Narrativa de tentar igualar Flávio Bolsonaro aos políticos do PT vira pó

Arte: Fellipe Villas Bôas

Por Wilson Oliveira

O predicado introdutório do conservador é a prudência. Por isso todo conservador é contrário à revolução. No entendimento do conservadorismo, quando uma pessoa age baseada em algum sentimento - qualquer que seja - automaticamente ela se afasta da razão. É compreensível que todo ser humano, mesmo os conservadores, em algum momento se furtem do lado mais racional para abrir espaços para uma inclinação mais emotiva. Somos humanos e temos sentimentos, afinal. O que não é admissível é que o exercício de certas profissões - para não dizer de todas - seja feito com mero sentimento ocasional.

No Brasil de hoje, todos os "formadores de opinião" mais salientes, sem exceção visível — comentaristas de mídia, acadêmicos, políticos, figuras do show business — pensam por figuras de linguagem, sem a mínima preocupação — ou capacidade — de distinguir entre a fórmula verbal e os dados da experiência. Impõem seus estados subjetivos ao leitor ou ouvinte de maneira direta, sem uma realidade mediadora que possa servir de critério de arbitragem entre emissor e receptor da mensagem. 
Olavo de Carvalho
Filósofo

O caso do senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) nos serve de extraordinária oportunidade para percebermos o quanto precisamos nos cercar de todos os cuidados até mesmo antes de proferir um lúdico comentário hipotético. Para muitos, parecia e/ou ainda parece que o filho do presidente da república é um corrupto. Ora, se não há uma evidência empiricamente comprovada (que é diferente de uma mera possibilidade), baseado em quê temos essa impressão, que em casos mais específicos torna-se até mesmo uma conclusão, ainda que seja bastante precipitada?

Um elemento que faz toda diferença no balanço analítico das afirmações é a guerra política, em que todos estão inseridos, intencionalmente ou não. É irrelevante saber se você possui uma opinião estabelecidamente formada sobre o governo Bolsonaro, pois o que importa, de fato, é a inclinação daquelas pessoas que influenciaram a sua opinião. É assim que se começa a vencer ou a perder uma guerra política. Enquanto não houver dados empiricamente comprovados que estabeleçam uma conclusão irrefutável, será perene a existência de duas versões, uma criada por favoráveis a algo ou alguém, e outra criadas por pessoas contrárias.

Como as pessoas pressentem de algum modo que essa situação ameaça descambar para a pura e simples troca de insultos, se não de tapas ou de tiros, o remédio que improvisam por mero automatismo é apegar-se às regras de polidez como símbolo convencional e sucedâneo da racionalidade faltante, como se um sujeito declarar calma e educadamente que os gatos são vegetais fosse mais racional do que berrar indignado que são animais. O resultado é que a linguagem dos debates públicos se torna ainda mais artificiosa e pedante, facilitando o trabalho dos demagogos e manipuladores.
Olavo de Carvalho
Filósofo

Se todos estivessem única e exclusivamente concentrados na busca da verdade sobre o caso, as reações em ambos os lados seria:

- Eu votei em outro candidato, detesto os Bolsonaros, mas vou aguardar a conclusão desse caso para saber se ele roubou ou não.

- Eu votei no Flávio e no Jair Bolsonaro, fiz campanha para eles, mas quero a conclusão desse caso para saber o que realmente aconteceu.

Na direita, entre os apoiadores de Flávio e de Jair Bolsonaro, até houve inúmeras pessoas reagindo do segundo modo apresentado acima. Mas no outro lado da moeda, na esquerda, entre os detratores da família Bolsonaro, o que se viu, desde a primeira notícia sobre esse caso, foi uma reação completamente intempestiva, já colocando o senador Flávio Bolsonaro como corrupto. E o pior: a justificativa não era nenhuma evidência empiricamente comprovada, mas sim notícias baseadas em informações preliminares e, de forma mais grave, partindo para uma tentativa de padronizar práticas políticas condenáveis: "se outros fazem, é óbvio que ele também faz".

A demora do próprio Flávio Bolsonaro em vir a público esclarecer aos seus eleitores o que estava acontecendo, e o medo destes de estarem sendo enganados ou de parecerem que estavam agindo feito petistas, fez parte da direita se calar. Outra parte ficou tímida, repetindo que corrupto precisa ser preso, mas sem encontrar forças para rebater com veemência os ataques que não eram apenas endereçados a Flávio, já que ele não é um condenado como Lula, mas sim à direita como um todo: ao governo Bolsonaro, às ideias que ele representa de combate à corrupção e às pessoas que votaram e querem esse combate.

