Conservadores pressionam Theresa May para agir como uma verdadeira líder

Arte: Fellipe Villas Bôas

Por João Corrêa Neves Jr.

Em junho de 2016, a maioria da população britânica optou pela saída do Reino Unido da União Europeia em um referendo (1) colocado para o voto popular pelo então primeiro ministro David Cameron, cumprindo uma promessa de campanha sobre um tema com anseio popular.

Entres os diversos fatores que levaram a este voto, estava a submissão a burocratas que legislam desde Bruxelas, o custo-benefício do acordo para o UK, e, principalmente, a imigração. O fluxo de imigrantes para o Reino Unido contra os britânicos migrando desde o Reino Unido, vinha na casa do 300 mil de déficit anual em desfavor do UK.

Além disso, os custos para o Welfare State – políticas sociais públicas – para com imigrantes e questões da segurança diante de atentados terroristas tiveram papel primordial na decisão dos cidadãos britânicos. David Cameron, que fez campanha pela permanência na União Europeia, deixou o cargo após a derrota nas urnas, posto este assumido por Theresa May.

A nova primeira ministra se comprometeu a levar adiante o voto expresso nas urnas e acionou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que deu início ao processo de saída do Reino Unido, agendado para março de 2019. Com alguma popularidade nos primeiros meses de mandato, no entanto, sabedora da fragilidade de seu governo, Theresa May decidiu convocar eleições – no sistema parlamentar, essas eleições fora de hora são normais – tentando aumentar sua maioria no parlamento bem como dar legitimidade ao seu governo, já que seu cargo fora herdado.

Uma péssima campanha do Partido Conservador e uma campanha falaciosa de Labour, do Partido dos Trabalhadores, que só não ofereceu grátis para os jovens a própria alma por que essa já fora vendida para o capitoro (2), levou o governo de May a perder a maioria no parlamento, precisando buscar apoio no DUP – Partido Unionista da Irlanda do Norte – para conseguir formar um governo de coalizão (3).

Desde então, a popularidade de May caiu e a pressão dos opositores, da mídia e de seu próprio partido aumentou, dividindo seu governo. De um lado, aqueles que defendiam o rompimento completo com a União Europeia. De outro, grupos que buscavam realizar um acordo brando, que rompesse com a UE, mas mantivesse laços comerciais e uma proximidade jurídica.

Havia ainda, grupos de lobby que vinham fazendo campanhas para que o resultado do referendo fosse, de fato, revertido, quer por meio do parlamento quer por meio de um novo referendo. Acuada, May elaborou uma negociação fajuta que não atendia nem um nem outro, e muito menos o voto popular.

Com o acordo, a União Europeia passava o trator por cima do Reino Unido na negociação, aplicando uma multa rescisória de 40 bilhões de libras para o divórcio e continuava com um pé no Reino Unido por conta da questão da fronteira entre Irlanda - parte da UE - e Irlanda no Norte – parte do Reino Unido. Como ambas Irlandas não admitem uma fronteira física entre ambos para evitar ressuscitar os fantasmas do passado, nenhuma solução plausível pode ser oferecida. Resultado: massacre no parlamento e derrota do Brexit Artificial de May.

Consequências: a derrota do Brexit de May pode trazer sérias consequências. Politicamente, a oposição tentará forçar novas eleições com um voto de 'no-confidence' em May, um oportunismo que busca levar o Socialista Jeremy Corbyn ao poder a qualquer custo. Os vários grupos de interesse tentarão todo tipo de jogada, muitas das quais objetivando “melar” o Brexit de vez, quer pela rejeição do voto popular, quer por meio de um novo referendo, algo que essencialmente significaria o fim do voto democrático no Reino Unido.

“Sua voz não será ouvida, seu voto não conta. Ou você vota como queremos, ou repetiremos o processo até chegar ao nosso desejo”. 

Há, ainda, a opção do 'no-deal', que basicamente seria o Reino Unido romper com a União Europeia, sem nenhum acordo, passando a operar como qualquer outro país, por meio das regras da World Trade Organization (WTO), o que para muitos seria a opção preferível. Nenhum dos desfechos, no entanto, conseguirá resolver o problema.

Por isso, eu escrevia, ainda em 2016, “marquem esta data”, pois o mundo jamais será o mesmo depois do voto popular que nos trouxe a este paradoxo. A voz do establishment não é necessariamente a voz do povo. Como previsto, Trump e Bolsonaro, vieram confirmar esta tese.

Ou escuta-se as vozes dos cidadãos ou força-se sobre eles aquilo que o Estado e seus grupos aliados afirmam ser o melhor para as pessoas? O fato de os países não saberem como lidar com esta situação, releva o estado deprimente das nossas democracias.

Fontes:

- BBC
- Do próprio colunista
- Do próprio colunista


*João Corrêa Neves Jr. é defensor da liberdade e do “rule of law”. É conservador iluminista, influenciado pelo liberalismo clássico e, em menor escala, pelo libertarianismo. Reside no Reino Unido, atua na área administrativa no mercado formal e é mestrando na área de História pela Universidade Nova de Lisboa.
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