A parcela de culpa de Brizola no enfraquecimento da polícia do RJ


Por Wilson Oliveira

Este artigo segue uma linha histórica. O objetivo é revelar como nasceu a maior facção criminosa do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho - que posteriormente se tornou uma das maiores do Brasil - e como o governo de Leonel Brizola facilitou o fortalecimento do crime organizado ante o enfraquecimento das corporações das polícias cariocas, hoje completamente sucateadas em um estado cuja capital está completamente tomada pela violência.

O início do crime organizado

Nos anos 1970, auge do crescimento econômico, o Regime Militar, que gozava de profunda simpatia por parte da "sociedade economicamente ativa", tinha o poder de determinar toda a política prisional do Brasil. O papel de contestar a linha de atuação da polícia cabia aos comunistas, que não conseguiam reverberar sua voz para a sociedade por serem considerados "clandestinos", "vagabundos" e tão "marginais" quanto os assaltantes - não era para menos, pois naquela época grupos comunistas se especializavam em outros tipos de crimes: o assalto e a explosão de bancos privados.

Vendo uma escalada no aumento da violência e consequentemente no número de prisões, a polícia do Rio de Janeiro tomou uma decisão: passaria a colocar assaltantes no presídio Cândido Mendes, que funcionava na Ilha Grande e era exclusivo para presos políticos. Entre os anos de 1971 e 1972, comboios de ônibus da PM chegavam com assaltantes e traficantes de armas, muitos com menos de 30 anos. Eles passavam a se juntar aos assaltantes de bancos, sequestradores de diplomatas e perturbadores da ordem urbana.

Nascia o Comando Vermelho: o carioca passou a conhecer outro nível de violência

Foi graças a esse canal de diálogo entre assaltantes, traficantes e presos políticos que ganhou forma o Comando Vermelho, fundado oficialmente por Rogério Lemgruber, um dos presos da penitenciária da Ilha Grande. Inicialmente, após muito aprendizado com os presos políticos, os outros detentos adquiriram conhecimentos de fuga, rebeliões, assaltos a bancos, organização administrativa, conhecimento de leis e teoria marxista. O mais curioso disso é que esses assaltantes e traficantes passavam a ter um novo objetivo: formar defensores do tráfico que não fossem necessariamente participantes do crime. Eles também iniciavam práticas assistencialistas nas favelas, como a produção de bailes.


Toda essa gama de novas atividades rendeu um aumento significativo de dinheiro arrecadado pelos bandidos do Comando Vermelho. O dinheiro era tanto que logo surgiu um grupo dissidente, o Terceiro Comando, que passou a entrar em confronto com o CV pra adquirir domínio de favelas e na rota do tráfico de drogas e de armas. Todas as atividades tanto do CV como do TC recebiam a retaguarda nacional dos grupos comunistas brasileiros e a retaguarda internacional das FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que fazia a droga a chegar ao Brasil em grandes quantidades por meio do tráfico terrestre.

Polícia do Rio declara guerra ao tráfico e "sobe o morro"

Ainda nos anos 1970, conforme aumentava a violência no Rio de Janeiro, a Polícia Militar da cidade começava a trabalhar em um projeto de uma polícia especial, que teria atuação exclusiva em operações de altíssimo risco e complexidade. O comando de segurança da cidade concluiu haver essa necessidade ao observar o nível de expertise que os presos atingiam para organizar rebeliões. Isso gerou um salto no índice de morte de agentes penitenciários e policiais que trabalhavam no sistema prisional.

Em 1978 finalmente foi criado o Núcleo da Companhia de Operações Especiais (NuCOE). O grupamento logo ganhou status de elite da Polícia Militar. Seus soldados recebiam um treinamento diferenciado, que ia desde o Curso de Guerra na Selva até o Curso Contra Guerrilhas, oferecidos pelas Forças Armadas. Inicialmente criado para atuar em rebeliões, logo o NuCOE passou a ser requisitado para fazer incursões nas favelas com o objetivo de capturar traficantes de drogas. O êxito foi altíssimo. Enfim, a polícia do Rio voltava a ser aplaudida pela população.

