Crônica de Dunkirk: discurso de Churchill faz chorar


Por Nicolas Carvalho de Oliveira

Com vários meses de atraso, finalmente assisti Dunkirk. Quem compreende a magnitude do milagre britânico em Dunquerque, que muito provavelmente salvou a Inglaterra de um tratado de paz e, consequentemente, a Europa inteira do jugo alemão, não tem como não chorar com as cenas finais do filme, com o protagonista lendo o famoso discurso de Churchill. Christopher Nolan atingiu o ápice da maestria, que na prática é fazer o esplendoroso sendo sutil, simples, sem muito alarde. A maior característica do filme é essa: a sutileza.

Os diálogos são escassos e despretensiosos. O solitário som ambiente e a situação de tensão constante levam o espectador para uma experiência de verdadeira imersão. Um exemplo dessa maestria sutil de Nolan é a cena em que o piloto interpretado por Tom Hardy - figura onipresente nos filmes de Nolan, e um dos meus atores prediletos -, sozinho após perder seus dois companheiros de esquadra e com o painel do seu Spitfire avariado e sem conseguir saber com exatidão quanto combustível possuía, enquanto se engalfinhava nos ares com um caça Messerschmitt alemão, avista um bombardeiro Stuka mirando os encouraçados que estavam resgatando as tropas.

Sem nenhuma frase marcante ou expressão facial de determinação, o piloto apenas olha para as prováveis próximas vítimas do Stuka e acelera seu Spitfire para persegui-lo, sabendo que iria gastar o resto de combustível que teria que usar para retornar. Sem nenhum grunhido, palavra ou marcante expressão facial. Apenas silêncio. Diretores comuns fariam o ator fazer algo de marcante para acentuar seu drama, mas Nolan mostrou em Dunkirk que a profundidade está na sutileza - a máxima suprema da arte. Toda a jornada heroica e solitária do piloto de Tom Hardy é feita apenas com sons de motores de avião e esporádicas rajadas de tiros do seu caça.

A causa da falta de aclamação merecida de Dunkirk é o fato de ser um filme de nicho para um público de massa. Por ser obra de um dos diretores mais populares da atualidade, autor da última trilogia Batman, o grande público assistiu um filme que só uma pequena parte compreende o contexto. Nolan, um patriota britânico, sabe muito bem a magnitude da Operação Dínamo, mas não abre nenhuma brecha de diálogo para seus personagens explicarem para o público que pouco ou nada sabe o assunto, sabendo que isso diminuiria a qualidade da obra.

Não encontrando as esperadas cenas de combate, naturalmente as críticas populares tiveram um tom meio frio. As críticas negativas consistem, basicamente, em ''não era isso que eu esperava. O filme todo é só sobre uma evacuação de tropas'', ''Nunca vi um filme de guerra que o inimigo não aparece'', ''Não acontece nada até o final''. E não é de se surpreender que a crítica especializada também não saiba bulhufas sobre o contexto do filme, atendo-se a analisar apenas a obra em si, o que é impossível sem compreender tudo que estava em jogo em Dunquerque.

Para o desavisado, "Dunkirk" é apenas uma "romantização" de um episódio "secundário" da guerra. Um exótico filme de guerra sem sangue. Como uma evacuação sem luta acirrada teria a importância do desembarque sob fogo cerrado na praia de Omaha, no Dia D, ou a luta brutal e incessante na congelante Stalingrado?

Como podem perceber, para essa expressiva parte da opinião pública, que creio ter ajudado a minar Dunkirk para mais vitórias no Oscar, Nolan deveria ter mudado as ordens do general alemão von Rundstedt que decidiu estacionar suas divisões de tanques ao redor de Dunkirk, dando prioridade para o plano de Hermann Goering, de acordo com Hitler, de derrotar os britânicos evacuados naquelas praias francesas apenas pelo ar, com bombardeios da Luftwaffe. Claro, esse plano terminou como um grande fiasco, o primeiro grande fracasso de Hitler na Segunda Guerra, e a Grã-Bretanha conseguiu evacuar 340 mil homens, quando achavam que conseguiriam evacuar apenas 40 mil. Não tem ''ação'' e ''tiroteio'' porque o filme é fiel a realidade, já que a infantaria alemã, deixada em segundo plano e sem o auxílio do avanço veloz dos tanques, além de enfrentar obstinada resistência francesa, chegou tarde demais as areias de Dunquerque.

Mas, afinal, o fracasso em Dunquerque teria feito a Grã-Bretanha assinar a paz com a Alemanha? Provavelmente sim, mas se isso não acontecesse ou 1. a Alemanha iria com mais força para finalizar de uma vez os britânicos, que teriam 300.000 soldados a menos para proteger o território britânico do desembarque dos exércitos alemães ou 2. na falta dessa grande ofensiva alemã, de qualquer forma os britânicos não teriam força para fazer oposição aos alemães no front do norte da África, e o general alemão Rommel poderia tranquilamente tomar os poços de petróleo britânico na região, o que acabaria trazendo a vitória dos alemães sobre os soviéticos (além dos recursos que Rommel conquistaria, os alemães desviariam menos recursos, como tanques e suprimentos, do front soviético para o norte da África).

Naqueles meses da derrota da França e até meados da Batalha da Inglaterra, o derrotismo grassava entre os britânicos e entre os observadores estrangeiros. O pai de Kennedy, que era o embaixador americano em Londres, dizia abertamente que a Inglaterra não tinha nenhuma chance. Roosevelt quase não ajudou os britânicos em 1940 por achar que seria inútil, recusando doar os tão pedidos contratorpedeiros americanos velhos para Churchill, com medo da Alemanha vencer a guerra e tomá-los.

Por sorte, a Alemanha não entrou com força total contra a Inglaterra na batalha seguinte a queda da França, já que estava preparando, desde agosto de 1940 (com a perspectiva do fracasso na Batalha da Inglaterra), a grande campanha que era o objetivo primordial dos nazistas: a invasão da União Soviética. Como a inteligência britânica descobriu interceptando mensagens alemãs com a já decifrada cifra Enigma, os alemães não tiveram em nenhum momento como principal desígnio o desembarque a Inglaterra. O sucesso em Dunquerque e o fato de haver mais 300 mil soldados regulares para defender o território britânico de um desembarque alemão afastaram o interesse alemão da Grã-Bretanha, levando-os a campanha no leste europeu.

Colocando em números: se o número inicial de resgate lançado por Churchill, 40 mil, dado como otimista, tivesse sido o resultado real, com 200 mil britânicos e 100 mil franceses capturados em Dunquerque, esse número de britânicos capturados seria equivalente a metade do número total de soldados do Império Britanico mortos nos 6 anos de guerra. O fracasso em Dunquerque seria como deixar o Exército britânico de joelhos, não completamente derrotado, mas moribundo, sem muita chance de reação.
Crônica de Dunkirk: discurso de Churchill faz chorar Crônica de Dunkirk: discurso de Churchill faz chorar Reviewed by O Congressista on 22:59:00 Rating: 5

Um comentário:

  1. Muito obrigado por compartilhar essa história. O filme Dunkirk me surpreendeu. Eu achei um dos melhores filmes de guerra porque tem elementos únicos do gênero. É algo muito diferente ao que estávamos acostumados a ver. Cuida todos os detalhes e como resultado é uma grande produção. Devo dizer que agora é o meu favorito da filmografia Christopher Nolan Seu trabalho é excepcional, seu estilo e personalidade estão bem marcados neste filme, acho que ninguém teria feito um melhor trabalho que ele. Já estou esperando o seu próximo projeto, seguro será um sucesso.

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