O caso Bolsonaro e a “Cultura de Ódio” no Brasil


Por Rafael Andreazza Daros

A recente popularidade de Bolsonaro parece ter pegado muitos de surpresa, que parecem não ver nada no candidato além de um indivíduo grosseiro e possivelmente machista e homofóbico. Como pode, então, ele estar liderando as pesquisas?

Creio que há pelo menos dois motivos que explicam isso. Antes de começar, porém, quero fazer um adendo. O que direi a respeito do candidato não necessariamente coincide com a minha opinião sobre ele. Parto do pressuposto de que, para qualquer análise minimamente imparcial, a minha opinião sobre o candidato não importa. Limito-me a descrever e analisar o que possivelmente pensam aqueles que o defendem. Boa parte dos nossos analistas políticos falha em entender o fenômeno por não saber fazer esta distinção.

Isso não significa que essas duas hipóteses esgotem as possibilidades. Limito-me a essas dois por julgá-las as mais relevantes. Pode ser que um ou outro desses fatores, ou ambos, sejam verdadeiros para diferentes parcelas de seu eleitorado.

O primeiro motivo é mais simples: para grande parte do eleitorado, isso simplesmente não importa. O povo comum tem outras prioridades e não está nem aí para as ofensas proferidas ou não. Querem apenas a garantia de que terão um emprego e não morrerão ao voltar do trabalho ou na fila do SUS. Lula foi um sucesso político porque fez as pessoas acreditarem que a pujança econômica em seu governo foi mérito seu. Se o povo achar que conseguirá o mesmo com Bolsonaro, votará nele sem pestanejar.

Vale lembrar também que, anos atrás, o estatuto do desarmamento foi REJEITADO em um referendo popular, cuja vontade do povo foi simplesmente ignorada. Independente do que eu ou você possamos pensar sobre o assunto, o que importa é que a maioria da população não apoia o desarmamento. Bolsonaro é contra o desarmamento. Tampouco está envolvido em qualquer esquema de corrupção. Ponto.

O segundo motivo é mais complexo e necessita de uma análise mais aprofundada. Ao contrário do que muitos pensam, conflitos políticos não são necessariamente um conflito de interesses. Muitas vezes, são conflitos de visões.

Darei um exemplo para ilustrar o meu ponto. Em uma entrevista, anos atrás, de Roberto Campos para o programa Roda Viva, ele afirma que um dos problemas com o plano cruzado está na mentalidade anti-empresarial, porque ela treinou o povo a acreditar que inflação é a alta de preços. As implicações disso são enormes. Se a inflação é a alta de preços, então o culpado é o empresário. Mas se a inflação é a expansão monetária e a alta de preços é a consequência, então o culpado é o governo.

Há pelo menos 2 visões concorrentes que podem levar a ideias completamente opostas sobre como o mundo funciona. Não pretendo me alongar entrando nas especificidades. Quem se interessar no assunto pode ler “Conflitos de Visões”, de Thomas Sowell, que faz uma análise mais detalhada da questão. Tudo o que é importante notar aqui é que, para boa parte da visão de esquerda, intenções equivalem a resultados. O que significa dizer que a maioria dos problemas sociais, se não todos, podem ser explicados apenas pela presunção da malignidade dos agentes sociais, e não como obra do acaso ou de fatores fora do controle de qualquer sociedade ou governo. Diferenças de realizações entre grupos distintos são sempre vistos como prova de discriminação ou de vitimização, jamais como a consequência lógica (ainda que não intencional) de determinadas políticas, e muito menos como resultado de fatores internos, tais como escolhas individuais, capacidade de inovação ou de resiliência, dedicação ao trabalho ou estudos, capacidade de planejamento financeiro ou a mera presença de uma estrutura de apoio familiar.

A consequência lógica disso é que o esquerdista frequentemente se vê como alguém que está do lado dos anjos contra as forças do mal. Aqueles que discordam de seus métodos ou de sua visão não são vistos como alguém que simplesmente discorda deles, mas sim como um prova de mau caratismo.

