O Conservadorismo e a Família – Russell Kirk


Traduzido por Guilherme Cintra

“A semente das afeições públicas”, Burke escreveu, “é aprender a amar o pequeno pelotão ao qual pertencemos na sociedade.” Nós não podemos sentir qualquer afeição por nosso país a não ser que primeiro amemos os que nos são próximos. O conservador sente que a família é a fonte natural e a base de qualquer boa sociedade; que quando a família decai, é provável que um coletivismo medonho a suplante; e que o principal instrumento de instrução moral, a educação ordinária, e a vida econômica satisfatória sempre devem permanecer na família. O que faz a vida valer a pena ser vivida é o amor; e o amor é aprendido dentro da família, e decai quando a saúde da vida familiar é prejudicada.

Hoje, forças poderosas estão na ativa para diminuir a influência da família entre nós, e mesmo destruir a família para todos os propósitos exceto a mera reprodução. Algumas dessas forças são materiais e não intencionais: certos aspectos do moderno industrialismo, que desintegra a velha unidade econômica da família; transportes e divertimentos baratos, que encorajam os membros da família a gastarem quase todo o seu tempo fora do círculo familiar; a apropriação de todas as antigas funções educacionais da família pelas escolas públicas, em parte considerável. O verdadeiro conservador busca modificar ou reverter essas tendências ao fazer os homens e as mulheres lembrarem de que o amor familiar é mais importante do que o ganho material; e ele tenta conceber meios práticos de reconciliar a unidade familiar com as demandas da vida moderna.

Mas outras forças hostis à família são não apenas impessoais e inconscientes: elas são mais ou menos deliberadas, e podem ser contra-atacadas por ação inteligente nas esferas social, educacional e política. A principal dessas forças sinistras é o desejo deliberado de certas de pessoas de que o estado político assuma quase todas as responsabilidades que a família uma vez possuía. Esse movimento é a forma mais abrangente e desastrosa de coletivismo. Que algumas pessoas que advogam tal caminho são bem-intencionadas não fornece desculpas para seus projetos. Todos nós sabemos de quê o caminho para o inferno é pavimentado. Um distinto sociólogo e historiador, Dr. R. A. Nisbet, em seu The Quest for Community, descreve o esquema dos totalitários, os nazistas e os comunistas, de eliminarem a família:

“A astuta mentalidade totalitária conhece bem os poderes da consanguinidade e da devoção religiosa para manterem vivos em uma população valores e incentivos que podem bem, no futuro, servirem como bases de resistência. Assim, para emancipar cada membro, e especialmente os mais jovens, da família foi uma necessidade absoluta. E essa alienação espiritual planejada da consanguinidade foi conseguida, não apenas através de processos negativos de espionagem e obtenção de informações, mas através do enfraquecimento das fundações funcionais da associação familiar e da substituição de cada um dos papéis sociais incorporados na família por novos e atrativos papéis sociais. As técnicas variaram. Mas o que era essencial foi a atomização da família e de cada outro tipo de agrupamento que intermediava entre o povo como sociedade e o povo como uma massa estúpida, desumana e sem tradições. O que o totalitário deve possuir para alcançar seu desígnio é um vácuo espiritual e cultural.”

George Orwell, em sua obra 1984, descreveu crianças londrinas ensinadas a serem espiões sistemáticos de seus pais, e que aprovavam trazer sua destruição. Essa desintegração final do amor familiar, e de todo amor, já é uma realidade em nações dominadas pelos comunistas. E se a família continua a decair no resto do mundo, tal culminação é concebível mesmo em nossa sociedade.

Algumas das técnicas deliberadas ou quase-deliberadas do estado-massa de desintegrar a família são estas:

(1) Tomar a instrução das crianças inteiramente de seus pais pela adoção oficial de teorias que prescrevem “educar a criança completa” nas escolas estatais, com uma correspondente depreciação da inteligência e dos direitos parentais.

(2) A criação de “organizações de jovens” para tomarem as crianças da esfera familiar em suas horas de lazer, e doutriná-las na ideologia do estado-massa.

(3) A abolição da herança de propriedade através de taxações de herança confiscatórias ou através de políticas de imposto de renda que deixam uma pequena margem para a poupança familiar.

(4) O encorajamento planejado do divórcio, “liberdade sexual”, e a “desprivatização das mulheres”, através de legislação positiva ou propaganda oficial, com o objetivo de enfraquecer os laços afetivos dentro da família que oferecem uma forte barreira às vontades do estado total.

