Pré-candidato a presidência do Novo defende que partido se espelhe no Tea Party

Arte: Fellipe Luiz Villas Bôas

Por Wilson Oliveira

Um mês após o segundo turno das eleições presidenciais, que definiram Jair Bolsonaro como novo presidente da República, Ricardo Negreiros, pré-candidato a presidência do Partido Novo, voltou a conversar com O Congressista. Desta vez, em uma entrevista mais longa, temas mais complexos foram tratados. Existem problemas internos dentro do Novo que espalham insatisfação entre uma leva cada vez maior de filiados. Os comandantes da legenda, por sua vez, seja em âmbito nacional ou estadual, não falam a mesma língua desses insatisfeitos, motivo pelo qual Negreiros foi alçado como pretendente a dar um novo rumo ao partido, tarefa que não será nada fácil.

Entre os problemas, talvez o principal seja o processo de escolha dos candidatos, cada vez menos transparente e, para vários dentro do Novo, cada vez mais antidemocrático. Nomes vistos como competentes e competitivos ficam de fora. Nomes questionáveis e sem nenhuma condição de vitórias são escolhidos. A forma como o partido se apresenta, se afastando do eleitor que almeja mudanças não apenas econômicas; o personalismo em torno de João Dionisio Amoedo; e todas as complicações consequentes dessa situação estão tratadas abaixo, por Ricardo Negreiros. Confira!

O Congressista: Na sua opinião, por qual motivo o Novo conseguiu ser vitorioso em Minas Gerais, mas fracassou em todas as outras corridas eleitorais para o executivo?

Ricardo Negreiros: Não gosto da palavra fracasso porque é preciso, acima de tudo, comemorarmos esse feito de eleição de um governador já na primeira eleição do Novo. Por outro lado, é importante a análise do que não funcionou. O meu incômodo começou exatamente por acreditar que o resultado foi bem aquém do que esperava, não apenas eu, como vários filiados, mas em virtude do próprio planejamento do partido no início desse processo eleitoral.


OC: O que faltou para o Novo se sair melhor nas eleições para governador e presidente?

RN: No caso específico de eleições majoritárias, é necessário atingir uma quantidade imensa de votos. É preciso que o candidato seja muito conhecido para que lhe deem ouvidos. Usa-se a expressão “recall” para o fenômeno de memorização do candidato entre os eleitores. Dentre os candidatos do Novo, Zema, presidente de uma organização quase centenária, bilionária, presente em diversos segmentos e em inúmeras cidades por meio das placas de centenas de estabelecimentos comerciais com o seu nome, era o candidato com maior potencial de ressonância. Juntando a fama do sobrenome à sua capacidade de se comunicar com o povo mineiro, Zema teve meio caminho andado.

Uma outra condição específica de MG foi o forte antagonismo PSDB x PT, de maneira que os eleitores dos principais candidatos, Anastasia e Pimentel, jamais votariam no partido do outro. Como, no caso, sobrou o Anastasia, é bastante provável que muitos petistas tenham votado no Zema como “rota de fuga”. Não observo essa particularidade em outro estado onde o Novo tentou para governador.

OC: Também teve a citação ao Bolsonaro, no último debate, como falamos na primeira entrevista...

RN: Acredito que a perspicácia de abrir uma sutil conexão com o fenômeno eleitoral deste ano, Jair Bolsonaro, não por oportunismo, mas por similaridade de posições, foi o movimento final que consolidou na mente do eleitor mineiro que Zema seria, como é, o mais merecedor de sua confiança.

OC: Faltou aos outros candidatos do Novo essa aproximação com o Bolsonaro?

RN: Os demais concorrentes ao executivo do Novo tiveram as barreiras naturais, ainda que eleitores ansiosos por mudanças estivessem bem atentos às novidades. Anonimato, falta de recall e, como se ouviu dizer, falta de carisma, ou mesmo “frieza contagiante”, foram elementos que prejudicaram uns e outros nas urnas.

Porém, contrariamente ao Zema, o antagonismo ao Bolsonaro reforçado pelo Amoedo fez o eleitor nos virar o nariz prejudicando principalmente os nossos concorrentes a deputado. Ao rejeitar, ou melhor, menosprezar a força do simbolismo do Capitão e seus mais de 55 milhões de eleitores, impediu que pudéssemos ter conseguido um número bem maior de deputados.