O mais curioso é que esses policiais eram tão bem treinados que muitas dessas prisões nas favelas eram feitas à noite, sem qualquer iluminação, e tampouco com o uso de armas, apenas com facas e canivetes. Eles haviam recebido os ensinamentos do Exército que o segredo era chegar no território do inimigo sem chamar nenhuma atenção. A maioria dos traficantes presos nesse período foi pego de surpresa enquanto dormia. Eles eram acordados com um soldado já o imobilizando com uma faca ou um canivete em seu pescoço, e outro já colocando as algemas em seus punhos.


Devido o sucesso nos primeiros anos de atuação, o NuCOE passou a ficar bastante famoso não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo o Brasil. Eles ganhavam a alcunha de "o terror da bandidagem". Logo lançaram uma logomarca para estampar seus uniformes que, diferente dos outros grupamentos da polícia, era preto. A logo trazia uma caveira com uma faca enfiada na parte de cima da cabeça e dois revólveres, um em cada lateral do rosto. A esquerda carioca reagiu imediatamente acusando a imagem de "símbolo fascista".

Brizola é eleito, esquerda festeja e polícia recua

A reação histérica da esquerda contra a logomarca, na virada dos anos 1970 para os anos 1980, atingiu meios de comunicação, meio artístico, movimentos sociais, organizações não-governamentais e ganhou páginas de jornais internacionais, chegando ao conhecimento da ONU. A comunidade internacional manifestou preocupação "com os rumos da segurança pública do Brasil". Organizações internacionais de esquerda responderam com uma campanha de desmilitarização da polícia brasileira.

Esse barulho teve como justificativa o fim do Regime Militar. Todos esses grupos acreditavam que o batalhão especial da polícia do Rio de Janeiro era um "resquício da ditadura". Militantes de esquerda organizaram protestos no centro da cidade e em outros locais do país com cartazes dizendo que "uma polícia que veste preto foi criada pra matar a população de pele negra".

Mas nenhuma manifestação teve um tom tão hostil ao NuCOE como os comícios de Leonel Brizola, gaúcho candidato ao governo do Rio de Janeiro. Nas suas aparições, por uma decisão estratégia, ele não citava o nome do núcleo especial, mas falava da polícia como um todo. Depois, nas entrevistas, se justificava dizendo estar se referindo a "determinadas operações inaceitáveis nas favelas cariocas".

Em suas falas, Brizola dizia que a violência mais cruel que acontecia no Rio era praticada pela polícia, que tinha como alvo "o negro morador das favelas". E ele apresentava como solução o investimento em uma educação "publica, gratuita e de qualidade". Para isso, utilizava a figura do seu vice, Darcy Ribeiro, antropólogo famoso por trabalhos em defesa da educação pública. Eleito com 34,17% dos votos, Brizola foi festejado pela esquerda de todo país e logo promoveu uma profunda mudança na polícia carioca, sob a justificativa de que no seu governo, "a polícia não sobe morro".

Colocada contra a parede, polícia do Rio desintegra núcleo especial

Diante da pressão da opinião pública ainda por conta da logomarca, o alto comando da Polícia Militar foi completamente modificado. Os novos comandantes, então, tomaram uma atitude para diminuir o barulho contra a PM: exonerou todos os responsáveis pela criação do NuCOE. Não pelas operações, mas pela forma que foi conduzido o que a própria polícia chamou pejorativamente de "propaganda". É um fato que a logomarca da caveira não foi bem aceita nem mesmo dentro da corporação, principalmente por parte dos outros grupamentos, que se sentiram menosprezados.

A partir daí medidas vindas do gabinete do governador Leonel Brizola ecoavam nas células policiais. O Núcleo da Companhia de Operações Especiais continuou existindo, mas passou a ser subordinado ao COE (Companhia de Operações Especiais). Anos depois o grupamento mudou de nome e passou a se chamar Núcleo de Companhia Independente de Operações Especiais (NuCIOE). Sua atuação, no entanto, se resumiu a serviços administrativos nas instalações do Regimento Marechal Caetano de Farias.

