Bolsonaro defende a liberdade mais que os liberais brasileiros, diz analista libertário

Fellipe Villas Bôas
Por Wilson Oliveira

O libertário Ederclay Lucas Silva, dono da página "O Economista Austríaco", abriu a sua caixa de ferramentas e colocou para fora todas as suas críticas aos liberais brasileiros, incluindo João Dionisio Amoedo, dono do Partido Novo, e Kim Kataguiri, um dos maiores expoentes do Movimento Brasil Livre. Na entrevista abaixo, Ederclay se mostra contrariado com o pedido para o ministro Ricardo Salles ser expulso do Novo, com a movimentação de Kataguiri pela lei das fakes news e com certas críticas que liberais têm feito ao presidente Jair Bolsonaro, no sentido de quererem proibi-lo de exercer a liberdade de expressão. Confira!

1) Como libertário, o que dizer de um movimento que carrega "livre" no nome (MBL) apoiando um projeto de lei das fakes news, que na verdade visa instituir ainda mais a restrição à expressão das pessoas?

Para ser bem sincero, eu nunca admirei o MBL. Um movimento liberal que tem o Arthur do Val como o cara mais sensato, diz muito sobre si. Fora as lacradas dos meninos contra a esquerda putrefata que é sempre bom ver, não vejo nada positivo saindo dali.

Quando você vê esse movimento, por exemplo, apoiando leis como essa das fakes news, a gente se pergunta: qual será o próximo passo? Câmaras de gás ou Campos de Concentração stalinistas? Parece uma lei simples, mas não é. Atenta contra um direito básico, que é o da liberdade. Ou você pode falar o que quer, ou você só pode falar o que permitirem você falar. E isso se compara a qualquer ditadura, Albânia com Enver Hoxha, Romênia com Nicolae Ceausescu, Coreia do Norte com Kim Jong-il e agora com Kim Jong-um. O que todas essas ditaduras e as demais que não carecem ser citadas têm em comum, além do genocídio, democídio, fome e miséria, é o ataque direto a liberdade fundamental de expressão.

Como dizia Mises, liberdade significa que você tem o direito de errar. A ideia é simples, se você tem liberdade de falar o que pensa, invariavelmente uma hora você estará errado e isso é fruto natural da liberdade individual. Quando você passa uma lei que atenta contra esse princípio básico, o que você está dizendo na verdade é que as pessoas não têm o direito de errar. E isso não é uma simples prisão física, que isola o corpo do convívio social, é uma amarra psicológica que causa danos profundos à estrutura mais sensível da psique humana, como diria Padura.

2) Por falar em liberdade de expressão, o que você acha do pedido que fizeram pro ministro Ricardo Salles ser expulso do Novo? 

O fato é que o Salles, para ser aceito pelo Novo, deve ceder a novilíngua orwelliana. Ele precisa de um discurso elegante, regado de palavras macias e sentidos desconstrucionistas. Um ponto fora da curva, uma indisposição com o presidente Macron, - Bernanos, caso estivesse vivo, certamente chamaria o francês de le imbécile - a caricatura universalesca da elegância e eloquência misturadas com bom senso, e você não tem mais as características morais para fazer parte da quadrilha, vulgo partido. Diante de toda essa guerra de posição e poder, Amoedo estaria hoje, aos pés de Macron, pedindo desculpas por ser brasileiro e por ser incompetente o suficiente ao ponto de estar acabando com a Amazônia, mesmo isso não sendo o quadro real.

Repare pela ótica liberal. Não é uma atitude liberal querer privatizar o monitoramento do desmatamento na Amazônia? Também não é uma posição liberal dizer que a Amazônia precisa ser monetizada pois só assim veremos resultados efetivos? Ou não seria também uma posição liberal dizer que a Amazônia precisa de soluções capitalistas? Quem deu essas soluções e falou isso abertamente foi o Salles. Portanto, não preciso desenhar para mostrar de que lado está a incoerência.

3) Você acredita que os liberais estão batendo cabeça ao criticarem as falas de Bolsonaro, querendo decretar a forma e o conteúdo do presidente se expressar?

