Um paralelo entre a Revolta do Chá e a Revolta dos Brasileiros


Por João Corrêa Neves Junior

Em 16 de Dezembro de 1773, um grupo intitulado ‘Sons of Liberty’, fantasiado de nativos americanos, deita ao mar toda a carga de chá armazenada no porto de Boston em um protesto contra abusos fiscais da Coroa Britânica. Sua reivindicação era: ‘No taxation without representation’. Basicamente, ‘Sem representação, sem imposto’. Em retaliação, os britânicos aprovam os "Intolerable Acts";, uma lei que permitiu que os muitos dos que participaram do protesto que ficou conhecido como ‘Boston Tea Party’ fossem executados sem que os perseguidores fossem processados ou condenados. Tudo isso, pelo “bem da sociedade”.

Resultado: As tensões aumentam, a crise se escala e, em 1775, em Boston, inicia-se um dos maiores marcos da história da modernidade: A Guerra da Revolução Americana, que culmina com a vitória dos revoltosos contra a Coroa Britânica e a consequente Declaração da Independência dos Estados Unidos da América. A independência do Brasil viria quase 50 anos depois, porém, de forma contraditória: em meio a diversas forças atuantes, foi justamente a solução monárquica a que se sagrou vitoriosa, com o filho do rei de Portugal, D. Pedro I, sendo coroado Imperador do Brasil.

Qual a ligação destes eventos históricos com a “Revolta dos Brasileiros”, sobretudo a paralisação dos caminhoneiros? Se analisarmos os acontecimentos olhando para o passado, já é difícil, pois a quantidade de fatos disponíveis e as narrativas contaminadas podem ofuscar a interpretação, imaginemos o quão trabalhoso é analisar os acontecimentos quando eles ainda acontecem, já que não temos todos os fatos em mãos e a narrativas atuam em tempo real.

Tal como não sabíamos que os protestos nos portos de Boston culminariam na Independência Americana quando os eventos aconteceram, tampouco como se comportariam as forças atuantes nos anos seguintes, não sabemos ainda exatamente a estrutura do movimento que parou o Brasil, nem qual será o desdobramento destes protestos para o futuro político e econômico do Brasil. A única coisa que parece ser evidente é que com estes acontecimentos, o brasileiro médio está mais consciente de que o Estado quando não contido na esfera mínima de atuação, não funciona a favor do povo,  mas a favor das elites políticas.

Tal como os ‘Sons of Liberty’ um dia gritaram ‘No taxation without representation’ e por isso foram perseguidos por ‘Atos Intoleráveis’, os Filhos da Liberdade de hoje suplicam por menos impostos e pelo fim da corrupção, quando deixam que saia do fundo de seus pulmões e sob o risco do deboche e do ostracismo o grito por “Menos Estado”. Para este primeiro grupo, a história reservou um lugar especial no hall glorioso dos triunfos humanos. Já para o segundo, apenas o tempo poderá nos dizer.

O que eu sei é que, olhando para a história, se eu pudesse escolher, eu teria sido um dos revoltosos que deitaram ao mar as cargas de chá naquela noite fria de 16 de dezembro de 1773 no harbour de Boston. E você?


*João Corrêa Neves Jr. é defensor da liberdade e do “rule of law”. É conservador iluminista, influenciado pelo liberalismo clássico e, em menor escala, pelo libertarianismo. Reside no Reino Unido, atua na área administrativa no mercado formal e é mestrando na área de História pela Universidade Nova de Lisboa.
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