Arte: Fellipe Luiz Villas Boas

OC: Em um dos seus grupos de apoiadores no Whatsapp, surgiu uma crítica que o Novo estaria agindo como movimento social, não como partido político. Tal afirmação também tem sido feita por outras pessoas, dentro e fora da legenda. Na sua opinião, o que está acontecendo para esse tipo de comentário?

RN: Como apoiador há mais de cinco anos admiro muito a plataforma política do Novo, sua ideologia, princípios e valores. O que certamente precisamos rever é o comportamento do comando do partido que nessa eleição, e já desde a anterior, deixou claramente transparecer que lida com a política interna e externa de forma muito descuidada. O atual comando do partido faz o Novo parecer que está sempre observando de fora as disputas políticas do Brasil, como ficou claro ainda mais evidente nas declarações relativas ao segundo turno presidencial.

OC: E há os conflitos cada vez mais quentes dentro do Novo...

RN: Que são também mal resolvidos... Cito aqui a Resolução 12, que foi logo arquivada, tem o caso Lyra, candidatos cujo processo seletivo durou longos nove meses e outros apenas quatro semanas, entre outros. Vejo também como desafio interno estratégico a falta de interação do Novo com outros partidos. Observo preocupado o perigoso acúmulo de ex-apoiadores frustrados e um isolamento político a partir da disseminação da pretensiosa ideia de que “os nossos candidatos são melhores que os outros”. Observemos o quadro evolutivo de filiações, cuja média de desfiliações até mês passado está com significativos 18%, tendo atingido 42% em 2016, no auge da crise das decisões que desapontaram inúmeros filiados.


É um quadro que demonstra um vigoroso crescimento nos primeiros três anos. Mas é preciso explorar e explicar vários aspectos, tais como os motivos das desfiliações e a taxa de inadimplência. Prudentemente não me empolgo com crescimentos dessa natureza no início. Quem não conhece bares e restaurantes que começam lotados, com filas imensas, e depois decaem e fecham? É preciso avaliar meios de fazer crescer e perenizar o partido.

OC: Mas afinal, o Novo se comporta mais como movimento social do que como partido?

RN: Defender isoladamente valores e bandeiras na presunção de que ninguém mais tem os mesmos ideais ou não se preocupa com isso é típico dos movimentos sociais. Cruzadas contra a corrupção, cruzadas contra a burocracia, cruzadas a favor do livre mercado e das privatizações etc. são bandeiras fantásticas para um partido, mas precisam ser atreladas a uma vontade ferrenha de estar no poder, e se conectar com ele, para colocá-las em prática.

O comando atual tem estimulado em boa parte da militância do partido um perfil isolacionista, que tem sido chamada de "novomínion" nas redes sociais. Esse panorama é fruto do isolamento praticado e fomentado pelos atuais comandantes do partido, que julgam indigno de confiança qualquer fenômeno ou ator político distinto dos “escolhidos”, atribuindo a si mesmos uma aura de monopólio das virtudes.

Arte: Fellipe Luiz Villas Boas

Por esse “acanhamento” o Novo tem de fato parecido mais um sofisticado movimento social, capaz de provocar boas discussões, do que de fato um partido com estratégias ambiciosas e planos concretos para mudar o país. É preciso evoluir politicamente.

OC: Você concorda que a campanha do Novo ficou muito personalista em cima do Amoedo e das suas opiniões?

RN: É esquisito, mas muitos foram os sinais de que o Novo parecia não pretender ganhar votos, exceto, claro, no caso da Presidência. Por exemplo, não vimos ênfase nas janelas de mídia nacional para enfatizar o “vote nos deputados do Novo”; não vimos ênfase no “vote no Zema” que, ao contrário, tomou uma reprimenda a poucos dias da eleição; não tivemos candidatos ao Senado pelo Rio de Janeiro; desconheço esforços especiais para aproveitar as centenas de milhares de votos potenciais do Van Hatten e fazermos pelo menos mais um federal no RS; não vimos contribuição, seja por crítica ou apoio, ou seja, postura “em cima do muro”, ao programa de governo do Bolsonaro, o qual estava fadado a se tornar o presidente etc.

