É preciso preservar a Lava Jato ao falar de Moro, alerta membro de grupo conservador


Por Wilson Oliveira

Integrante do grupo conservador "Margaret 30", o engenheiro de telecomunicações Cristiano H. Ferraz fez um alerta aos conservadores brasileiros afirmando que é preciso preservar a Lava Jato ao falar de Sergio Moro. Em carta publicada aos demais membros do M30 que O Congressista teve acesso, Cristiano fez uma série de elogios a Moro no seu trabalho de combate à corrupção, mas lembrou que o ex-ministro não é conservador e por isso não vai à origem do problema da corrupção estatal. Confira um trecho da carta:

Creio entender, agora, que Sérgio Moro vê no combate à corrupção do Estado um fim em si. Os conservadores não vemos dessa maneira: vemos como sendo, sim, centrais em nossa luta o combate à intromissão do Estado em áreas que não sejam estritamente justificáveis – e estas são a segurança pública (interna e externa), a garantia das liberdades individuais, a garantia da propriedade privada, a garantia final ao cumprimento dos contratos e o livre mercado. Por isso, acreditamos que as consequências de um gigantismo do Estado (dentre elas, a mais evidente é a corrupção) seja combatido desde a sua raiz. Isto é muito mais importantes do que o mero combate de suas consequências.

Em entrevista para O Congressista, Cristiano explicou a sua visão sobre o pedido de exoneração que Sergio Moro fez do ministério da Justiça e da Segurança Pública.

- Os liberais e conservadores não têm motivo concreto para criticar Moro, com o risco de minar sua credibilidade e anular os processos da Lava Jato. Inclusive, acho que foi a maneira mais eficaz que Moro encontrou de blindar sua isenção e suas sentenças contra uma eventual suspeição de parcialidade que poderia ser alegada pelo STF caso ele permanecesse no governo. Mostrou sua isenção através de sua saída - disse Cristiano.

Embora tenha defendido o papel de Moro como juiz na operação Lava Jato, para Cristiano, Sergio Moro cometerá um erro se optar por entrar na política, ainda mais neste momento. Na carta para os demais membros do M30, Cristiano Ferraz escreveu o seguinte:

Moro é uma pessoa admirável em muitos sentidos. Em particular, vejo uma grande coerência entre seu discurso e sua prática desde que começou a tornar-se uma figura pública. Sua atuação na condenação dos corruptos da operação Lava Jato é testemunho de sua integridade intelectual e moral, sua firmeza de caráter e sua capacidade de manter uma admirável coincidência entre suas ações e seu propósito.

Na entrevista para O Congressista, Cristiano ponderou:

- Não é hora de perfilar-se como um candidato progressista. Sua reputação não iria resistir às criticas pesadas dos conservadores e da extrema-esquerda. Dependendo de como se modifique o ambiente político até 2022, ele poderá aliar-se a algum movimento de centro-progressismo, que parece ser sua inclinação política, mas sem grandes chances de alcançar a presidência da república com seu estoicismo. Isso pode manchar sua reputação. Pelo que leio de sua personalidade, jogo de cintura não é uma característica sua - afirmou.

O integrante do grupo conservador M30 também afirmou que a mudança no ministério e na direção da Polícia Federal não coloca em cheque o trabalho do Governo no combate à corrupção e ao crime organizado. Cristiano também acredita que a credibilidade de Jair Bolsonaro não ficou abalada, ao contrário do que tem sido dito em círculos da extrema-esquerda e em reportagens da grande mídia.

- Os ataques da extrema-esquerda perderam toda a credibilidade, assim como os da grande mídia, que prega apenas para os convertidos, tamanha a desfaçatez de suas mentiras. A confiança no governo e na pessoa do Bolsonaro não ficam abaladas. Não ouve racha da direita, apenas um posicionamento mais claro. No máximo os que já eram contra [o presidente Bolsonaro antes da saída de Moro] podem abrir a boca e jactar-se de terem tido razão - respondeu o engenheiro de telecomunicações.

Confira abaixo a carta de Cristiano H. Ferraz sobre o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro:

Compreendendo Moro e defendendo seu legado

Com o distanciamento permitido pelo prazo de uma semana, acho que já posso arriscar uma opinião de um posto de vista que não seja nem político nem psicológico da saída do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro do governo Bolsonaro, e sim de um ponto de vista mais preocupado com as crenças pessoais subjacentes à atuação moral dos indivíduos. Não tenho a pretensão de saber ao certo quais são as crenças de nenhum dos envolvidos, mas apenas de sugerir uma possibilidade de um sistema de crenças que fundamente a posição do ministro, e apontar as coincidências e divergências da minha posição.

