Mais dúvidas que certezas: rotina brasileira



Por Márcio Scansani 
Autor convidado e editor da editora Armada 

Parece brincadeira, mas é apenas Brasil: estamos tão esquizoides que um fenômeno de reação como o Bolsonaro consegue despertar outro fenômeno, o da infantilização em massa. Talvez seja mesmo produto de um debate político ainda na primeira infância. 

É fácil notar que boa parte dos brasileiros, por incrível que possa parecer, está julgando a pré-candidatura Bolsonaro pela simpatia ou antipatia que nutrem pelo próprio, como crianças fazem com brinquedos ou como brócolis X chocolate, em vez de por posturas reais, muito menos pelo que representa no longo prazo a chance de ele ser eleito. Daí a acreditar na campanha de assassinato de reputação da qual ele vem sendo vítima, não dá 15 minutos. Exatamente o que fizeram com Trump antes de sua eleição. Não é coincidência, é a obediência adestrada ao apito de cachorro. 

Isto não é exatamente uma crítica, é mais uma observação, com uma discreta sugestão para que as pessoas se previnam do comportamento de manada, ou de esquerdista com sinal trocado. 

De qualquer maneira, ele consegue passar como um trator sobre a infâmia da mídia “fake news” que o detesta (porque não é “chic” gostar do Bolsonaro, que nojinho), meio desesperada e também infantil, só que essa de criança malvadinha, como a mentira deslavada proferida por um jornalista de O Globo recentemente, a de que ele teria dito que metralharia a Rocinha para reduzir a criminalidade. E, infantilizadas que estão, boa parte das pessoas acreditou que ele seria estúpido a ponto de dizer uma sandice daquelas. O jornalista, sabemos, não é fonte lá muito confiável, mas o que fez a entrevista onde o fato teria ocorrido, Augusto Nunes, sem dúvida é, e ele próprio já desmentiu a notícia falsa.

Bem verdade que Bolsonaro, curiosamente, conseguiu um terceiro fenômeno: movimentar um enorme contingente de militantes, coisa que não se via na direita, salvo engano, desde o tempo de Carlos Lacerda, pacíficos e ordeiros, ainda que boa parte deles tenha se transformado em bolsominions, aqueles seres robóticos parecidos com psolistas com o interruptor virado, fanatizados a ponto de mais atrapalhar do que ajudar. 

Não que o Bolsonaro seja o protótipo do conservador, aquele à la Edmund Burke, Russell Kirk, Roger Scruton, David Horowitz ou o próprio Lacerda, nem pensar, mas é o que, no conjunto da obra – Economia e Cultura –, temos de mais próximo disso; ou menos distante, você escolhe. Seja como for, diz um amigo que ele é “o único com amortecedores de jipe para andar no meio da política de Brasília”, e eu completo: ele é o único distante dos esquemas globalistas de poder e o único com chances reais de quebrar o ciclo vicioso de esquerda fofinha do PSDB e esquerda troglodita do PT – disso, tenho real convicção. 

Mas, voltando ao assunto, fica a nítida impressão que as pessoas não estão percebendo que só existem duas opções: Bolsonaro ou a continuidade do esquema de compadrio ideológico, financiamento de ditaduras, alianças espúrias, repúdio à meritocracia, nanismo diplomático, produção cultural de chiqueiro, seguimento de políticas ruinosas de saúde, segurança pública e educação que não atendem à necessidades da população brasileira, mas a interesses supranacionais, e o pior de tudo, o apoio à invasão islâmica; e, portanto, um previsibilíssimo “mais do mesmo”, com a vaca caminhando alegremente para o brejo. 

Também não percebem que não é preciso sequer gostar dele, apenas escolher se quer um futuro incerto ou um futuro com aquela certeza horrorosa de que acabou a brincadeira chamada Brasil. Eu mesmo, que estou aqui falando, sequer tenho uma opinião pessoal sobre ele; isso não me interessa. 

Normalmente os ataques partem do famoso isentão, aquele ser recentemente reaparecido que diz que não é petista, mas é petista sim, com o detalhe que, para (me perdoem pela repetição) uma população infantilizada, ter o efeito de uma bomba e acabar, como sempre, provocando fogo amigo pelo simples motivo de a vítima do isentão não perceber a guerra de narrativas em curso bem embaixo de seu nariz. O isentão provavelmente critique o recente ataque covarde por membros de um grupo extremista de esquerda ao jovem Jonas Serejo, do grupo Direita São Paulo que trajava uma camiseta do Bolsonaro, mas jamais o repudiará. O isentão planta a dúvida e se recolhe. 

Mais: esses que tanto o criticam, no dia em que as coisas se polarizarem entre, suponhamos, Bolsonaro e algum esquerdista, qualquer deles, vai ter que se posicionar. Isentão que é, vai se abster de comentários e vai acabar ajudando à esquerda, voluntariamente ou não, ou vai passar a vergonha de ter que engolir o que dissera. Desse jeito, com fogo amigo de todos os lados, algo parecido com um embrião de conservadorismo brasileiro vai morrer no berço porque a família toda está brigando entre si.

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Mais dúvidas que certezas: rotina brasileira Mais dúvidas que certezas: rotina brasileira Reviewed by Unknown on 20:42:00 Rating: 5

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