OC: No último dia 12, o UOL publicou uma entrevista em que Amoedo admitiu ter votado em Bolsonaro no segundo turno, mas na mesma entrevista o ex-presidenciável do Novo manteve distância do presidente eleito e voltou a criticá-lo, como fez durante todo o primeiro turno. Você concorda com essa postura?

RN: Reforço a admiração e o respeito pela iniciativa do Amoedo em criar e desenvolver um partido que aos poucos se torna referência de posicionamento ético e de defesa dos princípios liberais no Brasil. Mas, preciso ser honesto com a minha consciência. Foi essa postura, que qualifico como pouco ponderada, do Amoedo diante do fenômeno político Bolsonaro, o único com chances reais de espantar o PT da presidência, que me fez perceber que precisamos de novas lideranças no topo do partido. A quantidade de memes ironizando a falta de timing do João, os mais leves lhe reputando o título de Rubinho Barrichello da política, dá uma ideia do desconforto de muitos apoiadores.

OC: Você, diferentemente do Amoedo, acredita que o Bolsonaro possa ter evoluído?

RN: Não que eu seja fã do Bolsonaro ou desconheça que votou em muita bobagem no passado, mas a experiência com pessoas me ensinou que elas podem evoluir. Em benefício da dúvida do que acontecerá doravante, sempre fui prudente em dizer que o meu voto no segundo turno foi basicamente pelo que o Bolsonaro representava para a eliminação do petismo e por um bocado das diretrizes do seu programa de governo. Portanto, mesmo que haja o risco do Jair não fazer um bom governo, o Amoedo, digo, o Novo, deveria ter explicado o que aprova ou não no programa bolsonarista. Mas aí há algo esquisito, pois parece até que o Amoedo tem dificuldade em pronunciar o nome de um presidente eleito por 55 milhões de pessoas. É um pouco como desqualificar a opinião e a opção de mais da metade dos eleitores brasileiros.

OC: Se já fosse presidente do Novo, como você administraria a posição do partido diante do Governo Bolsonaro?

RN: Com os recursos que tem, pessoais e do Novo, ainda está na hora de organizar um corpo de técnicos para elaborar um documento que contribua para tornar o plano do Jair ainda melhor. Isso seria de fato fazer algo Novo. Agir com distanciamento do que está acontecendo e do que irá acontecer em Brasília é uma atitude negligente, a meu ver. Pouco à altura do que o país precisa nesse momento de desespero para 13 milhões de desempregados.

OC: Na sua opinião, falta uma leitura mais pragmática e racional do Novo sobre a política brasileira? Por exemplo, o caso do vereador Leandro Lyra, que precisou encarar um embate contra o próprio partido para se lançar candidato a deputado federal, sendo criticado publicamente pelo Novo, acirrou os ânimos entre os filiados do RJ...

RN:
É preciso mais uma vez separar a admirável plataforma do partido daqueles que o comandam de acordo com a sua interpretação e conveniência. O Novo fez uma leitura política e de oportunidades em meados de 2010, mas de lá pra cá praticamente não modificou uma linha do que foi desenhado na ocasião. O Brasil mudou muito rápido nesse intervalo. Oportunidades surgiram, janelas se abriram e o comando não se deu ao humilde trabalho de rever leituras, regras e condutas, sem que fosse necessário alterar os seus valores.

OC: Muitos filiados comemoraram os resultados do Novo nas eleições, mas parecem ter se esquecido que muitos que estavam no partido se debandaram para o PSL e hoje estão com Jair Bolsonaro...

RN:
Quando vemos filiados comemorando os resultados da atual eleição de 2018, me preocupo se não enxergam que uma parte relevante da janela de oportunidade que tivemos provavelmente já esteja sendo ocupada pelo Bolsonaro. O Brasil e grande parte do movimento liberal, como o Paulo Guedes e tantos outros líderes, eram entusiastas do partido Novo mas foram se afastando lentamente, desde 2015, por conta de contradições e erros estratégicos em cascata. Foram se desmotivando aos poucos, procurando outras vias de representação. O comando do partido espantou muita gente boa para dar espaço a nomes algumas vezes bem questionáveis, vários sem o mínimo dom político.

Arte: Fellipe Luiz Villas Boas

OC: Não faltaram críticas sobre o Novo estar desconectado dos problemas do País durante a campanha...

