Professor libertário: "apoio crítico" ao governo Bolsonaro para combater esquerda


O professor libertário Ubiratan Jorge Iorio, Diretor Acadêmico do Instituto Mises Brasil, portanto seguidor da Escola Austríaca de economia, publicou um artigo apelando aos demais libertários que prestem um "apoio crítico" ao governo Bolsonaro pelo fato de Paulo Guedes, o futuro ministro da Economia, ser também um liberal, embora seja Ph.D. na Universidade de Chicago, considerada inferior pelos austríacos por ser "monetarista".

Confira o texto publicado originalmente no site "Mises Brasil":

Por Ubiratan Jorge Iorio

"Pela primeira vez em décadas — muitas e muitas delas! —, a área econômica de um governo no Brasil ficará sob a responsabilidade de um economista verdadeiramente liberal: Paulo Roberto Nunes Guedes, conhecido como um dos mais radicais monetaristas de carteirinha.

Graduado em Economia na Universidade Federal de Minas Gerais, de onde saiu, obviamente, como um keynesiano, Guedes fez o mestrado na Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro, então sob a tutela de seu fundador Mario Henrique Simonsen, e lá solidificou seu conhecimento técnico.

Embarcou depois para os Estados Unidos e obteve o grau de Ph.D. na Universidade de Chicago, em um tempo em que o Departamento de Economia daquela instituição fervilhava de economistas do porte de George Stigler, Arnold Harberger, Harry Johnson, Gary Becker, Robert Lucas Jr. e Milton Friedman.

Ao regressar ao Brasil, era um monetarista com sólido equipamento teórico e forte influência desses professores, porém já estava também na fronteira da chamada revolução das expectativas racionais (conceito formulado pela primeira vez por John Muth em 1961) ou economia dos novos clássicos, desencadeada no início dos anos 1970 e que se popularizou após a publicação de artigo assinado por Robert Lucas e Leonard Rapping, em 1969, sobre salário real, emprego e inflação[1], ao qual se seguiram diversos trabalhos de, entre outros, Robert Barro, Finn Kydland, Edward Prescott, Thomas Sargent e Neil Wallace.

Não só por esse currículo, mas também por ter convivido com ele durante anos, tenho certeza de que sabe que a saída para o Brasil não é o Galeão, nem Guarulhos e muito menos a social-democracia que vem destruindo nosso país desde a chamada redemocratização, mas a economia de mercado, enfeixada em instituições que garantam os direitos fundamentais à vida, às liberdades individuais e à propriedade, respeitem as escolhas de todos os cidadãos, os tratem como adultos conscientes e não como criancinhas dependentes de babás, coloquem o estado voltado para servi-los e compreendam que pessoas não podem ser consideradas meras engrenagens da sociedade, semelhantes às dos relógios.

Adicionalmente, o novo ministro conhece e admira Mises, Hayek, Rothbard e a Escola Austríaca, mas difere de nós porque, sendo um Chicago boy padrão, não enxerga a metodologia da Escola Austríaca como uma teoria econômica rival, mas como tema a ser tratado em disciplinas de Ciências Sociais.

O apoio não é incondicional

O momento importantíssimo por que passa o Brasil, em que chega um novo governo com grande apoio popular e com um programa econômico liberal (ao menos na plataforma), não é apropriado para acentuar divergências, mas sim reforçar convergências entre a Viena de 1900 do início da década de 30 e a Escola de Chicago dos anos 60 e 70.

E é evidente que ambas confluem no que efetivamente importa fora do mundo acadêmico, que é a vida dos 210 milhões de habitantes do Brasil.

Em outras palavras, o que devemos levar em conta nestes tempos promissores para o movimento liberal não é a economics, a teoria da economia, mas a economy, a economia do dia a dia das pessoas. Como ambas as escolas teóricas levam a programas de governo que em muitos aspectos se assemelham, não há motivo para nós, os austríacos, fazermos birra e não apoiarmos os pontos positivos da política econômica anunciada por Guedes apenas porque ele é monetarista. Como sempre ensinaram Murray Rothbard e Joseph Salerno, temos de ser oportunistas.

Poderão arguir alguns leitores, talvez: "Mas como? O professor Iorio, um economista da Escola Austríaca e que há bastante tempo vem se empenhando para divulgá-la, tendo, inclusive, por isso, sacrificado várias oportunidades profissionais em que seria mais bem remunerado, está defendendo o programa de um Chicago boy"?

Minha resposta é: sim, estou e com muita alegria e esperança. Vou resumir por quê, enfatizando: (a) as semelhanças na prática e (b) a necessidade do pragmatismo.

Esse apoio é dever patriótico, pois se trata de um programa de fato liberal, mas é evidente que não é incondicional. Não é questão de se bater palmas para tudo o que for feito na área econômica, mas de aplaudir quando for feito o que julgarmos bom e criticarmos caso o programa venha a afastar-se, por qualquer motivo, da agenda liberal. Desaprová-lo a priori, sem que nada ainda tenha sido implantado, seria uma vaidade fútil; seria juntar-se à oposição e, sem dúvida, contribuir para a recomposição da social-democracia, que é justamente a visão de mundo que temos que combater.