Moro é uma pessoa admirável em muitos sentidos. Em particular, vejo uma grande coerência entre seu discurso e sua prática desde que começou a tornar-se uma figura pública. Sua atuação na condenação dos corruptos da operação Lava Jato é testemunho de sua integridade intelectual e moral, sua firmeza de caráter e sua capacidade de manter uma admirável coincidência entre suas ações e seu propósito. De fato, essa é, indiscutivelmente, a razão que o tornou um herói para muitos de nós.

Mas o propósito de Moro me parece ter sido o combate irredutível à corrupção estatal em todos os seus formatos, sem miramentos às consequências, para ele periféricas, de seus atos. Essas consequências coincidiam então com nossos objetivos expeditos. Mas não devemos confundir essa sua postura com sendo coincidente com a visão conservadora. O propósito de Moro foi, e continua sendo, o combate estóico que considera essencial: o combate à corrupção estatal. Minha visão ultrapassa essa luta e essa crença; consiste no combate à raiz da corrupção e de muitas outras mazelas, raiz essa que é fundamental combater e que se manifesta, entre muitas outras coisas, na corrupção e no cerceamento das liberdades individuais.

Quanto a mim, não vejo o combate em si à corrupção do Estado como um objetivo suficiente e necessário. Creio que a corrupção não passa de um sintoma ostensivo de algo muito mais profundo e importante: de ideologia que transforma o Estado na mão de coletivistas na maior ameaça a nossa vida individual. Acho que os conservadores concordamos que o Estado precisa ser limitado em suas ações, em sua ingerência sobre os indivíduos e nas decisões pessoais destes – ingerência essa que destrói as liberdades individuais.

Creio entender, agora, que Sérgio Moro vê no combate à corrupção do Estado um fim em si. Os conservadores não vemos dessa maneira: vemos como sendo, sim, centrais em nossa luta o combate à intromissão do Estado em áreas que não sejam estritamente justificáveis – e estas são a segurança pública (interna e externa), a garantia das liberdades individuais, a garantia da propriedade privada, a garantia final ao cumprimento dos contratos e o livre mercado. Por isso, acreditamos que as consequências de um gigantismo do Estado (dentre elas, a mais evidente é a corrupção) seja combatido desde a sua raiz. Isto é muito mais importantes do que o mero combate de suas consequências. Isto significa que, ao escolher suas batalhas, um governo lícito e eficaz deve procurar combater a ocupação do Estado e das mentes dos cidadãos por ideologias coletivistas ou criminosas. Este será o pano de fundo para a atuação de um governo lícito e seu o objetivo maior. Esta postura o obriga a atuar de forma contingente e tempestiva em defesa das liberdades, mesmo que isso signifique adiar momentaneamente o combate à corrupção.

Outrossim, vejo muita valentia na atitude de Sergio Moro. Entendo que preservar seu legado exija de um homem íntegro seu afastamento de qualquer atitude que pudesse implicar parcialidade. Como ministro, ele pareceu agir a partir de sua visão estritamente de juiz, e entender que, se sua integridade for posta em dúvida, pelo motivo que for, a obra de sua vida poderá ser contestada e até mesmo anulada. Por isso, é justo que ele se afaste do governo num momento em que este precisa negociar (e priorizar a negociação tem como natural consequência tornar necessário adiar o combate à corrupção em prol do combate ao inimigo da liberdade, o socialismo) para seguir existindo.

Neste aspecto, Sergio Moro fez o que se pode esperar de um homem estoico – o que não somos necessariamente – cuja missão não é divergente da nossa. Sua missão pessoal é combater todo tipo de corrupção; nossa missão é combater o coletivismo e o estatismo com as armas que tivermos à mão sem abandonar nosso próprio código moral ou nosso sistema de crenças – religiosas ou filosóficas.

Ao preservar seu legado e blindar sua atuação judicial, Moro nos ajuda, mesmo que muitos não concordem com a forma de sua saída, desnecessariamente deselegante e talvez, segundo seja interpretada, aparentemente desleal. Mesmo sem concordar com a forma de sua saída, e achar que poderia ter obtido o mesmo efeito sem fornecer tão grande munição aos inimigos da liberdade, admiro sua coerência e sua luta. E acho que o saldo é positivo.

Acredito que a verdade irá prevalecer, e que a consistência moral de Moro e de Bolsonaro, a médio prazo, irão ajudar a nossa causa. Afinal, até mesmo Churchill teve que aliar-se a Stálin para derrubar o nazismo. Primeiro é o primeiro, depois é o depois. Há hora para rigor, e hora de buscar alianças contingentes para evitar um mal maior. Aliar-se à União Soviética para combater o nazismo não significa concordar com suas práticas totalitárias e brutais, mas o combate a estas fica para depois de vencida a guerra contingente.

Não é hora de fundamentalismos de nossa parte.

Cristiano H. Ferraz
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