RN:
Para acentuar a insensibilidade política, enquanto o país observava a votação do STF sobre a segunda instância, a campanha do Amoedo focava a narrativa na privatização dos Correios. Enquanto o país clamava por atenção à violência representada nos 60 mil assassinatos anuais, Amoedo continuava focando a narrativa na privatização dos Correios. Somente quando o Brasil inteiro enxergou a opção do Bolsonaro como alternativa ao atraso das esquerdas é que Amoedo resolveu incluir narrativas diferentes como segurança pública e combate mais efetivo ao PT.

OC: Tem crescido uma onda de críticas contra o Diretório Nacional, acusado de agir de forma antidemocrática dentro do partido, e contra os diretórios regionais, sendo que em alguns casos há acusação de dificultar o lançamento de candidaturas competitivas. A que você atribui esse tipo de situação?

RN:
Repito aqui, para enfatizar, que vejo uma distância entre os valores do Novo e o que observo de várias decisões do seu comando atual. Muitas dessas críticas já são antigas. Para muita gente parece evidente o apego à preservação do comando, o que é, como sabemos, um hábito da velha política brasileira. São evidentes os indícios de rejeição a um valor básico da democracia, a alternância de poder. Há também a sensação de boicote e vigília de perfis, com a clara intenção de minar e constranger quem lhes opõe. Uma das qualidades do partido foi atrair filiados com alta qualificação cívica e intelectual. Deveriam se aproveitar disso, mas não sabem. Pelas regras estatutárias atuais é quase impossível mudar o comando político hoje instalado.

OC: Mas no início do partido, os filiados pareciam concordar com essa concentração de poder no comando do Novo. O que aconteceu para repararem, no meio do caminho, que isso é ruim?

RN:
Vejo como importantíssimo o cuidado em preservar os valores e princípios do Novo, ainda que para isso em algum momento se possa parecer contraditório. No início parecia razoável a preocupação em concentração do poder, pois ninguém sabia o que se sucederia. O problema é que passaram a acreditar e a vender a ideia de que o seu poder de análise é à prova de falhas. A História nos dá vários exemplos desse tipo de convicção que acabam mal.

OC: Não é contraditório que um excesso de controle termine em descontrole?

RN:
A liberdade envolve riscos e demanda uma percepção de um tipo de "descontrole". O princípio mais fundamental do Novo é a "liberdade com responsabilidade", mas na prática esta premissa tem sido preterida em nome de uma "segurança" institucional que sugere haver nas entranhas interesses na permanência de um core central, antipatizado dentro e fora do partido e sem capacidade de caminhar no mesmo ritmo dos fatos como eles se apresentam. O diretório nacional pratica internamente o oposto do que prega para o Brasil. As pessoas que estão lá provavelmente são cidadãos cheios de boas intenções e garra para fazer o melhor pelo partido e pelo país, mas suas atitudes são centralizadoras e antiliberais. Da mesma forma como Brasília jamais será o melhor local para tomada das decisões sobre o que ocorre em Pelotas, o DN jamais será capaz de abraçar todas as particularidades dos DEs e dos DMs. Impossível.

OC: Você acredita que os diretórios do Novo fazem uma "panela" na escolha de candidatos?

RN:
O processo seletivo é uma discussão que precisa ser muito aprofundada internamente, em especial a dos cargos majoritários. Quando um candidato lhes interessa, a partir de regras pouco claras à maioria, tratam-no a pão de ló. É o famoso "beija-mão", que jamais deveria existir num partido que pretende carregar a bandeira liberal neste país continental. Mas, se o candidato, embora potencialmente bom, não lhes parece inclinado a manifestar irrestrita subserviência, ganha um drible de corpo e, muitas vezes, a frase da excelência antidemocrática: “se não está satisfeito, vá-se embora...”.

OC: Você teria algum exemplo para esse tipo de situação ficar mais clara para os nossos leitores?