Sendo assim, não há necessidade de entender como pensam quem vota em Trump e Bolsonaro. Para eles, quem vota nessas pessoas é simplesmente mau caráter: está a favor dos ricos e contra os pobres, é racista, machista, homofóbico ou aproveitador e ponto final. Como já afirmou o filósofo Olavo de Carvalho:

“A diferença aparece com ênfase máxima na maneira como os romancistas traçam os personagens de seus virtuais antagonistas políticos. Os romances escritos por conservadores pululam de revolucionários, comunistas, anarquistas, terroristas e assassinos políticos retratados em toda a complexidade moral de sua vida interior e das situações que atravessam. Nos romances ‘de esquerda’, o adversário político quase sempre aparece sob forma caricatural, desumanizada ou monstruosa, sem qualquer atenuante, sem qualquer ambiguidade, sem qualquer concessão relativista ou mera simpatia humana... É quase impossível conceber, na obra desses e de outros romancistas de idêntica filiação ideológica... um personagem conservador ou de direita que tenha alguma virtude humana, alguma qualidade moral, alguma razão aceitável de ser como é e pensar como pensa.”

Tentaram colar a qualquer custo a narrativa de que quem apoia o Trump é xenófobo, machista ou supremacista racial. Deu no que deu.

Ainda sobre o Trump, vale a pena fazer um adendo, caso venhamos a considerar a ideia, propagada pela mídia, de que ele venceu graças ao “racismo” e “xenofobia”. Quatro anos é um período de tempo muito curto para haver qualquer mudança radical e relevante na base eleitoral de um país. Ou seja, as pessoas que elegeram o Trump foram as mesmas que, apenas 4 anos atrás, elegeram Obama, o que foi retratado como um “marco histórico nas relações raciais do país” por ser o “primeiro presidente negro”. Será que alguém levaria a sério a ideia de que 4 anos de governo Obama foram suficientes para minar a tolerância racial de metade da população? Ou seriam os jornalistas prepotentes o bastante a ponto de julgar o caráter de uma nação inteira de acordo com o grau de afinidade ideológica? Se o povo vota num candidato que eu gosto, ele é tolerante e virtuoso. Caso contrário, é intolerante e preconceituoso.

Outra consequência desta visão maniqueísta é a ideia de que, uma vez que eu estou “do lado certo” e lutando “contra tudo o que está errado” (chame o lado “errado” como quiser: opressores, imperialistas, “neoliberais”...), tudo o que o meu grupo faz está automaticamente certo e o que o outro lado faz está automaticamente errado. Isso facilita a demonização e desumanização dos seus oponentes políticos. O extremo disto é a mentalidade revolucionária, ancorada na crença da violência como uma força de redenção política: isto é, de que a violência não é uma coisa condenável, desde que seja usada contra as pessoas certas.

Diversos acontecimentos aqui e afora corroboram isso: defensores de Bolsonaro e Trump sendo agredidos gratuitamente nas ruas ou sofrendo bullying nas escolas; palestrantes conservadores sendo expulsos de universidades na base da gritaria ou violência explícita; integrantes do MBL sendo expulsos de palestras aos berros de “fascista” ou sendo ameaçados dentro da faculdade com falas do tipo “precisa apanhar para aprender a ser negro de verdade” (aconteceu com Fernando Holiday); denúncias das mais variadas na internet mostrando comentários que vão desde “receber a turma do Sérgio Moro na Bala” até “Stálin matou foi pouco”. A “diversidade” tão defendida para a esquerda é bastante seletiva: só é válida para diversidade sexual e de gênero, jamais a ideológica, justamente pela presunção de malignidade explicitada há pouco. Isso não implica que não exista histeria ou fundamentalismo em outros pontos no espectro político. Mas esta truculência tem sido, até agora, monopólio da esquerda.

