O grande erro de Napoleão Bonaparte na Rússia


Por Nicolas Carvalho de Oliveira

Napoleão levou 611.900 soldados e 25 mil civis de apoio (enfermeiros, tratadores de animais etc) para a sua fatídica campanha na Rússia. Esse foi seu grande erro. Ele ainda poderia muito bem ter vencido, como Hitler poderia sair vitorioso mesmo após o atraso de dois meses para a ofensiva de Moscou, mas nenhum erro foi maior que esse. 612 mil soldados num ataque a um país vizinho seria avassalador. Não daria chances. Mas atacar a Rússia com tantas bocas para alimentar e com tantos pés para atrasar a marcha colocou tudo em risco desde o principio.

Da França até Moscou são absurdos três mil km, centenas deles em território hostil russo, não-ocupado. Como os russos não dispunham de nem metade desse efetivo, além de serem soldados inferiores e haver um Napoleão do outro lado, um confronto direto ficou fora de cogitação, e acabaram optando pela brutal política da terra arrasada, recuando para além de Moscou e queimando tudo pelo caminho, esperando enfrentar o Grande Armée depois de terem perdidos muitos homens para a fome e o frio. Napoleão, sendo quem era, deveria ter percebido que um exército tão grande poderia incentivar os russos a deixar os franceses morrendo de fome e frio.

Sendo muito superior em todos os aspectos, a França deveria levar uma força ligeiramente superior à russa, e incita-los para uma ou duas batalhas decisivas, deixando o resto do contingente para proteger a retaguarda e flancos, além de assegurar as linhas de abastecimento de suprimentos pro front. Além de tudo, teriam maior poder de manobra, menos bocas para alimentar e maior rapidez na marcha, vitais para evitar o inverno e atravessar a vastidão do Império Russo ocidental até Moscou.

Caso perdessem, poderiam evacuar (e se preparar para um novo ataque) antes de grandes mortandades por frio e fome, e Napoleão não teria destruído seu próprio poder. Seria uma derrota, não uma catástrofe irrecuperável. Mas o Napoleão dessa época estava no auge da sua extensa autoconfiança, e generais muito arrogantes tendem a megalomania. O resultado da sua campanha desastrosa foi de apenas 70 mil sobreviventes do lado francês (a esmagadora maioria morreu de fome e frio) e a destruição do grosso das suas forças disponíveis, que lembram a aniquilação do Sexto Exército alemão em Stalingrado, o mais respeitado dos exércitos da Wehrmacht, que perdeu 295 mil dos seus 300 mil homens na guerra no inverno de 1942 e nos campos de prisioneiros da União Soviética. Como a queda de Hitler, a de Napoleão foi benéfica para o curso da civilização.

P.S. 1: Na época da guerra de mosquetes, as duas coisas mais importantes eram a disciplina dos soldados, para não saírem da formação e abrirem brechas que poderiam causar uma derrota instantânea, e brilhantismo tático dos generais. Napoleão lutou dezenas de batalhas e venceu a grande maioria delas, e muitas em menor número. Frederico, o Grande da Prússia, e o rei Gustavo II Adolfo da Suécia, idem. Onde os números eram o mais importante (junto do número de canhões pesados, nesse caso) era na guerra de atrito nas trincheiras da França na Primeira Guerra.

P.S. 2: A Rússia tinha uma população muito grande, mas não poderia simplesmente levar toda a sua força masculina para a guerra. Era uma época de economia rural, sempre muito frágil. Na melhor das hipóteses (i.e. se as colheitas ajudassem, o que não acontecia sempre), os camponeses conseguiam produzir o necessário para sobreviver e um pequeno excedente para comercializar. Aumentar o efetivo do exército era aumentar os gastos ao mesmo tempo que diminuía a produção, e forçar essa condição causaria uma crise de fome generalizada, milhões morreriam e a nação cairia na anarquia. Napoleão tinha condições de levar 612 mil homens para uma batalha porque os franceses, no espírito revolucionário, lutavam por patriotismo (quase ninguém dessa época lutava por patriotismo) e tão importante quanto isso o Napoleão tinha a Europa ocupada para extorquir riqueza. E vale ressaltar que 100 anos depois a Rússia não tinha se modernizado com o industrialismo e capitalismo e continuou, no geral, com a mesma condição de economia rural. E deu no que deu: humilhados pelos alemães em menor número, fome generalizada e revolução.


 *Nicolas Carvalho de Oliveira é um jovem estudante liberal clássico da tradição Whig que não gosta de autodescrições longas.
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