RN:
O cacoete antidemocrático do comando geral vem se espalhando como um desagradável problema cultural do partido. Vou mencionar dois exemplos recentes ocorridos no grupo de Whatsapp chamado “Novo Pragmático”, onde sou administrador:

Um comandante de núcleo, incomodado com as críticas ao Novo de outro participante, lhe diz: “Fulano, se não gosta do Novo, recomendo sair do grupo”. Respondi-lhe que ali era um espaço democrático criado por mim e que ali ninguém iria convidar alguém a se retirar apenas por discordar.
Em outra oportunidade, um participante de São Paulo, estreitamente envolvido com o Diretório Nacional, após discussão com outro participante publicou: “Fica à vontade para me excluir aí". Novamente, respondi que ali era um espaço democrático e que ninguém seria expulso apenas por discordar de alguém, desde que mantido o respeito.

OC: É esse tipo de situação que atrapalha as demais candidaturas do partido, como as de deputado?

RN:
Quando assimilamos a ideia de que o atual comando faz o partido parecer um centralizador movimento social fica também mais fácil demonstrar que as posições que tentaram minar a iniciativa do Lyra, primeiro candidato eleito pelo Rio, em sua pretensão a federal, são quase as de funcionamento de um burocrático clube de leitura. Quem deveria julgar o que o Lyra pretendia fazer eram os naturais processos da liberdade e da democracia, ou seja, ele mesmo e os que o apoiaram.

Vale uma pequena nota de que para mim ainda não está claro como nasceu a iniciativa do Leandro. Não acredito que se lançasse sozinho em tamanha empreitada sem antes conversar com os diretórios estadual e nacional. Porém o fato é que, com o pouco tempo de campanha que lhe sobrou depois do imbróglio, conquistou ainda mais votos do que para vereador.

OC: Na sua opinião, o Novo precisa rever regras de candidaturas para evitar outros casos como o do Leandro Lyra, no RJ?
 
RN: O atual comando do Novo não me parece nada atento às complexas motivações dos que se lançam candidatos. São pessoas comuns, não políticas, que normalmente pedem licença de seus empregos para se candidatar, sob um risco enorme de não serem eleitos e de não voltarem às posições que detinham antes.

No caso de um vereador eleito, por exemplo, se quiser vir a deputado pelas regras do partido precisa ficar dois anos parado para poder sincronizar-se com um novo período eleitoral. Ora, para um candidato honesto e jovem, sem muitas economias, quem tem condições de aguardar todo esse intervalo a não ser retornando ao mercado de trabalho regular?

OC: E isso também deve valer para os cargos de liderança dentro do partido?
 
RN: Se não queremos apenas parecer um movimento social temos que nos preparar desde já para quando o partido tiver muitas dezenas de eleitos nas esferas municipais, estaduais e federais. Precisamos pensar em como conquistar cada vez mais candidatos e eleitores e em sua dinâmica de intervalos temporais. E também em modelos de renovação dos principais cargos internos do partido. Quanto tempo um líder de diretório, municipal, estadual ou nacional, pode manter-se nessa posição? Tudo isso pode se resolver com descentralização, democracia e liberdade. Com eleições diretas dos filiados.

OC: O Novo deveria optar por seguir uma linha (mais conservadora ou mais progressista) para criar uma identidade e, assim, atrair mais eleitores?

RN:
Penso ser um típico conservador. Sou casado há 34 anos, tenho dois filhos e três netinhos, e professo valores tradicionais na vida pessoal e no meu blogue. Por respeitar o espírito da liberdade e da democracia tenho dificuldade em recriminar o comportamento de outras pessoas. Do que tenho observado, o Novo professa algo na mesma linha. Alguns temas mais cabeludos ficam por conta do candidato.

Em uma reunião aberta de 2014 argumentei que o Novo iria crescer porque era honesto em seus propósitos, o que obviamente causou estranheza na ocasião. Talvez seja esse o principal pilar do Novo, mesmo diante das confusões que observamos. Recentemente li uma análise política das razões pelas quais eleitores mineiros do PSDB e do PT teriam votado no Zema. Achei engraçado que o experiente autor não enfatizou tanto o básico - a imagem de boa-fé que o Zema passa (além de potencial competência).

Logo, preservar a imagem da honestidade de propósitos, associando-a à habilidade técnica e à competência política sejam o conjunto mais poderoso de identidade que o Novo pode criar. É por querer ver esse conjunto de habilidades no partido que continuo por aqui.

OC: Então você é a favor do Novo ter várias correntes internas, como acontece no Partido Republicano, dos Estados Unidos?