Ah, certamente. Essa, inclusive, é uma das maiores incongruências que percebo no meio liberal. Costumo dizer que "liturgia" do cargo é a nova desculpa politicamente correta para a censura descarada. Isso porque trata-se de uma pauta exclusivamente esquerdista. Gramsci dizia: “O moderno príncipe, desenvolvendo-se, subverte todo o sistema de relações intelectuais e morais, na medida em que o seu desenvolvimento significa de fato que cada ato é concebido como útil ou prejudicial, como virtuoso ou criminoso, mas só na medida em que tem como ponto de referência o próprio moderno Príncipe e serve para acentuar o seu poder, ou contrastá-lo".

4) Até pouco tempo atrás, tanto liberais como libertários defendiam que as pessoas tivessem o direito de falar o que pensam...

Uma verdade nua e crua jamais pode ser pronunciada sem antes almofadar o íntimo daqueles que poderão sentir-se ofendidos. Esqueceram-se tão depressa assim do que elegeu Bolsonaro? Não foi senão essa transmutação dos valores conservadores que emergiram de uma sociedade débil e carente, nas palavras daquele que falou e fala sem titubear verdades incomuns? Eles acham que você precisa ter um discurso pedante, untado de maneirismos linguísticos e com pitadas de desconstruicionismo, inserindo as verdades - quando essas forem convenientes- nas entrelinhas, acentuando o poder do Moderno Príncipe.

Quer algo mais intelectual orgânico que as escolas Adreazzeana e a Joelpinheirista? O primeiro é o analista que nunca acertou uma análise, mas, quer dar aula de como se faz uma boa inquirição; o segundo é o liberal que não gosta de liberdade, principalmente a liberdade mais elementar de todas: a de expressão. Repare, funciona basicamente assim: ou você fala como eles querem te obrigar a falar, ou, você é um extremista carnavalesco.

5) Por que alguns liberais tem tanto problema com o jeito de Jair Bolsonaro, na sua opinião?

O problema é que o atual presidente não foi criado pela casta intelectual, não foi forjado pelo sindicalismo, não foi lapidado pela grande mídia e nem de longe é elegante como o MBL gostaria que fosse. Eis aí o porquê os liberais enraivecidos, tal como a fúria e a moral de um leão sem juba, atacam sem sucesso o anti-frágil, paulatinamente. Evidente que não estou defendendo que não haja bom-senso aos escolher suas palavras. Até acho que Bolsonaro deveria pisar um pouco no freio em algumas circunstâncias. Mas, como todo bom Libertário, não devo nem quero criar ou sequer tentar criar amarras psíquicas, bloqueios auto-afirmativos, que são senão censuras psicológicas que só servem ao Moderno Príncipe.

6) Há muitos liberais que votaram no Bolsonaro no segundo turno, mas que se dizem arrependidos, dizendo que preferiam Amoedo ou até mesmo Alckmin. Você acha que o governo Bolsonaro está ruim sob o ponto vista liberal? Alckmin seria melhor?

Antes de responder, preciso deixar claro que tentarei analisar a questão como – diria Aristóteles – um observador cientifico, pois sequer saí de casa para votar, dado minha posição particular. Isso posto, eu ate consigo compreender a posição de alguns liberais que tinham preferência ao Amoedo antes que ao Bolsonaro. O que não há, entretanto, é a possibilidade de conceber a ideia de que Liberais prefeririam o Alckimin, abertamente antiliberal e profundamente Gramscista. O que o Alckmin propunha? Manutenção do aparelhamento estatal, supressão das liberdades individuais, aumento dos gastos públicos, políticas de inclusões sociais, cotas, a taxação de grandes fortunas, um enrijecimento maior das leis trabalhistas e tantas outras coisas, que, se fôssemos elencar todas elas, seria impossível diferenciá-lo do Maduro.

A análise sobre o Amoedo, no entanto, diferencia-se da simples inquirição analógica. Pois, embora fosse alguém que viesse de fora, não um político de carteirinha, mas alguém que, trocando em miúdos, defendia liberdades individuais tais quais o Bolsonaro defende, não era alguém que tinha/tem uma postura e um senso moral tão aguçados quando o atual presidente. Essa postura amolengada frente a um inimigo real não traria a força necessária que é preciso para provocar essa cisão entre a atual e a antiga política. Certamente, o Amoedo cederia a pressão e não passaria propostas que estão sendo, querendo os críticos ou não, passadas. Ele não teria a força de encantar esse apoio civil, que foi, não só necessário, mas imprescindível para pressionar os parlamentares. Concordando ou não com o estilo, o Bolsonaro tem, -como diria meu amigo Pablo - uma estrutura linguística guenoniana, ou seja, aquela que transmite uma sinceridade real. E isso é o que dá força ao seu discurso, seja ele correto ou não.

