba com críticas à política nacional. Atacaram não apenas políticas sociais e econômicas como também diretamente alguns políticos e grupos de manifestantes. 

Em São Paulo tivemos um criativo carro alegórico chamado "A Casa da Mãe Joana", apresentado pela Escola de Samba X9-Paulista. A crítica fez referência aos políticos brasileiros e aos escândalos de corrupção. Os integrantes estavam vestidos de políticos e juízes com malas de dinheiro e notas na cueca.

Já no Rio de Janeiro, a Mangueira foi direta e teceu críticas ao prefeito carioca Marcelo Crivella. Crivella foi alvo de críticas por ser considerado anti carnaval, ser evangélico e ter reduzido a verba para as escolas de samba. A Mangueira colocou a crítica diretamente no Enredo e cantou: "Pecado é não brincar o carnaval". Em outro trecho dizia que com ou sem dinheiro iriam brincar o carnaval. 

Mas o desfile que gerou maior repercussão foi o da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. Ela levou para a Avenida um carro alegórico com um Presidente da República com cara de Vampiro. Chamaram-no de "vampiro neoliberal" em clara crítica às reformas do atual presidente Michel Temer. 

Em especial, atacaram a reforma trabalhista e relacionaram a escravidão dos tempos antigos ao momento atual. A ideia foi expor a "exploração do homem pelo homem" e aproveitaram a situação atual para criticar as reformas feitas pelo Presidente Michel Temer. 

Com isso, a escola criticou a reforma trabalhista através da apresentação de alas que lembraram os 130 anos da Lei Áurea com o nome de “Os Guerreiros da CLT”. Nela continham “trabalhadores que portavam carteiras de trabalho” sendo os novos explorados e "escravos" da atualidade. 

Em seu desfile também haviam alas com críticas aos manifestantes que foram para as ruas pedir o impeachment de Dilma Roussef. Denominaram de "manifestantes fantoches" e colocaram diversas pessoas vestidas de patos amarelos em referência ao
Pato Amarelo e ao apoio da FIESP nas manifestações "fora Dilma". 

Segundo Thiago Monteiro, o diretor de Carnaval da escola Paraíso do Tuiuti, eles queriam incluir a mitigação dos direitos sociais. Usaram para isso "os patinhos" para representar uma situação anterior na qual, segundo ele: "os direitos eram bem protegidos e a partir do momento em que uma nova ordem política toma o país você tem novas reformas que, na ótica da escola, tiram direitos sociais de uma parcela da população."




Ao chamar os manifestantes que apoiaram o impeachment de Dilma de fantoches, ele questiona se esses não são também vítimas da própria mudança que pediram. Ele e a escola acreditam que a pessoa que foi para a rua pedir a saída de Dilma Roussef também tiveram "os direitos cortados" e por isso os chama de fantoches. 

É evidente que do ponto de vista do Marketing a Escola Paraíso do Tuiuti soube aproveitar muito bem o momento político do país para chamar atenção para seu desfile. Foi um desfile ousado e muito bem articulado dentro de um ponto de vista ideológico, mesmo que não concordemos com ele. 

E por falar em não concordar, não poderia deixar de citar as contradições e hipocrisias apresentadas pela Paraíso da Tuiuti nesse Carnaval.

Bastou uma pesquisa rápida entre artigos de carnavais passados e informações atuais da escola para vermos o que há por trás das críticas politicas da Paraíso do Tuiuti. Para facilitar a leitura, o melhor é enumerá-las:

1) SOBRE AS CRÍTICAS ÀS LEIS TRABALHISTAS...

Através de pesquisa no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho, é possível ver que a escola de samba Paraíso do Tuiuti empregou somente três trabalhadores via CLT no ano de 2017, mesmo 
tendo utilizado dezenas de trabalhadores para a preparação do carnaval. 