RN:
Em nossa cultura partidária no Brasil tendemos a associar legitimidade com homogeneidade absoluta de agendas. Penso de forma oposta, acredito que o Novo deva e possa ser desde o partido dos progressistas com viés liberal de mercado até a casa dos conservadores mais ortodoxos, assim como ocorre nos partidos norte-americanos. É muito importante que o partido tenha vida e debates no seu interior, que as correntes se formem, se vejam representadas e disputem entre si de forma democrática primárias e tudo o mais. Em minha visão o partido precisa ser inclusivo, descentralizar-se e assimilar a pluralidade de ideias, aglutinando grupos não partidários, permitindo em seu estatuto a possibilidade de representação de correntes distintas e as vezes até antagônicas dentro do partido. Foi assim que a maior e mais livre democracia do mundo se tornou o que é, admitindo no mesmo palco de debates os republicanos Ted Cruz e Ron Paul, por exemplo.

OC: Mas o Partido Republicano é reconhecidamente mais conservador. Na sua opinião, o Novo deve abraçar mais o conservadorismo ou o progressismo?

RN:
O conservadorismo, naturalmente. Reforço apenas que não considero um aspecto suficiente por si para a conquista das multidões ad eternum, pois são temas que requerem profundidade ideológica do eleitor, coisa que não se dá muita atenção no cotidiano. Penso que o povo quer prioritariamente ser atendido em temas concretos e objetivos, como segurança, saúde, emprego, teto, comida na mesa e filhos bem educados na escola, sob um governo que não lhes roube. Qualquer evento que não perturbe essa equação tende a se restringir a conversas entre vizinhas na calçada de uma tarde ensolarada. Ou, modernamente, no grupo da família no whatsapp.

No entanto, a clara inclinação ideológica liberal que orbita o Novo tende a cobrar posições o tempo todo. Como dito na resposta anterior, não acho que um partido político que tem a ambição do liberalismo deva "abraçar" essa ou aquela corrente em detrimento de todas as outras. Como mais um exemplo da democracia americana, o "tea party" conservador está no mesmo partido do mais relevante representante político do libertarianismo.

O que precisa ser revisado no Novo é a centralização das decisões, para que não apenas esta ou aquela corrente esteja representada e dominante. O partido precisa se descentralizar, abrir a concorrência interna, valorizar o mérito de formação de quadros, captação de filiados e narrativa política. Acredito que hoje é clara a queixa dos conservadores dentro do Novo que não se sentem representados por muitos dos seus dirigentes e ao mesmo tempo não têm liberdade para produzir seus próprios líderes e representantes dentro da sigla.

OC: No segundo turno, houve uma união de todos os brasileiros e movimentos que foram a favor do impeachment de Dilma Rousseff em apoio a Jair Bolsonaro. A única exceção foi justamente o Partido Novo. Na sua opinião, as consequências dessa escolha serão positivas ou negativas?

RN:
A primeira consequência é a lembrança da posição do comando do partido que, como já me manifestei, foi covarde e hesitante diante dos riscos da volta do PT. Este se mostrou o maior dos erros do atual comando do Novo: negar a política, por já estar fora da disputa, não se posicionando de forma firme e objetiva. A política bem praticada, ética e valente infere riscos, coragem e convicções atemporais. Nada é mais equivocado na boa política do que excluir-se das discussões, nada é mais condenável do que se afastar das "brigas" e dos posicionamentos históricos. Marina Silva está aí para nos ensinar o que não fazer.

Haddad estava numa perigosa curva ascendente, o que tornava um dever de natureza cívica professar voto no B17 ou, pelo menos, no seu plano de governo. Assim como o Amoedo invoca frases e posições do século XX do Bolsonaro, o futuro reserva a ele e aos comandantes desse período do Novo o mesmo destino: o registro eterno de que não ajudaram o país em um momento crucial.

Um problema concreto é quanto aos desafios dos eleitos do partido - o governador Zema e os deputados federais -, quando precisarem pedir algo ao Jair ou aos seus correligionários. É bem provável que resolvam lhes lembrar do quanto Bolsonaro foi atacado pelo nosso candidato à presidência. Havemos de pedir grandeza e generosidade aos céus para não sermos afetados por retaliações, ainda que sutis, dessas pessoas.
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