Pré-candidato à presidência do Novo apoia Zema e prega gradualismo e pragmatismo


O segundo turno da eleição presidencial levantou uma dúvida no entorno do Partido Novo: apoiar Jair Bolsonaro ou se manter neutro? A questão foi mais uma a evidenciar as mais variadas opiniões entre os filiados, não só sobre este, mas a respeito de inúmeros assuntos. Havendo também espaço para críticas internas, eis que surge uma pré-candidatura para presidência do partido. Trata-se de Ricardo Negreiros, 55, filiado do Rio de Janeiro, que prega gradualismo e pragmatismo e é defensor de um monitoramento crítico.

Negreiros é fundador da "RN EXECUTIVOS", que reúne executivos com vasta experiência em planejamento e liderança de projetos de estruturação de empresas, trabalhando na solução de situações financeiras críticas ou em processos de aumento de lucro. Ricardo Negreiros também é autor do livro "Manual do Reestruturador de Empresas". Na entrevista abaixo, ele faz críticas pontuais ao diretório nacional, revela ter se aproximado do Novo em 2013 e declara apoio total a Zema, candidato do partido que disputa o segundo turno em Minas Gerais.

O Congressista: Como se deu a sua aproximação com o Partido Novo?

Ricardo Negreiros: Nas manifestações de 2013, a convite de um amigo a quem havia ajudado como reestruturador de empresas, promovemos um seminário idealizando de que forma poderíamos repensar os rumos no Brasil. Esse evento chamou a atenção do núcleo do Novo no Rio de Janeiro, que ainda não conhecia, e passei a frequentar as reuniões no Leblon.

OC: Qual o balanço pode ser feito do Novo desde as primeiras reuniões, antes do registro, até o presente momento?

RN: O Novo trazia um vento forte de esperança de que é possível melhorar muito o ambiente político no Brasil. Esse vento atingiu e ainda vai atingir muito mais pessoas. Nas reuniões antes do registro no TSE existia, pelo menos no Rio de Janeiro, uma vontade imensa de desenvolver o que podemos chamar de “ideias de transformação”. Mas, paralelamente havia também uma certa obsessão do Diretório Nacional em captar recursos e filiados. Houve um choque entre essas duas prioridades, a meu ver inútil, pois as duas frentes eram importantes. É importante respeitar as aptidões e a liberdade das pessoas em contribuir dentro de sua zona de conforto.

Logo após o registro, percebi que havia um vazio quanto a conteúdo. Afinal, se o partido quer participar da arena do poder, o que pretende mudar? E como? Como não se ouviu nada concreto do partido, eu e mais sete filiados criamos, em outubro de 2015, o Reinventando Cidades, uma espécie de programa de governo que explicava como gerenciar as cidades de forma mais eficiente e com apenas oito secretarias, cujos seminários alcançaram grande repercussão em vários estados.

O partido está agora em outro patamar. Tornou-se conhecido nacionalmente e vem, com louvor, lutando e conseguindo preservar e divulgar a ideia de que é possível se eleger e governar sob os mais elevados princípios e valores. Acabamos de eleger deputados federais e estaduais e estamos prestes a fazer um governador.

Mas observo que muito do que foi dito, feito e de como foi feito até agora precisará ser revisto diante dessa imensa responsabilidade, obviamente sem que precisemos nos distanciar dos nossos valores.

O momento é de reflexão se poderíamos ter eleito entre 30 e 50% a mais de deputados nessas eleições. E de que é preciso começar a pensar também nas eleições de 2020. Uma complexidade que só tende a aumentar.

OC: Por que se disponibilizar como pré-candidato à presidente do Novo?

RN: Pretendo oferecer uma abordagem alternativa, talvez complementar, às prioridades estabelecidas pelo partido, para que a preservação dos valores se some a uma postura mais pragmática, assertiva e afirmativa do seu potencial político. Quando vemos alguns dos nossos deputados federais sendo criticados por colegas filiados por se aproximarem do Bolsonaro avalio que essa cobrança tem origem nos equívocos da mensagem, que tenho chamado de “purista”, que o partido tem passado às pessoas. Política requer entrosamento entre equipes diferentes. Temos que apoiar os nossos candidatos, ainda mais quando eleitos. Preservando o que denominei de “monitoramento crítico” (*), que significa acompanhar o desempenho de todo e qualquer legislador ou governante de maneira firme e isenta.

OC: O Novo sempre transmitiu a mensagem de um projeto a médio-longo prazo. A chegada do Zema ao segundo turno na eleição para o governo de Minas Gerais, na sua visão, altera algum planejamento do Novo?

RN: Considero a ideia de “médio-longo prazo” mal vendida e mal interpretada. O que se materializará em alguns ou em muitos anos é o país que queremos, pois a mudança é complexa. O partido já existe hoje, inclusive com representantes eleitos, que precisam apresentar resultados imediatos, não amanhã ou depois.