E existem outras maneiras em que a autoridade política é empregada para tornar a família apenas uma questão sobre o lar – e nisso, apenas um lar frágil e impessoal. Contra esses ataques deliberados à família, como contra os assaltos menos deliberados da vida moderna, o conservador mostra sua face. Ele sabe que se a família deve sobreviver, homens e mulheres pensativos que acreditam que a família é um grande poder para o bem devem tomar contra-medidas imediatas. Ele sabe, com o professor Pitirim Sorokin, que a família deve ser restaurada e reconstruída entre nós, não apenas louvada em termos vagos. Como o Dr. Sorokin colocou:

“A família … deve se tornar novamente uma união de corpos, almas, corações e mentes em um único coletivo ‘nós’. Sua função básica, de implantar simpatia profunda, compaixão, amor, e lealdade em seus membros em geral, deve ser restaurada e desenvolvida inteiramente. Isso é necessário porque nenhuma outra agência pode realizar essa tarefa tão bem quanto a boa família convencional. Esse tipo de família se tornará a base de uma nova ordem social criativa.

Já que, como o Dr. Sorokin sugere, o conservador inteligente não simplesmente fica parado esperando. Particularmente nessa era, a tradição e as instituições estabelecidas estão sendo destruídas por forças terríveis, e o conservador deve olhar para o futuro, tanto quanto para o passado, se ele quer conservar o melhor de nossa herança. Ele deve restaurar a família a fim de protegê-la da extinção. Ele pode criar uma ordem social nova e melhor, não cooperando no sombrio processo de coletivização social, mas injetando uma vida nova às antigas e bem amadas instituições da família, igreja e comunidade. A família é a verdadeira comunidade voluntária, inspirada pelo amor e pelo entendimento comum. A única alternativa à família é o estado total, governado pela força e pelo poder central.

O conservador favorece muitos tipos de liberdade. Ele defende, por exemplo, a liberdade política, sob constituições balanceadas e justas; a liberdade econômica, sob as regras da moralidade; a liberdade intelectual, balanceada por um senso de responsabilidade intelectual. Mas existem ditas “liberdades” que o conservador inteligente sabe que são anárquicas e malévolas. Ele não reconhece qualquer liberdade natural de tomar os bens de alguém, ou de subverter a lei e a ordem, ou de demolir os princípios morais que criaram a própria liberdade verdadeira. E ele nega que qualquer pessoa, ou qualquer corpo coletivo, legitimamente desfruta a liberdade de violar todos os súbitos laços de afeto e interesse que criaram a família. Tal apetite não é liberdade, mas licença. Demandas para reduzir o casamento para uma união sexual meramente formal, quiçá isso; para transformar homem e mulher em meros borrões, com funções e tarefas idênticas; para “liberar” as crianças das influências de seus pais; para abandonar os preceitos morais que são a sabedoria acumulada da espécie, em favor de alguma “nova moralidade” coletivista – essas demandas não são partes da liberdade ordenada, mas são a negação da verdadeira liberdade.

A família é mais do que um simples arranjo para a gratificação de impulsos sexuais, e mais do que um mero mecanismo para tarefas domésticas. Como o Dr. Sorokin disse, “Mais bem-sucedida do que qualquer outro grupo, ela transformou seus membros em uma única entidade, com um fundo comum de valores, com felicidades e tristezas comuns, cooperação espontânea e sacrifício solícito.” Ela deixa o coletivismo estéril de mãos atadas. Ela nos ensina o significado do amor e do dever, e o que significa ser um verdadeiro homem ou uma verdadeira mulher. Ela é o primário “pequeno pelotão ao qual pertencemos na sociedade.” O conservador sabe que, faltando a família, nada muito importante em nossa cultura pode ser preservado ou melhorado. A família tradicional – que, como muitas coisas antiquadas, é uma coisa indispensável – dá-nos aquelas raízes sem as quais nós todos seríamos apenas vários átomos da humanidade separados, carentes de princípio e a mercê de alguma férrea dominação política.



Nota: O presente artigo foi traduzido do capítulo 5 do livro de Russell Kirk, inicialmente publicado com o título de The Intelligent Woman’s Guide to Conservatism.
O Conservadorismo e a Família – Russell Kirk O Conservadorismo e a Família – Russell Kirk Reviewed by O Congressista on 21:53:00 Rating: 5

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