Stálin nunca foi um corajoso como Churchill


Por Nicolas Carvalho de Oliveira*

Um dos episódios mais alardeados da biografia de Stálin foi quando ele tomou a importantíssima decisão de permanecer em Moscou em plena batalha decisiva, quando quase todos os funcionários do partido já haviam fugido para a cidade de Kuibyshev, 2.500km a leste da capital. Historiadores mais estúpidos e favoráveis ao ditador como a húngara Lilly Marcou dizem que Stálin ficaria em Moscou até a morte, se preciso, como ele disse para seus guardas. Não temos como ter certeza de nada, já que Stálin não precisou chegar tão longe, mas todos os fatos indicam que não era nisso que ele realmente estava pensando.

Em primeiro lugar, Stálin não era um herói, um soldado, como Churchill. Stálin era um burocrata, incansável e solitário. Churchill foi militar quando jovem e era reconhecido pelos seus superiores como um homem de extrema bravura, daqueles que tinham tanta coragem que parecia imprudência. Não morreu por milagre. Já contei sobre a sua fuga heroica na Guerra dos Bôeres, quando os bôeres holandeses colocaram um preço na sua cabeça. Também liderou tropas pessoalmente na Primeira Guerra Mundial, no front belga prestes a cair para os alemães (enquanto primeiro-lorde do Almirantado) e na França, como um brigadeiro, depois de ser destituído do cargo de primeiro-lorde do Almirantado, mas ainda desesperado para participar da guerra de alguma forma.

Como se não bastasse, Churchill ainda pilotava aeronaves no início do século XX, quando isso era extremamente perigoso. Alguns dos seus próprios tutores morreram em acidentes, e ele continuou mesmo assim. Só parou de pilotar porque sua esposa, a famosa Clementine, implorou para ele parar, depois de um acidente quase mortal. Então a ideia de que Churchill morreria lutando se os alemães invadissem a Inglaterra (retratada em algumas ficções, como a "Se a Inglaterra tivesse caído", de N. Longmate, 1972) está longe de ser surreal.

E Stálin? Foi dispensado do serviço militar russo durante a Primeira Guerra por seus diversos problemas físicos, principalmente pelo seu braço defeituoso. Foi um dos comandantes soviéticos durante a Guerra Civil russa, mas não era do tipo que comandava no front, junto dos soldados. Permanecia no quartel, ou escritório. A sua vida inteira, após Lênin tê-lo tirado do degredo siberiano, passou-se em escritórios pessoais nas suas várias datchas ou palácios governamentais. Se existiu um burocrata ditador, este era Stálin.

Em segundo lugar, apenas cerca de 3% dos edifícios de Moscou foram destruídos pela Luftwaffe, e cerca de 3.000 moscovitas morreram nos bombardeios. Londres, em comparação, sofreu uma blitz avassaladora da aviação alemã, com um saldo final de 20.000 londrinos mortos. Com a Luftwaffe muito dispersa pelo gigantesco front russo, pelo clima ser desfavorável para a aviação e por 40% das baterias antiaéreas soviéticas estarem concentradas em Moscou, a Alemanha não conseguiu reproduzir a avassaladora blitz de Londres da Batalha da Inglaterra em Moscou. Com a Luftwaffe conseguindo poucos resultados na capital soviética, o risco de vida para Stálin diminuiu consideravelmente.

Em terceiro e último lugar, para os políticos e generais soviéticos a Batalha de Moscou não era "tudo ou nada". Falavam abertamente pro povo e para as autoridades estrangeiras que mesmo se perdessem a capital, a luta continuaria, com o quartel-general transferido para a cidade de Kuibyshev. Nesse sentido, a NKVD fez diversos preparativos (muito criativos, inclusive; hollywoodianos) para sabotar uma Moscou ocupada pelos alemães vitoriosos na batalha.

Uma extensa rede de espiões, inclusive suicidas, esconderijos subterrâneos, explosivos em praticamente todos edifícios e fábricas da cidade etc. Em fevereiro de 1942, três meses após o contra-ataque do general Jukov em Moscou (e o fim da ofensiva alemã na cidade), mas com a situação ainda longe de estar definida para a União Soviética, os soviéticos começaram a construção de um imenso bunker na cidade de Kuibyshev, de 36 metros de profundidade, o que fazia dele o maior do mundo na época. Em comparação, a famosa Toca do Lobo de Hitler tinha apenas 15 metros de profundidade.

Se acontecesse uma reviravolta em Moscou e a cidade caísse, Stálin e os funcionários soviéticos remanescentes muito provavelmente fugiriam para esse bunker em Kuibyshev, onde o restante dos líderes soviéticos já esperava seu ditador. E claro, a ideia de Stálin morrer em batalha sendo que a guerra continuaria é absurda. Ele jamais daria o poder do regime que construiu a quem quer que fosse. Stálin matou praticamente todos que poderiam fazer a menor rivalidade a ele.

Segundo seu temperamento e suas atitudes durante toda sua vida, é mais provável que no pior dos mundos Stálin iria se agarrar ao poder até que não pudesse mais, mas não teria poder de resolução suficiente para pegar um rifle e ir pro front morrer como um soldado. Todos os outros cenários, como ficar atordoado demais para tomar uma decisão mais difícil que se suicidar, ou tentar fugir da Rússia para algum país aliado (talvez pelo Oceano Ártico, a norte da Sibéria), são mais prováveis. Ou até ser morto pelos próprios líderes e generais soviéticos, insatisfeitos com sua liderança.


*Nicolas Carvalho de Oliveira é um jovem estudante liberal clássico da tradição Whig que não gosta de autodescrições longas.
Stálin nunca foi um corajoso como Churchill Stálin nunca foi um corajoso como Churchill Reviewed by O Congressista on 14:30:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

Tecnologia do Blogger.