A elogiável chegada do Zema ao segundo turno deve mexer bastante com o Novo. Minas é quase um país, com 853 prefeituras. É preciso muita versatilidade, criatividade e graus de liberdade para fazer aquele gigantesco desafio funcionar bem.

A ‘plataforma Novo’ suporta bem qualquer desafio, pois em suas raízes estabeleceu diretrizes claras de governança, meritocracia e linhas de conduta de como cuidar da coisa pública tais como liberdade com responsabilidade, menos burocracia etc.

O histórico de “broncas” e de descuido na comunicação estratégica do Diretório Nacional (DN) com e para os filiados e mesmo com os próprios diretórios estaduais me deixaram preocupado quanto a se os atuais administradores do partido estão cientes do conflito potencial entre o que acham que é e a realidade do que o Novo de fato é e será.

OC: Apesar dos inúmeros setores existentes dentro do partido, o que ficou ainda mais nítido neste segundo turno presidencial, como essas alas se comportam com relação ao Zema? O apoio é geral e irrestrito?

RN: Não tenho um levantamento preciso quanto a isso. Falo por minhas próprias impressões e de amigos de alguns diretórios. O que posso assegurar é que o Zema e nossos colegas mineiros estão lutando heroicamente pelo êxito da campanha, e sabiamente deixando para trás, no momento, qualquer que seja a sua ideia de solidão quanto a apoio.

Um problema importante é o ideológico. Escrevo há mais de trinta anos sobre a importância dos empreendedores, mas é preciso compreender que a principal ideia da esquerda, de um estado “inteligente e provedor”, é muito mais intuitiva. Crescemos no país dos concursos públicos. Dos bons empregos “vitalícios” na Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal etc.

O Novo foi muito influenciado por leituras de escritores estrangeiros e suas experiências “datadas” de um certo período. Mas o Brasil não é para amadores. Temos que reafirmar a realidade de que muitas das mudanças que queremos precisarão ser graduais. É preciso dar um voto de confiança ao bom senso do Zema, como no caso de suas citações quanto a algumas privatizações mineiras. Talvez não ocorram com a velocidade que gostaríamos, uma vez que exigem cuidadoso e diligente trabalho de negociação junto à Assembleia Legislativa. Gradualismo é uma palavra-chave. Acompanhemos com atenção e pés no chão.

OC: Na sua opinião, Zema agiu corretamente ao citar Bolsonaro no último debate do primeiro turno?

RN: ´Política é a arte do possível´ porque a realidade assim exige. Testemunhamos o trabalho da máquina de um bandido conhecido, Aécio Neves, e de um líder presidiário, do PT, contra o povo mineiro. Zema se manifestou apropriadamente dirigindo-se também aos eleitores do Bolsonaro. Uma atitude sábia e até elegante. Não concordo que a poucos dias do pleito precisasse levar uma repreensão pública do DN. Isso certamente desestabilizou e desmoralizou o nosso candidato e a sua equipe. Se aquilo incomodou a alguém, um telefonema teria sido bem mais apropriado.

É esse tipo de coisa que faz parecer que somos uma elite jogando peteca no quintal de casa, entre familiares, distante dos anseios de uma imensa população cansada de maus governos. O povo mineiro merecia mais respeito do DN em relação às suas esperanças.

OC: Caso Zema consiga ser eleito governador de Minas Gerais, podemos esperar mudanças no Novo? Que tipo de mudanças?

RN: Zema é um administrador muito experiente, profundo conhecedor do estado de Minas Gerais e de sua gente. Trabalhou desde sempre no setor real da economia, comprando e vendendo bens de pequeno valor, conversando com vendedores e clientes para entender um pouco os seus desejos e sonhos. Por conta disso acredito que tenha uma forma de ver o mundo bem diferente de alguns líderes do partido, egressos do setor financeiro.

Sua votação será acachapante, se Deus quiser. Porém “Daqueles a quem foi confiado muito, muito mais será pedido” (Lucas 12:48). O desafio de melhorar Minas Gerais irá requerer muita flexibilidade de ação. Conversar com líderes de vários partidos, prefeitos ou deputados, sejam estes honestos ou não, são apenas alguns exemplos. Conversar com o potencial presidente Bolsonaro e seus inúmeros apoiadores também. Como se aproximar dessas pessoas, especialmente do Jair, sabendo dos inesgotáveis ataques pessoais que este sofreu do nosso partido?

Volto a dizer: Zema precisará agir com liberdade e responsabilidade. Mas, para que ele possa estabelecer as necessárias conexões com quem de fato irá governar precisará naturalmente atribuir uma nova identidade à forma de atuação do partido. Intuo que o atual DN perdeu a oportunidade de pautar essas conexões junto com o Zema.

Os holofotes de MG e do país estarão sobre nosso futuro governador e, em sendo bem sucedido em sua jornada, e do seu jeito, naturalmente se tornará um líder interno do partido. Acredito que pautará uma forma mais pragmática de atuação, sem se distanciar um milímetro de seus sólidos princípios e valores.

É também o meu desejo.
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