Cardeal chinês acusa o Vaticano de vender católicos chineses a Pequim


Por Marcela Vasconcelos 

Desde que assumiu a Cátedra de Pedro, em 2013, o Papa Francisco tenta regularizar as relações entre a Santa Sé e a República Popular da China; as negociações se intensificaram há cerca de um ano e meio. A principal divergência entre as duas partes está relacionada à nomeação dos bispos no país asiático. 

Em razão dessa aproximação entre os dois Estados, Joseph Zen, o arcebispo emérito de Hong Kong, criticou o Vaticano em uma carta online publicada no seu Facebook no dia 29 de janeiro. Zen afirma que os diplomatas da Santa Sé venderam os chineses católicos fiéis ao Papa para o governo chinês. 

O cardeal, crítico ferrenho do regime comunista, confirmou em sua publicação uma informação publicada pelo site AsiaNews de que um alto diplomata do Vaticano pediu a ele e a outro bispo chinês, leal ao Papa, para abdicarem seus postos e cederem um deles ao bispo Joseph Huang Bingzhang, nomeado pelo governo de Pequim sem o aval de Francisco e inclusive excomungado em 2011.

Joseph Zen relatou no texto que se encontrou no dia 12 de janeiro com o Papa em uma audiência privada, onde Francisco lhe afirmou que havia avisado aos seus colaboradores de questões internacionais para não criar outro caso Mindszenty, referindo-se ao cardeal Joseph Mindszenty, libertado da prisão durante a curta revolta húngara contra a União Soviética em 1956 e que depois viveu refugiado na embaixada dos Estados Unidos em Budapeste, durante 15 anos até o Vaticano o obrigar a deixar o país. Na época, alguns acusaram a Santa Sé de se vender aos comunistas. 

O arcebispo emérito afirmou na carta que o problema "não é a abdicação de bispos legítimos, mas sim o pedido para dar lugar para outros ilegítimos e até excomungados. Muitos bispos clandestinos idosos, apesar de a idade de reforma nunca ter sido aplicada na China, têm pedido insistentemente por um sucessor, mas nunca receberam uma resposta da Santa Sé. Outros, que já têm um sucessor nomeado, até podem estar na posse da Bula assinada pelo Santo Padre, receberam ordens para não avançar com a ordenação com medo de ofender o governo".

Joseph Zen não se mostra otimista em relação a atual situação da Igreja no país comunista: “Aceito ser qualificado como pessimista em relação à presente situação da Igreja na China, mas esse pessimismo tem fundamento na minha longa experiência. De 1989 a 1996 trabalhei seis meses por ano na China, ensinando filosofia e teologia nos seminários da comunidade oficial. Vi com os meus próprios olhos a escravidão e a humilhação a que os nossos pobres bispos sofrem.” 

“Se acredito que o Vaticano está vendendo a Igreja Católica na China? Sim, definitivamente, se eles forem na direção que é óbvia tendo em conta tudo o que têm feito nos últimos anos e meses”, relatou o cardeal emérito na carta publicada no Facebook. Sou o maior obstáculo no processo de alcançar um acordo entre o Vaticano e a China? Se for um mau acordo, fico mais do que contente por ser o obstáculo".

Um dia após o pronunciamento do arcebispo emérito de Hong Kong, o Vaticano declarou, sem citar o nome de Zen, que a essa situação é surpreendente e lamentável, tendo em vista que algumas pessoas relacionadas à Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) estão promovendo confusão e controvérsia. 

Como vivem os fiéis católicos romanos na República Popular da China

A comunidade católica chinesa possui um número de fiéis que se estima entre 10 e 12 milhões. Estas pessoas estão divididas entre uma instituição administrada pelo governo, a chamada Associação Patriótica Católica Chinesa (com 5,1 milhões de fiéis), fundada em 1957, onde o clero é eleito pelo Partido Comunista para evitar interferências estrangeiras, principalmente da Santa Sé e uma Igreja a não oficial (clandestina) que jura lealdade ao Vaticano e tem os seus responsáveis nomeados pelo Vaticano. 

Os negociadores da Santa Sé buscam unir as duas Igrejas para o Vaticano e Pequim retornarem os laços diplomáticos que foram desfeitos no ano de 1951, dois anos após a proclamação da República Popular da China. 

Vale ressaltar que a perseguição aos católicos clandestinos na China ocorre há décadas, como por exemplo a prisão do cardeal Kung em 1960, a imposição de dor física e psicológica sofrida pelo padre jesuíta Beda Chang, que foi torturado até à morte em 1951 e a destruição de “alegados edifícios ilegais” na província de Zhejiang, que levou à demolição de mais de 2 mil construções cristãs e de 600 cruzes.
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