Linha do Tempo do impasse norte-coreano


Por Associated Press
Traduzido por Fellipe Villas Bôas
Publicação original: The Korea Herald

Embora Seul e Washington tenham recebido com otimismo a declaração de Pyongyang no sábado para suspender os testes de mísseis balísticos intercontinentais e fechar seu local de testes nucleares, o passado está repleto de falsos sinais.

Bill Clinton ofereceu petróleo e reatores; George W. Bush misturou ameaças e ajuda; Barack Obama parou de tentar depois do lançamento de um foguete. Um ciclo de décadas de crises, impasses e promessas não cumpridas deu à Coreia do Norte o espaço para construir um arsenal legítimo que agora inclui ogivas termonucleares e ICBM’s (Míssil Balístico Intercontinental) em desenvolvimento.

O presidente sul-coreano Moon Jae-in se encontrou com o líder norte-coreano Kim Jong Un nesta quinta-feira, no horário de Brasília (já sexta-feira no horário local) para iniciar uma nova rodada de diplomacia nuclear com Pyongyang. A cúpula intercoreana poderia estabelecer discussões mais substanciais entre Kim e o presidente Donald Trump, que disse que planeja se encontrar com o ditador que ele chamava de "Little Rocket Man" em maio ou junho.

Um olhar sobre as negociações anteriores com a Coreia do Norte:

1994

O governo Clinton, em outubro de 1994, firmou um importante acordo nuclear com Pyongyang, pondo fim a meses de temores de guerra, desencadeados pela ameaça da Coreia do Norte de se retirar do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e converter seu estoque de combustível nuclear em bombas.

Sob a "Estrutura Acordada", a Coreia do Norte suspendeu a construção de dois reatores que os EUA acreditavam serem para produção de armas nucleares em troca de dois reatores nucleares alternativos que poderiam ser usados para fornecer eletricidade, mas não fabricação de bombas, e 500 mil toneladas de combustível anualmente.

O negócio foi colocado à prova rapidamente. A Coreia do Norte reclamou do atraso no embarque de petróleo e da construção dos reatores, que nunca foram entregues. Os Estados Unidos criticaram o desenvolvimento de mísseis balísticos dos norte-coreanos, demonstrados no lançamento do míssil balístico Taepodong-1 sobre o Japão, em 1998.

O Acordo também perdeu o apoio político em Washington com a posse de George W. Bush, que em seu primeiro discurso sobre Estado da União em janeiro de 2002 agrupou a Coreia do Norte com o Irã e o Iraque como partes de um "eixo do mal".

O acordo entrou em colapso, pois autoridades dos EUA confrontaram a Coreia do Norte com um programa nuclear clandestino usando urânio enriquecido. Washington parou as remessas de petróleo e Pyongyang reiniciou seu programa de armas nucleares.

2005

Respondendo à postura endurecida de Washington, a Coreia do Norte anunciou em 2003 que obteve um dispositivo nuclear e se retiraria do Tratado de Não-Proliferação. Isso trouxe os Estados Unidos de volta à mesa de negociações com os norte-coreanos, e conversações de seis partes envolvendo também a Coreia do Sul, China, Japão e Rússia começaram em Pequim em agosto de 2003.

Depois de meses de negociações violentas, a Coreia do Norte aceitou um acordo em setembro de 2005 para acabar com seu programa de armas nucleares em troca de segurança, benefícios econômicos e energéticos. Mas o acordo foi incerto desde o início.

Apenas alguns dias depois, o Departamento do Tesouro dos EUA ordenou que os bancos americanos cortassem relações com o Banco Delta Ásia, de Macau, acusado de ajudar a Coreia do Norte lavar dinheiro do tráfico de drogas e outras atividades ilícitas, o que dificultou as transações financeiras internacionais de Pyongyang.

Desentendimentos entre Washington e Pyongyang sobre a punição financeira do banco macaense atrapalharam temporariamente as negociações entre seis países. Em outubro de 2006, o governo norte-coreano realizou seu primeiro teste nuclear.

2007

A Coreia do Norte concordou em retomar as negociações de desarmamento de seis nações poucas semanas após o teste nuclear. Em fevereiro de 2007, os Estados Unidos e os outros quatro países chegaram a um acordo para fornecer à Coreia do Norte um pacote de ajuda no valor de US$ 400 milhões em troca da desativação de suas instalações nucleares e a autorização para a entrada de inspetores internacionais ao país.

