O que os cursos sobre o "Golpe" nos revelam sobre as universidades brasileiras


Por Leonardo Ferreira

Depois de uma década aparentemente adormecida e em plena satisfação, parece que a comunidade acadêmica brasileira enfim despertou, relembrando-nos daquela velha intelectualidade ativista que caracterizou as décadas finais do século XX. Lembramo-nos bem que durante o governo do Partido dos Trabalhadores, fazer qualquer crítica àqueles que estavam no poder era praticamente um sacrilégio, até o humor político que sempre fez chacota com qualquer governante foi saindo aos poucos de cena. Quem não se lembra do Casseta & Planeta?

A ditadura branca do politicamente correto que fazia vista grossa aos escândalos de corrupção cada vez mais frequentes no governo Lula, ridicularizava e até condenava as vozes dissonantes que tentavam esboçar qualquer oposição. Com a queda da ex-presidente Dilma Rousseff e a ascensão de um centrista ao poder, os amantes da liberdade de expressão finalmente puderam comemorar. Sem o PT no comando, discordar e criticar o governante voltou a ser prática comum, e com todo o apoio dos movimentos que antes condenavam tal "rebeldia".

Imagine nos tempos de Luiz Inácio um curso em uma universidade federal de título: "O Golpe do Mensalão". Imagine se nesses últimos anos tivéssemos cursos sobre "O Golpe da Pedalada", ou "O Golpe da Petrobrás", eventos históricos de grande relevância que em qualquer país de democracia sólida resultariam em renúncias ou processos de impeachment imediatos. Difícil conceber tal cenário, não é?

Bastou chegarmos a mais um ano de eleições para que certos "cursos" e articulações voltassem a surgir, revelando-nos uma curiosa harmonia entre determinados partidos políticos e nossas universidades. E não, não vemos aqui harmonia entre comunidade acadêmica e sociedade, como muitos ilustres docentes insistem defender. Vemos aqui uma ligação direta entre academia e partidos políticos específicos, ou para ser mais claro: entre academia e uma ideologia que serve de base para a existência de vários partidos.

 As universidades brasileiras há muito deixaram de ser campos de estudos e desenvolvimento científico relevantes ou pelo menos salutares para uma ordem social estável e prudentemente progressista. Em contraste, tornaram-se centros de formação política de extrema importância estratégica para determinados partidos, que trabalham incessantemente visando a remodelagem da sociedade por métodos no mínimo questionáveis. Servindo-se do dinheiro público, tais instituições recebem milhões de reais dos pagadores de impostos todos os anos e continuam apresentando pífios resultados no que se refere a produção científica relevante e outros indicadores.

A criação de "cursos" sobre o "Golpe de 2016", que questiona, entre outras pautas, a atuação da Polícia Federal e a Operação Lava-jato, criando uma narrativa que se adeque à recuperação política dos partidos radicais em declínio, apenas nos demonstra, mais uma vez, em quê nossos "acadêmicos" estão empenhados, colocando-se contra os anseios populares de ordem e justiça e utilizando seus abundantes recursos financeiros retirados de terceiros para militarem em causa própria, causa esta que levita em torno da manutenção de seus poderes, caracterizando uma verdadeira casta aristocrática que busca se autopreservar através de causas aparentemente nobres, como a "luta por democracia".

Esta total divergência com os anseios populares nos mostra o quanto as universidades se transformaram em verdadeiras bolhas mantidas por uma espécie de elite das cátedras, onde ninguém entra sem antes jurar fidelidade aos métodos e à cosmovisão dirigentes, fazendo-nos até lembrar de determinadas estruturas religiosas e hierárquicas tanto criticadas justamente por aqueles que acabaram se utilizando de meios semelhantes.

Enquanto as universidades continuarem funcionando como colônias de intelectuais que se julgam os redentores da humanidade, o Brasil continuará ocupando as posições mais irrelevantes dos indicadores internacionais, mesmo tendo gastos exorbitantes (proporcionalmente maiores do que o de muitos países desenvolvidos ou em franca ascensão) que na prática apenas se convertem em muitos privilégios para aqueles que os recebem ou em investimentos mal aplicados que quase nunca resultam em real melhoria para as futuras gerações de brasileiros que necessitam de uma formação sólida que proporcione algo de positivo em suas vidas ao deixarem a academia e se voltarem ao mercado de trabalho.
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