É evidente, pública e notória a existência de uma força muito grande que quer pegar todos os Bolsonaros e aqueles que estão no seu entorno e igualá-los aos políticos do PT - porque foi justamente por se diferenciar dos petistas que Jair foi eleito, acontecimento que fez muitas pessoas ficarem profundamente contrariadas, enraivecidas e impulsivas. O modo de agir destes, de forma praticamente compulsória, é:

- Eu acredito que o Bolsonaro é corrupto porque sim; ora, não é possível que os outros sejam e ele não, pois para mim ele é tudo de ruim, e se a corrupção é algo ruim, ele é corrupto.

Mas a narrativa virou pó

Como dito no início deste artigo, é até compreensível que o comportamento mais inclinado emotivamente seja encontrado nas pessoas "comuns", que lidam com o caso sem nenhum compromisso, comentando por comentar. Torna-se grave, no entanto, quando encontramos esses parâmetros emocionais na formulação discursiva de quem é jornalista e/ou que trabalha com comunicação, pois o dito profissional pode acabar sendo traído pelo curso natural dos fatos. Boa parte da imprensa contribuiu para a narrativa que tentou transformar Flávio Bolsonaro em um político típico do PT e depois se viu sem reação com a revelação do próprio em entrevistas domingo (20) à noite.

Com documentos em mãos, durante entrevista exclusiva para a Record TV, o senador eleito pelo Rio de Janeiro relatou que o pagamento de R$ 1.016.839 de um título bancário da Caixa Econômica Federal é referente a um apartamento que ele comprou na zona sul no Rio de Janeiro. De forma inédita, os telespectadores que acompanhavam o Fantástico, na TV Globo, foram pegos de surpresa com uma resposta da apresentadora Ana Paula Araújo, que transmitiu a ausência de perguntas na entrevista feita pela emissora concorrente.

O que a Ana Paula e demais jornalistas inseridos na narrativa anti-Flávio não esperavam é que logo no dia seguinte, portanto nesta segunda-feira (21) de manhã, aparecesse o comprador do imóvel, o ex-jogador de vôlei de praia Fábio Guerra, confirmando que pagou cerca de 100 mil reais em dinheiro vivo a Flávio Bolsonaro para quitar parte da compra do referido imóvel. Segundo o próprio ex-atleta, os valores foram repassados entre junho e julho de 2017, justamente o período em que o Coaf apontou os depósitos na conta do filho do presidente.

Sobre as maracutaias na ALERJ: Que tal retirar o sigilo das investigações de TODOS os deputados e assessores? São 20 casos suspeitos. Estou muito curiosa para sabe como assessores do Deputado André Ceciliano movimentaram R$ 49 milhões. Que todos dêem explicações. TODOS.
Joice Hasselmann (PSL-SP)
Jornalista e deputada federal

Mais do que um simples caso polêmico, o assunto representa uma guerra de narrativas, de versões, de crenças e de opiniões. Vejamos: o relatório divulgado pelo Coaf aponta o nome de outros 27 políticos. Embora justifique que exista uma importância maior sobre o nome de Flávio por ele ser o filho do presidente da república, causa estranheza a total omissão de outros nomes, como do deputado estadual que preside a Alerj, Andre Ceciliano (PT-RJ).

O povo carioca e o povo brasileiro têm direito a saber detalhes das movimentações da assessora do Deputado Estadual André Cecíliano, favorito na disputa à Presidência da Alerj. Gostaria de saber o que os petistas e os sites petistas têm a dizer sobre os mais de 40 milhões da assessora. Eu sei que as explicações do Deputado Flávio Bolsonaro são importantes. Eu tenho cobrado e muitos petistas também. Mas eu não vi nenhuma manifestação de petista relativamente ao Deputado do partido deles, que quer presidir a Alerj. Abaixo o sigilo de todas essas investigações!
Janaina Paschoal (PSL-SP)
Advogada e deputada estadual

O valor movimentado no gabinete do parlamentar petista é assustadoramente mais alto (R$ 49,3 milhões) do que o volume apontado na conta bancária de Flávio Bolsonaro. E nem assim houve qualquer destaque para Ceciliano, mesmo ele pertencendo a um partido com larga experiência em esquemas de corrupção, e que governou o Brasil por recentes 13 anos, e que, além disso, ainda é a maior legenda de esquerda do Brasil. No confronto de versões, independente de causa e efeito, culpa ou inocência, o Brasil viu um milhão representar maior perigo de corrupção do que 50 milhões. Mas essa narrativa virou pó...


*Wilson Oliveira é defensor do retorno da monarquia parlamentar no Brasil. É conservador monarquista, com influências da tradição anglo-saxã do liberalismo clássico, do minarquismo, da Escola Austríaca e da Escola de Chicago. Reside no Rio de Janeiro, é jornalista e editor-chefe de O Congressista.
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