A Coreia do Norte demoliu a torre de resfriamento em seu reator Nyongbyon em junho de 2008. Mas em setembro, os norte-coreanos declararam que retomariam o reprocessamento de plutônio, reclamando que Washington não estava cumprindo sua promessa de remover o país da lista de patrocinadores do terrorismo.

O governo Bush removeu a Coreia do Norte da lista em outubro de 2008, depois que o país concordou em continuar desativando sua usina nuclear. No entanto, uma tentativa final do presidente americano para concluir um acordo para desmantelar completamente o programa de armas nucleares da Coreia do Norte entrou em colapso em dezembro, quando os norte-coreanos se recusaram a aceitar os métodos de verificação propostos pelos EUA.

As negociações entre as seis nações estagnaram desde então. A Coreia do Norte conduziu seu segundo teste nuclear em maio de 2009, meses depois da posse de Barack Obama.

2012

Meses depois de tomar o poder após a morte de seu pai, o atual líder norte-coreano Kim chegou a um acordo com o governo Obama em fevereiro de 2012 para suspender as armas nucleares, testes de mísseis e enriquecimento de urânio, além de permitir que inspetores internacionais monitorassem suas atividades nucleares em troca de ajuda alimentar dos EUA.

Os Estados Unidos mataram o acordo em abril de 2012, quando os norte-coreanos lançaram um foguete de longo alcance que afirmavam ter sido construído para o lançamento de satélites. O lançamento fracassado foi visto pelo mundo exterior como um teste proibido de tecnologia de mísseis balísticos. A Coreia do Norte criticou os Estados Unidos de "exagerar" e lançou outro foguete de longo alcance em dezembro de 2012, que afirmou ter enviado um satélite ao espaço com sucesso.

Em 2013, Kim anunciou que seu governo buscaria uma política nacional de “byungjin”, visando simultaneamente buscar o desenvolvimento nuclear e o crescimento econômico, o que foi visto como uma ruptura da posição anterior dos norte-coreanos que usavam o programa nuclear como moeda de barganha para extrair concessões de governos estrangeiros.

2018

A divulgação diplomática abrupta da Coreia do Norte nos últimos meses ocorre após uma enxurrada de testes de armas em 2017, incluindo a detonação subterrânea de uma alegada ogiva termonuclear e três lançamentos de mísseis balísticos intercontinentais em desenvolvimento destinados a atingir os EUA.

O diálogo intercoreano foi retomado depois que Kim, em seu discurso de ano novo, propôs conversas com o sul para reduzir as animosidades e para os norte-coreanos participarem das Olimpíadas de Inverno de fevereiro, em Pyeongchang. A Coreia do Norte enviou centenas de pessoas para os jogos, incluindo a irmã de Kim, que expressou o desejo de seu irmão de se reunir com o presidente sul-coreano Moon para um encontro. Funcionários sul-coreanos mais tarde negociaram uma potencial cimeira entre Kim e Trump.

Embora autoridades sul-coreanas e norte-americanas tenham dito que Kim provavelmente está tentando salvar sua economia de sanções pesadas, alguns analistas acreditam que ele está entrando nas negociações depois de ter mostrado sua força nuclear completa em novembro.

Seul disse que Kim expressou interesse genuíno em mudar sua política de armas nucleares. Mas a Coreia do Norte tem defendido há décadas um conceito de "desnuclearização" que não tem nenhuma semelhança com a definição americana, prometendo prosseguir com o desenvolvimento nuclear a menos que Washington retire suas tropas da Península Coreana e do guarda-chuva nuclear que defende a Coreia do Sul e o Japão.

Alguns especialistas dizem que o programa nuclear de Kim agora está avançado demais para esperar realisticamente um retorno a quase zero. "Kim não oferecerá CVDI na porta", disse Koh Yu-hwan, especialista em Coreia do Norte da Universidade Dongguk de Seul, que está assessorando Moon em sua cúpula com Kim. Ele estava se referindo a uma abreviação para "completo, e verificável desmantelamento irreversível" do programa de armas nucleares norte-coreano.

"Tudo depende se Trump pode aceitar um acordo que elimine o 'fogo prematuro', retirando os ICBM’s do Norte, congelando e fechando suas conhecidas instalações nucleares e de produção de mísseis, e deixe o resto para futuras negociações" - disse Koh.
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