"Empoderamento feminino": um fragmento do velho conhecido socialismo


Por Wilson Oliveira

No último dia 23, o pré-candidato à presidência da República pelo Partido Novo, João Dionisio Amoêdo, respondeu uma crítica ao "neoliberalismo" feita por uma página ligada ao PSOL afirmando o seguinte: "Ainda temos muito trabalho para ampliar a igualdade de direitos. Só não podemos retroceder: empoderamento feminino e liberdade econômica andam lado a lado".

Duas questões podem ser observadas nessa mensagem: (A) um acerto, ao lembrar que a liberdade econômica é o fator que mais proporciona o fortalecimento das mulheres na sociedade; (B) um erro, ao utilizar a expressão "empoderamento feminino", criada pela esquerda para desvirtuar o debate sobre a força dos indivíduos em uma sociedade.

Abaixo, você encontra um esclarecimento do por quê liberais e conservadores cometem um erro básico de estratégia ao abraçar expressões como essa, que acabam por fragilizar na guerra política àqueles que são contra o socialismo, com uma explicação de como surgiu essa expressão, por quem foi criada e qual o papel dela no debate político.

Significado político da expressão "empoderamento"

O uso da expressão "empoderamento" ligada a um substantivo classificador de um movimento coletivista (leia-se "empoderamento feminino", "empoderamento negro" e "empoderamento LGBT") é um fragmento de termos que, com o passar dos anos, ganharam a missão de vender a ideia do socialismo sem que para isso precisasse utilizar a própria palavra "socialismo".

O "empoderamento" é a terceira fase das transformações de expressões da esquerda. É um conceito que busca a igualdade entre as pessoas em uma sociedade, tendo, também como alvo, o que teóricos esquerdistas criticam como "desigualdade social", afirmando ser maléfica a existência de pessoas mais e de pessoas menos ricas.

Para entendermos as transformações dos termos da esquerda, imaginemos uma linha do tempo, em que primeiro temos a expressão "socialismo", em segundo a expressão "justiça social", e em terceiro, mais atual, o empoderamento, distribuído para o uso de todo e qualquer movimento coletivista.

Confira o que escreveu Djamila Ribeiro, a feminista pesquisadora na área de Filosofia Política, em sua coluna na revista Carta Capital sobre o que é "empoderamento feminino":


"Empoderamento" foi cooptado da Reforma Protestante

O que muita gente no Brasil, tanto da esquerda como da direita, talvez não saiba, é que o termo "empoderamento" foi cooptado da Reforma Protestante, liderada por Martinho Lutero no século XVI através da Tradição de Empoderamento (Empowerment Tradition).

Neste documento da Revista Debates, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a professora aposentada Rute Vivian Angelo Baquero (PhD. em Educação pela Florida State University, com Pós-doutorado pela Universidade de Buenos Aires, e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unisinos e pesquisadora do NUPESAL/UFRGS), explica a origem do conceito "empoderamento":

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Embora a utilização crescente do termo empowerment tenha se dado a partir dos movimentos emancipatórios relacionados ao exercício de cidadania – movimento dos negros, das mulheres, dos homossexuais, movimentos pelos direitos da pessoa deficiente – nos Estados Unidos, na segunda metade do século XX, a Tradição do Empowerment (Empowerment Tradition) tem suas raízes na Reforma Protestante, iniciada por Lutero no séc. XVI, na Europa, num movimento de protagonismo na luta por justiça social (SIC) (HERRIGER, 1997). Neste sentido, conforme assinalam Hermany e Costa (2009), o tema do empoderamento social não é novo, no entanto, o marco histórico que trouxe notoriedade ao conceito foi a eclosão dos novos movimentos sociais contra o sistema de opressão em movimentos de libertação e de contracultura, na década de 1960 do século passado, nos Estados Unidos, passando o empowerment a ser utilizado como sinônimo de emancipação social.

No que diz respeito à Tradição do Empowerment com raízes na Reforma Protestante, Hugh Hewitt (2007) destaca que o movimento religioso do monge Martinho Lutero teve conseqüências que foram além da religião. Questionando a interpretação das escrituras então dominantes, e abordando assuntos considerados até então pertencentes ao papado, Lutero, em suas 95 teses, levanta um conjunto de críticas à Igreja e à autoridade papal. Publicada em alemão, a obra oportunizou, aos mais diferentes estratos da sociedade alemã, o conhecimento de suas ideias. Defendendo a livre interpretação da Bíblia, Lutero fez sua tradução para o alemão (Bíblia Luther), possibilitando o contato do povo simples e pouco culto com a bíblia.

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OBS: embora esclareça de forma correta a origem do Empowerment Tradition, a professora aposentada Rute Vivian comete um erro profundo ao afirmar que Martinho Lutera buscava "justiça social" (socialismo) com a Reforma Protestante. Na verdade, o conflito iniciado por Lutero com a autoridade católica jamais se colocou contra o capitalismo ou mesmo à existência de senhores e de servos na época. Afirmou Lutero ao se posicionar contra a Guerra dos Camponeses em 1524:

"Contras as hordas de camponeses (...), quem puder que bata, mate ou fira, secreta ou abertamente, relembrando que não há nada mais peçonhento, prejudicial e demoníaco que um rebelde". História. Volume Único. Gislane Campos Azevedo e Reinaldo Seriacopi. Editora Ática. 2007. ISBN 978-850811075-9. Pág.: 143.

Só há um empoderamento sob a ótica liberal: o individual

Empoderamento feminino, empoderamento masculino, empoderamento heterossexual, empoderamento homossexual, empoderamento trans, empoderamento negro, empoderamento branco... Nenhuma dessas expressões características de movimentos coletivistas encontra eco na ótica liberal quando a estudamos profundamente, exatamente por que um dos princípios fundamentais do Liberalismo Clássico é o individualismo. Confira abaixo um trecho de um artigo escrito por João Luiz Mauad para o Ordem Livre.


*Wilson Oliveira é defensor do retorno da monarquia parlamentar no Brasil. É conservador monarquista, com influências da tradição anglo-saxã do liberalismo clássico, do minarquismo, da Escola Austríaca e da Escola de Chicago. Reside no Rio de Janeiro, é jornalista e editor-chefe de O Congressista.
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