Governo Bolsonaro dá início a expansão conservadora no Brasil

Arte: Fellipe Villas Bôas

Por Wilson Oliveira

É motivo de imenso orgulho ver a chegada de um conservador ao poder no Brasil. Não é apenas por finalmente desfrutar da derrocada do projeto progressista endossado em maior ou menor grau pelos mais variados atores políticos brasileiros. Mas por testemunhar um ciclo pessoal tomando forma e me deixando cada vez mais significativamente convicto da ter seguido o correto caminho de abandonar a esquerda para me tornar um liberal clássico e, posteriormente, ter conhecido o conservadorismo (sem os terríveis preconceitos vomitados frequentemente por algum esquerdista na esquina).

Não era fácil, entre os anos de 1998 e 2001, como criança, contra-argumentar professores sindicalizados até a alma e fanáticos pelo PT até a trigésima encarnação. Naquele tempo a internet ainda engatinhava no Brasil e não tínhamos nem 1% do engajamento político entre os jovens como temos de 2013 para cá. Era um simples motivo de diversão comprar aquela narrativa tresloucada, principalmente se o professor fosse uma espécie de referência e respeito para os seus alunos. Quando se é criança, é possível respeitar as coisas mais menosprezáveis.

Ainda que na 7ª e 8ª série, ao menos naquela época, não fosse o momento da pessoa formar seu alinhamento político, sem dúvida alguma a influência que os professores exerciam era determinante para tal. No ensino médio isso era lapidado com "mestres" tão ou mais morbidamente esquerdistas e obscenamente doutrinadores. Na faculdade cada um se sentia pronto para ser um deputado do PT ou do PSOL que "falaria verdades" na cara dos tucanos, que para aquela virgindade intelectual representavam o que havia de mais perverso no lado direito do espectro político.

Posso dizer que graças ao meu bom Deus tive a sorte primeiro de desistir rapidamente de entrar na faculdade pública e me matricular em uma particular. O motivo foi insólito: fugir das greves dos professores, o que me faria ter que frequentar aulas nos meses de dezembro e janeiro (período de calor no Rio de Janeiro nível inconveniência master). A segunda e maior sorte foi que nem todos os meus professores eram exatamente uma caricatura de Che Guevara. Um deles em especial, o Marcio Gonçalves, que me deu aula de "comunicação e novas tecnologias", me inspirou a pesquisar sobre empreendedorismo.

Essa fuga do trivial foi praticamente um experimento científico-intelectual na minha existência. Foi possível descobrir que existia vida além das barreiras do socialismo e da social-democracia. Mais do que isso: uma vida mais decente e mais fértil. Logo de cara conheci o Instituo Millenium, cujo um dos fundadores é ninguém menos que Paulo Guedes, agora ministro da Economia. Logo depois passei a ter contatos também com o Instituto Mises Brasil. Explorando o labirinto virtual do conhecimento, baixei o PDF do livro "A Riqueza das Nações", de Adam Smith. Foi graças ao pai do Liberalismo Clássico que conheci outro pai, o do Conservadorismo Moderno, Edmund Burke.

Estou satisfeito que as ideias da dor são muito mais poderosas do que aquelas que entram por parte do prazer. Sem dúvida, os tormentos que sofremos são muito maiores em seus efeitos sobre o corpo e a mente do que qualquer prazer que o mais instruído voluptuoso pudesse sugerir, ou mais do que a imaginação mais viva e o corpo mais sensato e primorosamente sensível poderia desfrutar.
Edmund Burke

Olavo de Carvalho e a luta contra o progressismo

Na minha fase liberal clássica, que durou exatos quatro anos da minha vida, fiz o máximo de esforço para me manter afastado de Olavo de Carvalho. Achava-o louco e conspiratório. Ao passo que ficava cada vez mais simpatizado com os escritos de Burke e John Locke, e logo depois de Roger Scruton, Russel Kirk, Alexis de Tocqueville, Richard Weaver e William F. Buckley Jr, acreditava que Olavo era alguém que eu deveria manter distância. Fui obtuso, confesso. Ora, como mergulhar no conservadorismo e ao mesmo tempo negar um dos maiores nomes conservadores do seu país e que ainda está vivo?


Olavo não é apenas um filósofo que tem o mesmo idioma que o meu como língua materna. Ele é alguém que já caminha há longos anos uma complexa estrada de combate ao progressismo. Para isso, é nele que temos a grande referência quando se fala em desbravar os encantos enganosos das narrativas podres e falsas da geleia progressista que lobotomiza o indivíduo de modo a torná-lo um escravo da neutralidade covarde. É muito fácil ser um conservador que se restringe a ler autores estrangeiros. Isso livra o sujeito de ter que se atormentar de modo mais profundo com aquilo que o cerca. Não estou falando apenas da esquerda brasileira, mas de algo muito mais embaraçoso: o isentão brasileiro que é usado pela esquerda como idiota útil.

Acontece o seguinte: a cultura brasileira é contra o conhecimento. Isso é assim desde o tempo da colônia. E ninguém fez nada para mudar isso. Aí o pessoal fala: "precisamos fazer uma campanha para incentivar o gosto pela leitura". Ãhn? Mas o pessoal lê. O pessoal lê Playboy, lê o Almanaque da Mônica, lê a seção de esportes. O pessoal lê pra caralho. O movimento editorial no Brasil não está ruim. Mas só lê merda, pô! Então no Brasil criou-se um novo analfabetismo.