(a) Reforçando convergências e esquecendo (ou adiando) as divergências

No que diz respeito às recomendações de política econômica, são muitas as semelhanças entre os austríacos e os monetaristas. Vou citar apenas algumas.[2]

Austríacos e monetaristas concordam que:

* A propriedade privada é uma das bases do progresso, assim como o livre comércio, a mobilidade de trabalho e capital, e a globalização;

* É preciso haver harmonia entre economia de mercado, liberdade e ordem social;

* É preciso privatizar, desestatizar, desregulamentar e desburocratizar;

* Há que se respeitar o princípio da subsidiariedade e o federalismo (descentralização política, econômica e administrativa), que são muito superiores à centralização (mais Brasil e menos Brasília, mais Mises e menos Keynes);

* As desigualdades naturais são inevitáveis;

* As soluções de mercado para educação e saúde são superiores às "soluções" do estado;

* A inflação é um fenômeno monetário;

* As teorias da exploração marxista e do intervencionismo keynesiano são completamente equivocadas, bem como o patrimonialismo, o corporativismo, o welfare state, o nanny state, a concessão de todo e qualquer privilégio, o rent seeking e o privilege seeking;

* Déficits públicos, endividamento do estado e tributação progressiva são males e são desnecessários;

* O planejamento central socialista e o totalitarismo são inaceitáveis;

* Quaisquer controles de preços, seja de bens e serviços, seja da taxa de câmbio, salários, lucros, aluguéis e de toda a legislação sobre o salário mínimo desorganizam a economia e trancam o progresso.

Há outros elementos comuns às duas escolas, mas o importante é frisar, como fez o Prof. Israel M. Kirzner, o mais proeminente economista vivo que segue a tradição de Carl Menger[3]:

É importante não exagerar as diferenças entre as duas correntes. [...] Existe uma quase surpreendente coincidência entre suas visões sobre muitas questões importantes de política econômica. ... mas ambas possuem basicamente o mesmo entendimento correto de como funciona um mercado, e isso é responsável pelo saudável respeito que as duas abordagens dividem em comum por suas realizações.

Como se sabe, há divergências entre austríacos e monetaristas, porém praticamente todas são de caráter teórico e, portanto, de pouca relevância para a situação que o Brasil vive hoje.[4]

(b) Nas condições atuais, pragmatismo é sinônimo de prudência e sabedoria

Como já escrevi no início, o Brasil está na linha de largada de uma nova era, depois de muitos anos de estagnação provocada pela mesmice esquerdista da social-democracia, em um verdadeiro minueto dançado nos salões da velha política por um refinado PSDB e um tosco PT, apoiados na orquestra mercenária do atual MDB.

A boa nova é que o lulopetismo perdeu, o PSDB desmilinguiu-se, o MDB levou um direto no queixo e venceu o candidato que nos surpreendeu com uma proposta realmente liberal para a economia, reformadora na política e conservadora — como é quase toda a população brasileira — em termos morais e de costumes. É tempo de coisas novas na economia, na política e nos valores morais.

O que é importante é que estamos diante da possibilidade efetiva de nos libertamos da semiescravidão que o ancien regime nos impôs. Ora, esse é um objetivo preconizado por economistas como Friedman e Hayek, Gary Becker e Mises, George Stigler e o próprio Rothbard — todos, aliás, membros da Mont Pelerin Society.

(Esse é também meu recado — que espero seja bastante claro — para certos radicais de Facebook, muitos deles leftlibs (alguns ainda imberbes) que nunca escreveram mais do que "textões" nas redes sociais e youtubers em busca de seguidores e cliques em seus sininhos, defendendo valores que os identificam com várias pautas da esquerda, principalmente no que se refere aos valores morais.)

Ademais, no nosso atual contexto, que importância tem, em termos pragmáticos e considerando a enorme crise e a possibilidade de sairmos dela, por exemplo, se o melhor método para estudar a economia é a Praxiologia de Mises ou o Positivismo de Friedman, ou se imposto é ou não roubo, ou se o processo de mercado austríaco é superior ou não à análise neoclássica de equilíbrio? Por ora, praticamente nenhuma. Não vamos enfraquecer nossas forças com divisões teóricas.

No futuro, depois que a casa do mundo real estiver razoavelmente arrumada, aí sim, podemos convidar os monetaristas para uma sala e brigar com eles, tendo uma lousa e carteiras como cenário.

Conclusão

Apenas para deixar bem claro: devemos, inflexivelmente, manter uma postura de radical intransigência em relação a qualquer eventual recaída intervencionista — como, por exemplo, atacar sem piedade qualquer ideia da volta da CPMF, de aumentos de impostos, de criação de IVA e de restrições ao livre comércio com a China. Qualquer erro deste tipo deverá ser impiedosamente criticado. Mas não vejo sentido, por ora, em já sair fazendo oposição estridente apenas porque não há "austríacos-raiz" na equipe econômica, ou porque o ministro é de Chicago, ou porque o corte de gastos não será como o desejado, ou porque nem todas as agências reguladoras serão abolidas, ou porque a Receita Federal não será fechada.

A primeira vitória — afastar os radicais keynesianos do poder — foi conseguida. Vamos agora nos concentrar na segunda vitória: aumentar as liberdades econômicas.

Para encerrar, e em uma nota mais leve, esta é a primeira vez, desde que me entendo como analista econômico (lá no início dos anos 1980), que talvez terei algo de bom a falar de um governo. Isso não tem preço e preciso ver como se faz".
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