Este motivo explicitado acima – de que possuem o monopólio da virtude – também justifica o duplo padrão de julgamento em diversas das bandeiras supostamente “humanitárias” que defendem. Ilustro com um exemplo pessoal. Há décadas a esquerda não tem papas na língua para dizer que a direita é um câncer. Mas quando o oposto ocorre, se sentem vítimas de “discurso de ódio”. Já debati uma vez com um sujeito que me acusou de estar “disseminando o ódio” simplesmente porque afirmei que gostaria que as ideias da esquerda caíssem no ostracismo porque essas ideias, quase sem exceção, levam apenas a desastres sociais. Veja bem, não afirmei que deveríamos “meter bala” nos esquerdistas. Disse apenas que gostaria que as ideias esquerdistas fossem tão desacreditadas quanto as ideias de um matemático que afirmasse que 2 + 2 são 7. Na mesma moeda, Olavo de Carvalho também disse uma vez que o socialismo tem que se transformar em uma ideia na qual as pessoas vão rir no futuro. Para este sujeito, afirmar tal coisa se enquadra como “discurso de ódio”.

Vale a pena notar que aparentemente nada que um esquerdista diga é recebido da mesma forma. Não muito tempo atrás, a jornalista Rachel Scherazade ganhou notoriedade nas redes por suas opiniões fortes que ganharam rápida repercussão. Seu único defeito? Ser conservadora. Isso foi suficiente para que o intelectual esquerdista Paulo Ghiraldelli escrevesse em suas redes sociais que o desejo dele é que Rachel Scherazade fosse estuprada. Já o professor Mario Iasi proferiu um discurso, nas dependências do campus universitário, de que “contra os conservadores... não há diálogo, apenas luta” e que tudo o que os conservadores mereciam são “uma boa espingarda, uma boa bala e uma boa cova”. Não se sabe sobre quaisquer processos movidos contra ambos por discurso de ódio, tampouco contra os proferidores de ameaças nas redes mencionados anteriormente. Até mesmo Che Guevara supostamente defendia a necessidade do ódio revolucionário e implacável contra seus inimigos.

E o que isso tudo tem a ver com Bolsonaro? Para boa parte de seus defensores, Bolsonaro parece ser o único capaz de se opor a isso de forma consistente e possui um pulso firme para não ceder às pressões desses grupos autoritários. Pela primeira vez a direita brasileira se sente representada politicamente por um candidato com chances reais de vitória.

Outro ponto importante a ser feito é uma visão sobre a política que muitos chamam de guerra política. De acordo com essa visão, a política é a guerra feita por outros meios. Uma guerra é essencialmente uma luta por territórios. A diferença aqui é que as armas são as palavras e o território a ser conquistado são as mentes e o coração das pessoas. A estratégia da esquerda nas últimas décadas foi infiltrar-se nas instituições culturais: escolas, universidades e veículos de mídia. Isso talvez explique, em parte, o porquê da esquerda ter sido capaz de se utilizar do ódio e do racismo como expediente político há eras, mas ter convencido milhões de que isso é um vício apenas da direita, da mesma forma que também convenceu milhões de que a esquerda governa para os pobres e a direita para os ricos.

Outro expediente político para manter o monopólio também foi a intimidação, a difamação e o assassinato de reputações. Isso também explica, pelo menos em parte, porque normalmente apenas os piores chegam ao poder. Por mais genuíno que seja o desejo de alguém em usar a política para avançar sua comunidade, quantas pessoas você conhece que possuem a integridade e a fortaleza moral necessárias a ponto de aceitarem se expor publicamente e se sujeitar à máquina política de difamação e assassinato de reputações sem esperar nada em troca? Agora essa mesma esquerda quer denunciar o clima de polarização política que ela mesma ajudou a criar.

Já na época do Impeachment, Luiz Felipe Pondé deu o diagnóstico: “O PT ensinou ao Brasil o ódio político. Agora, está provando de seu próprio veneno”.
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