No Brasil é muito fácil convencer um ser intelectualmente pueril a defender ideias progressistas (ou, ainda pior: se declarar progressista!). A circunstância em que ainda nos encontramos é tão dramática que em muitos casos o sujeito não adere às pautas do esquerdismo modernizado (legalização de drogas, de aborto, privilégios concedidos a grupos sociais, intervenção estatal com desculpa ambientalista, assassinato do cristianismo, da família e da soberania nacional), mas mesmo assim se classifica como "progressista", porque ele acredita, inocentemente, que isso é apenas defender o progresso, seja qual for.

A expansão do conservadorismo na política brasileira

Na contramão do esquerdismo moderno vendido aos incautos como uma simples evolução do ser humano, temos o conservadorismo sendo transmitido como algo obtuso, atrasado e que jogará todo mundo do alto de um precipício da desumanização. É por isso que podemos considerar primordial Jair Messias Bolsonaro ter se tornado presidente do Brasil. De todas as personalidades que surgiram no País de 2013 para cá, ele é o que encarna melhor essa guinada do conservadorismo, antes a demonização em forma de filosofia política, para agora, aos poucos, começar a ser aceito pela opinião pública em geral, ainda que a maioria da sociedade brasileira seja, de fato, conservadora.

Resumidamente falando, embora seja arrogante tratar o conservadorismo de forma resumida, ser conservador é ser terminantemente contra o uso do estado para destruir as bases da sociedade, e em escala macro a civilização ocidental. É justamente desempenhar o papel de antítese daquilo pretendido pelo comunismo, ou seja, o estabelecimento de uma nova ordem social, apátrida, em que os meios de produção se transformariam em uma propriedade comum. Acontece que séculos depois, cientistas sociais marxistas descobriram, após anos de estudo na Escola de Frankfurt, que não havia como cativar toda a sociedade ocidental com ideias comunista apenas na esfera econômica.

Surgiu, então, o que pode ser chamado de marxismo moderno, mas com um nome muito mais simpático: progressismo. Muitos desses estudiosos marxistas perceberam que a teoria marxista tradicional não apontava de forma suficiente o caminho para desconstruir as sociedades capitalistas no século XX. Com uma pitada de crítica também ao socialismo da União Soviética, esses senhores nada bem intencionados apontaram para um caminho alternativo para o que chamavam de "desenvolvimento social". Para isso usaram ensaios de sociologia antipositivista, psicanálise, filosofia existencialista e outras disciplinas, sintetizando os trabalhos de pensadores como Immanuel Kant, Friedrich Hegel, Karl Marx, Sigismund Freud, Max Weber e Georg Lukács.

Desde a década de 1960, a teoria crítica da Escola de Frankfurt tem sido crescentemente adotada pelos mais variados segmentos da sociedade guiada, em um trabalho de ação comunicativa intersubjetivo de "discurso filosófico da modernidade", em que o objetivo é relativizar tudo aquilo que é visto como "padrão da sociedade". A desconstrução social comunista passou a ganhar outro estágio a medida que ideias como legalização de drogas, aborto e combate a família e ao cristianismo tornaram-se "normais" e corriqueiras, sendo reforçada com a defesa do "politicamente correto". Perceba a encruzilhada: a medida que o progressismo avança em um país, é retirado do cidadão a opção de ser contra essa corrente.

A cultura pós-moderna em que vivemos padece de um terrível literalismo. Muitas pessoas vão perdendo a capacidade de compreender o símbolo ou a metáfora, a ironia ou a piada, não conseguem transitar entre diferentes níveis de discurso, não percebem as figuras de linguagem, consequentemente não discernem o senso de humor nem decifram o pensamento sugestivo. Tornam-se incapazes do raciocínio abstrato, baseado em conceitos ou em universais: limitam-se aos particulares, à repetição tautológica de casos específicos. Acham que toda elocução é descritiva, não distinguem a função evocativa da fala. Assim, se eu fizer uma referência à história da cigarra e da formiga, amanhã algum jornal dirá que eu acredito em insetos falantes.
Ministro das Relações Exteriores. E intelectual conservador

Como brinde a esse ciclo pessoal que se anuncia para o seu momento de maior satisfação, informo que, na condição de editor-chefe, O Congressista passará a tratar de forma mais frequente e profunda as questões relatadas neste texto: como o progressismo é o suporte para os principais problemas do Brasil e do Mundo Ocidental, tanto na escala macro como micro, e como o conservadorismo - apenas o conservadorismo! - pode surgir como barreira intransponível aos avanços dessa onda desconstruidora, que no início queria apenas desfazer a sociedade capitalista, mas que com o passar dos tempos entendeu que seria preciso desfazer a sociedade como um todo, se utilizando da política para atingir a mente de todas as pessoas possíveis.



*Wilson Oliveira é defensor do retorno da monarquia parlamentar no Brasil. É conservador monarquista, com influências da tradição anglo-saxã do liberalismo clássico, do minarquismo, da Escola Austríaca e da Escola de Chicago. Reside no Rio de Janeiro, é jornalista e editor-chefe de O Congressista.
Governo Bolsonaro dá início a expansão conservadora no Brasil Governo Bolsonaro dá início a expansão conservadora no Brasil Reviewed by Wilson Oliveira on 04:27:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

Tecnologia do Blogger.