Dalrymple sobre problematização e politização na arte moderna

 


Por Nicolas Carvalho de Oliveira

Theodore Dalrymple sobre a problematização e politização na arte moderna, no seu ''Nossa cultura... ou o que restou dela''. Vale muitíssimo a pena. Nem Scruton foi tão claro em ''Beauty'':

''(...) uma nova sensibilidade que se tornou dominante entre a elite artística e intelectual depois da Primeira Guerra Mundial. Como seria possível retratar o mundo de forma lírica, depois daquele grande cataclismo? Prosseguir dessa forma teria sido frívolo e insensível, ou assim parecia ser aos intelectuais, entre os quais a necessidade de sentir as coisas mais profunda e seriamente do que os outros é um risco ocupacional.

(...) O crítico social e cultural Theodor Adorno deu plena vazão a essa mentalidade quando proclamou a morte final da arte, após a Segunda Guerra Mundial. Depois de Auschwitz, ele disse, não seria mais possível produzir uma boa arte. O mundo tornara-se muito horrendo: “Não há nada inócuo que tenha sobrado”, ele declarou:

''Os pequenos prazeres, expressões de vida que pareciam isentas de responsabilidades do pensamento, não apenas têm um elemento de uma tolice pervertida, uma recusa insensível de enxergar, como servem diretamente a seu exato oposto. Até a árvore que floresce mente no instante em que percebe o seu florescer sem a sombra do espanto; até o ‘como é belo!’ inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que é diferente, e já não há beleza nem consolação alguma, exceto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta [...].''

(...) Mas, seria fato que as duas Guerras Mundiais, as fomes implantadas, o Gulag e os campos de extermínio do século XX foram de uma natureza completamente distinta de todos os outros horrores da história, tornando o esforço artístico tradicional não meramente redundante, mas uma traição positiva da humanidade?

Por acaso não deveríamos nos lembrar que [Johannes] Vermeer nasceu durante a primeira metade da Guerra dos Trinta Anos, cujo resultado foi a morte de um terço da população da Alemanha, quando os cadáveres apodreciam aos montes às margens das estradas, os campos eram abandonados, vilas inteiras destruídas, cidades inteiras massacradas, e a pilhagem se tornara a única forma de acumulação?

Não deveríamos nos recordar que o tratado que pôs um fim a essa terrível guerra foi assinado a apenas algumas milhas de distância de onde ele vivia? A Guerra dos Trinta Anos simbolizou a cegueira de Vermeer, sua pervertida tolice? E por acaso, a Grande Guerra realmente decretou que, a partir de então, as mães amariam menos os seus filhos do que faziam as mães na França pré-guerra de [Mary] Cassatt?

Todavia, vamos considerar que houve algo de peculiarmente terrível nos cataclismos do século XX. Foram assombrosos em si mesmos, certamente, mas uma fonte adicional de desespero se coloca na disjunção entre o que era tecnicamente possível - uma vida decente para a maior parcela da humanidade, pela primeira vez na história - e os usos aos quais essas possibilidades técnicas foram de fato alocadas. (...)

(...) Entretanto, na lógica da atrocidade especial associada aos acontecimentos do século XX, seria o caso de o florescimento de uma árvore não poder mais ser visto por uma pessoa decente e sensível sem uma sombra de horror a recair sobre ela? (...)

A ideia de que, depois de um fato como a Grande Guerra, uma celebração artística do mundo não seja mais possível não faz o menor sentido, na verdade trata-se de uma mistura de romantismo deformado com senti- mentalismo invertido.

O artista lança mão de uma pose como a de Adorno a fim de caracterizar que sente os eventos de forma mais profunda do que as outras pessoas, tão profundamente que a árvore que floresce não é mais apenas uma árvore a florescer, mas a árvore do enforcado que floresce, ou a árvore prestes a ir para os ares e se transformar num esqueleto esturricado, depois de uma explosão nuclear. O que conta é profundidade de sentimento.

Mas isso nada mais é do que pura encenação. Tomando-se Adorno como modelo, teríamos frases do tipo: “Depois da guerra, é impossível ter prazer sexual” ou “E impossível uma boa culinária” - a baboseira de tudo isso ficaria evidente de imediato. A arte é precisamente o meio pelo qual o homem dá sentido a suas próprias limitações e defeitos, transcendendo-os. Sem arte - ou sem as artes - existe apenas fluxo.''


*Nicolas Carvalho de Oliveira é um jovem estudante liberal clássico da tradição Whig que não gosta de autodescrições longas. 
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