Quatro visões sobre o conservadorismo: Nisbet, Scruton, Oakeshott e Kirk


Por Guilherme Cintra

Abaixo descreverei quatro visões sobre o conservadorismo, cada um de um grande pensador conservador. Todas essas visões se diferem entre si, embora possa haver, e frequentemente há, semelhanças entre elas. Entendendo-as, faz-se um bom mapeamento da filosofia conservadora, e pode-se entender a variedade de pensamento sob o rótulo ‘conservador’. Todas essas quatro visões têm como uma de suas principais bases o pensamento do filósofo irlandês Edmund Burke.

Robert Nisbet: Esse sociólogo americano e um dos pais do conservadorismo americano no pós-guerra desenvolveu sua concepção de conservadorismo principalmente em seu pequeno livro Conservatism: Dream and Reality, traduzido para o português apenas como O Conservadorismo. Para ele, o conservadorismo é basicamente a busca de resgatar as instituições da Idade Média. Segundo Nisbet, o objetivo primordial do conservador é buscar restaurar o poder das instituições intermediárias e sua grande autonomia perante o poder central, que existia naquela época. Exemplos dessas instituições são a Igreja, a família, as associações e as comunidades locais. A Idade Média, segundo ele, era um passo a mais em relação à sociedade primitiva, pois naquela época existia o princípio militarista, a saber, havia um Estado, uma organização política com certo grau de centralização nas mãos de reis e nobres, que cuidavam da defesa e da justiça. Porém, ela mantinha grandes traços da sociedade tribal, como a forte presença de laços de parentesco, de reconhecimento de organizações locais, instituições tradicionais e patriarcais. É essa tensão entre o princípio militarista e o princípio tribal, como existia na Idade Média, que o conservador deve buscar manter.

Roger Scruton: Este pensador desenvolve de forma mais sistemática sua visão de conservadorismo em The Meaning of Conservatism, traduzido para o português como O que é Conservadorismo?. O primeiro princípio do conservadorismo de Scruton pode ser descrito como “a ordem é a primeira necessidade”. Primeiro é necessário uma ordem na sociedade, uma autoridade a ser reconhecida independente da vontade individual das pessoas que a compõem. Para que a sociedade não se desintegre, deve haver um arranjo de direitos e deveres tomado como ‘dado’ por todos os indivíduos, tal como a família. Para que o arranjo social mantenha esse elemento essencial, é necessário que os indivíduos mantenham um alto grau de respeito por ele. A forma de atingir isso são várias, como: o respeito desse poder e da comunidade pelos símbolos culturais e patrióticos, pelas tradições e instituições locais, por algo sacro, como uma Igreja oficial, e um senso de continuidade O conservador busca tudo isso com o objetivo de manter a ordem social, evitando grandes revoluções ou rupturas desintegrativas.

Michael Oakeshott: Esse pensador britânico expôs sua visão de conservadorismo de forma mais sintetizada em seu ensaio On Being a Conservative, traduzido em português como Ser conservador. O conservadorismo de Oakeshott, ao menos de forma superficial, parece simples. Basicamente, segundo o próprio, “Trata-se de uma propensão a usar e desfrutar o que se encontra disponível em vez de desejar ou procurar algo mais; a deliciar-se com aquilo que se encontra no presente, não com aquilo que foi ou com aquilo que pode ser. (…) Trata-se de preferir o tentado ao inédito, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, as risadas do presente à felicidade utópica.” Isso que Oakeshott chama de ‘disposição conservadora’, ele diz ser algo presente na natureza de todo ser humano. Como conclusão a isso, Oakeshott é fortemente contra revoluções e rupturas bruscas na estrutura política; a favor da continuidade e estabilidade, e, também, contra esquemas políticos utópicos e de centralização excessiva. A posição desse pensador pode ser resumida como: ‘Deixe-me em paz’. Por isso ele tende a favorecer um Estado estritamente limitado e pequeno, estável e com um senso de continuidade.

Russell Kirk: A visão de conservadorismo desse pensador americano é mais complexa. Ela é melhor exposta em seu ensaio Dez Princípios Conservadores, mas também foi exposta como seis princípios em seu The Conservative Mind. Talvez seu maior diferenciador dos autores acima é que, para Kirk, o primeiro princípio conservador é o reconhecimento de um corpo de leis naturais que rege a sociedade, bem como a consciência. Essas leis possuem fontes transcendentes, e devem ser critérios para julgar as ações do governo. Isso significa que sempre que o governo fazer algo devemos nos perguntar se esse algo está alinhado com os propósitos naturais do homem e da sociedade, tais como expostos, por exemplo, na doutrina de São Tomás de Aquino. Além disso, Kirk reconhece como outros princípios conservadores o senso de continuidade e a prescrição; a necessidade de ordem e classes em toda sociedade, para ela se manter; a importância da instituição da propriedade; o repúdio ao coletivismo uniformizador e uma simpatia pela variedade de tradições e modos de viver de pequenas comunidades; e por último, a prudência como o maior princípio político, para reformas ou restaurações.
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