7) Mas há algum motivo para se arrepender do voto em Bolsonaro?

Não vejo motivos para o arrependimento, dado a posição dos próprios liberais. Temos queda nos impostos sobre bens de capitais e informáticas, temos a flexibilização para o surgimento de novos empreendimentos sem a benção do estado (MP da Liberdade), temos uma proposta para facilitar a posse e o porte de armas, a proposta de abolição de 96% das normas regulamentadores do trabalho e algumas outras facilidades que, não fosse o Bolsonaro, os liberais não conseguiriam.

8) Com relação a postura do presidente Bolsonaro no trato com o poder judiciário e legislativo, concorda quando os liberais dizem que o jeito do Bolsonaro atrapalha a aprovação de projetos, que se ele fosse mais discreto poderia conseguir aprovar mais coisas? 

Primeiro, vamos ver de quem estamos falando. O Legislativo e o Judiciário são, senão, a principal peça da engrenagem do poder estatal. Veja, basicamente tudo precisa do aval deles. Estamos falando do aval de Ivan Valente, Glauber Braga, Maria do Rosário, Zeca Dirceu, Alexandre Frota, Humberto Costa, Paulo Paim, Carla Zambelli, Kim Kataguiri, etc... Desses, que compõem o parlamento, quase todos são favoráveis a algum tipo de ditadura; a maioria absoluta é corrupta; alguns, criminosos da pior espécie. Isso, claro, sem contar as sub-facções que literalmente tomaram de assalto um país. Estamos falando de um parlamento, que em menos de 35 anos, já editou mais de cinco milhões de normas, o que, por definição, se não o coloca como um estado totalitário, deixa-o bem perto disso. Tudo que eles querem é a manutenção do estamento, salvo alguns que querem um estado menor, mas não tão diferente, nestes inclui-se até o presidente. Eles querem dinheiro, poder, ministérios, secretarias, tudo o que já vinha sendo posto.

No meio dessa história, nos aparece naturalmente uma crise socioeconômica e política que pode levar o país a cabo. Sob minha ótica, isso é uma situação muito ruim. Toda jornada estatal nos mostra que, quanto mais aguda for a crise, maior será a intervenção estatal e maior será a subversão da identidade individual das pessoas. França, Rússia, Alemanha, Cuba, Venezuela, etc... Isso posto, um dos meios para fugir dessa “espiral da destruição”, desse “caos planejado”, é o surgimento de uma figura popular que canaliza a força civil em prol de uma ruptura da atual estrutura política. Essa figura não pode ser passiva, por definição. É necessário aguçar o sentimento da massa e, através disso, forçar a cisão. O único meio de fazer isso é com discursos impactantes, inflamados e acima de tudo sinceros. Não fosse isso, estaríamos novamente sob controle de uma força muito mais opressiva, que incluiu em seu plano de governo a censura, pura e simplesmente. Os liberais não teriam a força e a liberdade que possuem hoje e certamente estaríamos preparando as malas para fugir para Guiné-Bissau. Então, antes de criticar esse tipo de postura, deveriam eles, os próprios liberais, assumirem essa posição firme.

9) Mas mesmo com todos esses fatos que você descreveu, muitas pessoas que se dizem liberais no Brasil, famosos e anônimos, têm falado que Bolsonaro e seus apoiadores precisam respeitar o Congresso, mesmo sabendo que muitos ali não prestam, porque eles foram eleitos e vivemos sob o Estado Democrático de Direito. Você diria que ao pensar assim, os liberais brasileiros estão traindo o próprio liberalismo?

Sem dúvida. Segundo toda corrente de pensamento, daquilo que chamamos de liberais, hoje em dia, antes de defender um congresso, é preciso defender os direitos individuais. A livre iniciativa, a liberdade de escolha, a liberdade de explorar ao máximo sua capacidade, e tutti quanti. O próprio Friedman disse: “Só uma crise, real ou percebida, produz mudança real.” Ou seja, ele sabia dessa real necessidade de uma ruptura para que houvesse mudanças consistentes.

Imagina o Kim tentando dizer para o Maduro: “Olha, senhor Maduro, não é bem assim que as coisas funcionam. Precisamos sentar, conversar e ponderar”. Não há, nem no campo das ideias, possibilidade de imaginar um Maduro, um Enver Hoxha, mudando dessa maneira. Portanto, sim, é uma posição antiliberal.

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