Mauricio Macri: o presidente liberal que adota medidas de esquerda

Arte: Fellipe Luiz Villas Bôas

Por Marcelo Cabral

A polêmica decisão do presidente argentino social-democrata Mauricio Macri chocou muitos ingênuos e neófitos. Devo pontuar algumas observações.

Ontem, Macri decretou congelamento por seis meses de produtos essenciais ao consumo, sobretudo alimentícios, além do congelamento, também, de tarifas sobre o gás, a energia elétrica e o transporte.

Esta medida drástica é oriunda do amadorismo e da ingerência administrativa do presidente. Depois que ele liberou o câmbio e retirou subsídios para o empréstimo de 600 bilhões de dólares do FMI, consequentemente a inflação não parou de subir (chegando a quase 50%) e a desvalorização do peso argentino atingiu o seu maior nível desde 2001, quando o ex-presidente Fernando de la Rúa renunciou e fugiu de helicóptero para não ser linchado publicamente.

Tudo isso provocou o empobrecimento da população (aumentou em torno de 4%) e uma queda fulminante no consumo, no mercado interno. Até para os turistas a Argentina atual tem custos elevadíssimos. O desemprego também subiu e pequenos negócios fecharam as portas devido a aumentos consecutivos de tributos ao longo dos últimos 3 anos. "No nos alcanza para nada", me disseram em espanhol meia dúzia de argentinos da capital, Buenos Aires, e do norte do país.

Sabem por que o país está afundado? Porque simplesmente Macri manteve toda a engrenagem estatista e populista do peronismo. Não enxugou o gigantismo do Estado, não extinguiu privilégios do funcionalismo público, não projetou um pacote de prioridades, como a simplificação tributária e a flexibilização nas leis trabalhistas. Os sindicatos na Argentina são muito mais centralizados e politizados que no Brasil, e exercem grande protagonismo na interferência do setor produtivo.

A Argentina é um país estatizante, sindicalista e pouco produtivo. O cargo de chefe de Estado está além das limitações intelectuais e políticas do medíocre de Macri. Lembram-se do ano passado em que ele saiu pela tangente, agindo como Pôncio Pilatos, na polêmica da legalização do aborto pelo Congresso? Absteve-se de ter um posicionamento, perdendo, com isso, o respaldo que ainda tinha de conservadores e líderes religiosos do país. Trata-se de um cidadão acovardado, insignificante.

Os argentinos lhe deram dois votos de confiança: quando o elegeu presidente, em 2015, e quando ampliou o número de governadores e parlamentares do partido dele, Cambiemos, em 2017. Tinha tudo para conduzir uma grande gestão com criatividade e inteligência. Tinha favoritismo e popularidade para estampar a República Argentina. Ele perdeu credibilidade, moral e liderança.

Apenas um mérito lhe poderá ser atribuído: reconduzir Cristina Fernández de Kirchner à Casa Rosada nas eleições de outubro de 2019, mesmo com seus antecedentes criminosos e até pedido de prisão preventiva. Desta vez eu não tenho como repudiar "los hermanos", por ser uma ação de vingança contra a frustração que o primeiro presidente não peronista provocou no imaginário popular. Não vai se reeleger. A Argentina se encontra num beco sem saída.
Mauricio Macri: o presidente liberal que adota medidas de esquerda Mauricio Macri: o presidente liberal que adota medidas de esquerda Reviewed by Wilson Oliveira on 22:25:00 Rating: 5

Nenhum comentário:

Os comentários ofensivos e anônimos serão apagados. Daremos espaço à livre manifestação para qualquer pessoa desde que não falte com o respeito aos que pensam diferente.

Tecnologia do Blogger.