Esquerda não sabe usar palavras "direitos" e "benefícios", afirma analista político


Por Rafael Andreazza Daros (do blog Shogunidades)

Uma das coisas que mais tenho chamado a atenção nos últimos anos é para prestar atenção aos termos de um debate. Muito da mediocridade do debate público de hoje se deve ao fato de que muitas palavras são usadas de forma inadequada, de forma a marcar posição mais do que, de fato, expor uma ideia objetiva e que tenha um significado claro na realidade.

Se as palavras são a matéria-prima do pensamento, então a qualidade do que pensamos se deve muito à qualidade das palavras que são utilizadas. Se utilizamos palavras vagas ou ambíguas demais, nosso pensamento tende a se tornar também tortuoso e confuso. Intelectualmente falando, é como construir uma casa de palha esperando que ela tenha a mesma substância e robustez de uma casa de alvenaria. E a única forma de garantir que sejamos capazes de pensar claramente é definir adequadamente os termos que utilizamos. Furtar-nos desta tarefa é pedir para sermos enganados por charlatães com o dom da oratória, mesmo que não sejam capazes de expor uma única ideia coerente.

Talvez um dos melhores exemplos disso seja a forma com que a palavra "direitos" é utilizada, principalmente ao se referir a temas como a previdência.

Um sujeito que esteja fazendo uma poupança - para qualquer fim - e apenas guarde dinheiro embaixo do colchão não tem direito de reclamar quando percebe que esta poupança, quando chega a hora de usá-la, é insuficiente se comparado ao amigo que colocou em uma conta poupança gerando juros. Da mesma forma, alguém que investiu na poupança dificilmente teria direito de reclamar do fato deste dinheiro não ter rendido tanto quanto o dinheiro de outro que tenha investido em outros fundos mais rentáveis, como o mercado de ações.

Curiosamente, tal lógica parece desaparecer toda vez que se fala sobre o dinheiro do governo. Pessoas que agiriam de forma completamente lógica ao fazer um investimento parecem ser incapazes de aplicar esta mesma lógica ao dinheiro do governo - simplesmente evitando falar a palavra "investimento" e chamando-a de "direito". Fale com qualquer amigo esquerdista e veja-o falar horrores sobre o tal "regime de capitalização". Ele não saberá sequer definir ou explicar o que é, mas argumentará com toda a convicção do mundo que este regime serve apenas para garantir o lucro dos ricos e dos banqueiros, supostamente às custas dos mais pobres (como se os depositantes de um banco qualquer pudessem ser beneficiados com a falência deste, vendo suas poupanças evaporarem nas mãos de gestores que não mais serão capazes de devolver o dinheiro que os depositantes possuíam em suas contas).

Se formos pensar como investidores de fato, a previdência pode facilmente ser encarada como um investimento em você mesmo. Ou um investimento na sua velhice se preferir. Me parece que nossa educação financeira é tão fraca que, quando falamos de investimento, normalmente pensamos apenas em algo como comprar um carro ou uma casa própria. Mas mesmo neste caso, a previdência não é muito diferente. A única diferença é que a renda deste investimento é algo que será gasta aos poucos: ao invés de comprar uma casa ou um carro, ela irá sustentá-lo durante as últimas décadas de sua vida, quando a velhice não mais lhe permitir trabalhar com tanto afinco e produtividade como antes.

Se seguirmos por essa linha, não faz sequer sentido haver uma previdência pública, menos ainda compulsória. Chamar encargos como INSS e FGTS de "benefícios" serve apenas para impedir as pessoas de enxergá-los pelo que realmente são: investimentos ruins, fraudulentos e com pouca rentabilidade que o governo força o cidadão a pagar em nome de protegê-los, para fins eleitoreiros. Na prática, é como se ele lhe obrigasse a guardar o dinheiro embaixo do colchão quando você poderia financiar um apartamento e cobrar aluguel.

Não pense, tampouco, que esta será a última vez que haverá a necessidade de uma reforma. O "investimento" que o governo lhe força a fazer é fraudulento porque não há qualquer geração de riqueza, apenas pagamento de encargos, com custos cada vez crescentes e receitas cada vez menores. A maior prova disto está no fato de que você não vê absolutamente nenhuma "crise" nos fundos de investimento privado. Ainda assim, há quem insista na necessidade de uma previdência pública, supostamente para proteger justamente aquela parcela mais vulnerável da população. Chega a beirar a insanidade achar que, para cuidar dos mais pobres, é necessário um sistema que sofre de recorrentes crises - principalmente quando os mais pobres são justamente os mais afetados por estas crises.

Ainda assim, quando chega a hora de pagar, muitos ainda parecem perplexos ao perceber que o governo não mais é capaz de arcar com suas obrigações porque foram treinados a enxergá-la como algo garantido por considerá-la um "direito", sem se preocupar em saber de onde virá o dinheiro. Um investidor entende que há riscos em um investimento e ele pode perder dinheiro em algumas ocasiões. Quando algo é um "direito", a falha em prove-lo é encarado como uma injustiça, por mais previsível que seja este resultado.

Não precisamos de mais políticos cuidando dos pobres e idosos. O que precisamos é de mais educação financeira e de uma população que saiba cuidar de si mesma e administrar melhor o próprio dinheiro.
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