Pós-Brizola: polícia do Rio de Janeiro nunca mais foi a mesma

Apenas em 1991, último ano do mandato do governador Moreira Franco, o projeto inicial do NuCOE foi resgatado dentro da Polícia Militar. Dessa vez com o nome que vigora até os dias de hoje: Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Mas naquele ano Brizola foi novamente eleito como governador. Ele congelou a ideia de Moreira e praticamente engavetou a criação do batalhão especial. Somente no governo de Marcello Alencar, eleito em 1995, o BOPE enfim saiu às ruas, mas sem grande importância. Era apenas mais um batalhão da PM.


Durante o governo de Anthony Garotinho (1999-2002), o BOPE enfim ganhou uma posição de destaque dentro da corporação e voltou a utilizar a polêmica logomarca. Mas o destaque foi apenas na teoria. Na prática, o treinamento que o grupamento recebia era praticamente o mesmo dos demais batalhões, com diferença em apenas alguns detalhes. A grande diferença eram as ferramentas que dispunha: armamento mais pesado e uma novidade, o Caveirão, carro-forte utilizado para operações nas favelas cariocas.

Em 2002, durante o famoso sequestro do ônibus 174, no Jardim Botânico, o BOPE foi acionado pelo próprio governador para prender o sequestrador. O país inteiro acompanhava aflito o desenrolar da ação pela TV. Atiradores de elite foram posicionados em pontos estratégicos para alvejar o bandido quando ele colocasse a cabeça para fora da janela. Ele mantinha cerca de 10 reféns dentro do ônibus. Mas uma decisão do próprio Garotinho impediu que o BOPE disparasse tiros na operação por conta da aglomeração de curiosos perto do local.

Após muita negociação, o sequestrador resolveu se entregar. Ele desceu do ônibus com a professora Geísa Gonçalves, de 20 anos, sendo usada como escudo humano. Já na calçada, ao dizer para os policiais que havia mudado de ideia e que não iria se entregar mais, o soldado do BOPE Marcelo Santos disparou contra o sequestrador, mas acabou acertando o queixo de Geísa, que foi morta pelo sequestrador na frente dos policiais. Logo na sequência o bandido foi preso. Os soldados tiveram que fazer um cordão especial para evitar o linchamento do sequestrador. Era grande a aglomeração de curiosos, muito por conta das ruas que foram fechadas em horário de pico, quando as pessoas voltavam do trabalho. No caminho para delegacia, o sequestrador foi espancado e morto dentro do camburão, asfixiado pelos soldados do BOPE responsáveis pela sua prisão.

O policial que conduzia o camburão ainda tentou modificar o percurso para escapar da imprensa, que o perseguia, mas sem sucesso. Ao chegar na delegacia, dezenas de câmeras e microfones aguardavam para pegar uma palavra do sequestrador. Para a surpresa de todo país, a porta da traseira da viatura foi aberta e havia apenas o corpo do bandido, já falecido.

O caso enterrou pela segunda vez as pretensões do batalhão especial da PM do Rio de Janeiro, que no governo Benedita da Silva foi praticamente jogado para escanteio, com a justificativa que os treinamentos estavam muito aquém e que era necessário uma reciclagem. Mas nenhum novo treinamento foi oferecido ao BOPE, o que só veio a acontecer já no governo Sérgio Cabral (2007-2014). Nesse período, o BOPE voltou a ganhar destaque por atuar junto com o Exército em ocupações de favelas para instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).


*Wilson Oliveira é defensor do retorno da monarquia parlamentar no Brasil. É conservador monarquista, com influências da tradição anglo-saxã do liberalismo clássico, do minarquismo, da Escola Austríaca e da Escola de Chicago. Reside no Rio de Janeiro, é jornalista e editor-chefe de O Congressista.
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