Sabemos que muitos se disponibilizam de forma voluntária para a preparação de alegorias e fantasias para o carnaval. No entanto, é bem claro o Código de Descrição de Atividade Econômica (CNAE) que especifica as atividades de de escolas
de samba (número 94936). 

Ou seja, esses trabalhadores deveriam ser registrados segundo dentro desse CNAE. No entanto, a Escola de Samba não contratou via o modelo trabalhista que defende.

2) NEGLIGÊNCIA DA PARAÍSO DA TUIUTI DEIXA FERIDOS

Essa mesma Escola foi totalmente negligente no ano de 2017 ao protagonizar um dos maiores acidentes já vistos na Marquês de Sapucaí. Vinte pessoas ficaram feridas ao serem atingidas por um carro alegórico no desfile da Paraíso Tuiuti em 26 de Fevereiro de 2017.

Segundo reportagem de O Globo, um dos carros da escola perdeu o controle e prensou pessoas na grade que separa a pista da arquibancada. Alguns feridos ficaram presos nas ferragens e bombeiros tiveram que serrar a grade. Pessoas tiveram fraturas expostas e até mesmo traumatismo craniano. 

Entre os problemas contatou-se que o motorista principal que não sabia que da existência de um outro carro acoplado ao que ele dirigia. Além do problema do carro acoplado, a perícia constatou um problema técnico com a "roda maluca", uma peça que fica sob o chassi da alegoria. 

Engraçado uma Escola criticar tanto leis trabalhistas atuais e falar em direitos dos trabalhadores e dar um descuido tão grande com um carro alegórico que quase matou pessoas. 

3) AS CONTRADIÇÕES DO VIÉS IDEOLÓGICO DA PARAÍSO DO TUIUTI

É no mínimo engraçado uma escola criticar a reforma trabalhista e falar em "direitos" do trabalhador enquanto não emprega pessoas através do modelo que defende: a CLT. E como falar em "exploração do homem pelo homem" enquanto utiliza verba vinda do dinheiro de impostos do povo para criar um desfile carnavalesco? 

Para eles então, uma pessoa trabalhar e ganhar um salário é exploração, mas ser obrigado a pagar impostos para financiar festas enquanto falta saúde, educação e segurança é liberdade? 

Duas coisas são válidas e extremamente positivas no desfile e na crítica da Paraíso do Tuiuti neste carnaval: a liberdade da qual vivemos hoje e o a presença de senso crítico político que tem dominado a população.

E é importante mencionar sobre a questão da liberdade de expressão. Porque antes, durante e após Dilma Roussef ser impichada, o que mais ouvíamos e ainda ouvimos daqueles que ainda defendem a ex presidente e o modelo de governo Petista, 
é que a democracia no Brasil sofrera um golpe e o Estado Democrático de Direito estava sob ameaça. 

Está tão ameaçado que uma escola pode colocar um presidente da República vestido de vampiro em plena Marquês de Sapucaí. Será que eles acreditam que poderiam fazer isso em Cuba ou na Venezuela? 


Bela Charge. Autoria: Marlon Matheus

O senso crítico, ao menos ao que parece, o brasileiro está recuperando. E o que é melhor, de forma criativa e divertida. Através da música, da arte e da dramaturgia. 

Porém, precisamos muito ainda que esse senso crítico seja desenvolvido
e direcionado à ideias econômicas menos estatistas e mais liberais. E não à ideologias ultrapassadas que apenas  pregam "direitos" e se esquecem de deveres. 

Não precisamos de mais ideias e desfiles de escolas de samba que criticam governos enquanto pedem e precisam do dinheiro do imposto do povo. 
O carnavalesco lacrador militante da extrema-esquerda


Muito
 menos de gente que só quer lacrar na internet ou num desfile de carnaval com o dinheiro do povo.No geral, escola de samba fazendo críticas à política e economia é um caso a se estudar. Os casos de corrupção por Escolas de samba são tão antigos quanto talvez o próprio Carnaval.




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