Maior lição de 2020: conservadorismo precisa ter seus próprios partidos


Por Wilson Oliveira

Como um ferrenho defensor da realização de um trabalho de base do conservadorismo brasileiro, tenho insistindo em um esforço diário no convencimento das pessoas sobre a necessidade da criação de partidos conservadores. Entendo que isso é uma urgência a ser exigida antes mesmo de se cobrar resultados de quem quer que elejamos, seja para presidente, para deputado ou qualquer outro cargo. Abaixo, reuni as perguntas que mais são feitas a mim quando entro nessa tema mais algumas que me foram feitas nesses últimos dias.

O Você acredita que o conservadorismo saiu derrotado das eleições deste ano?

A maior derrota do conservadorismo brasileiro neste ano não foi o resultado da eleição, mas sim termos chegado em novembro de 2020 sem termos criado nenhum partido, sendo que começamos a nos mobilizar pra valer em 2015. Ou seja, são cinco anos que poderíamos ter usado pra nos organizar, mas jogamos totalmente no lixo enquanto perdemos tempo com treta de rede social. Isso significa que estamos ocos, vazios, sem substância. Não se faz política apenas com postagens e pegando partidos emprestados. Os partidos do centrão não são nossos partidos, por mais que os caciques do centrão queiram nos vender essa ideia. Na verdade essa situação é até vergonhosa, pois o conservadorismo brasileiro tem uma imensa gama de eleitores, não deveria se prestar a essa papel. 

E como o conservadorismo pode agir em vistas das eleições de 2022?

O mais urgente é espalhar para o máximo de conservadores a necessidade de criarmos os nossos partidos. Parece que finalmente essa ideia está começando a se espalhar, mas ainda se encontra em um estágio muito embrionário. Foi preciso tomarmos esse tapa na cara, que foram as pessoas perceberem que não temos partido e que assim fica impossível encarar uma eleição, pra começarem a falar sobre isso. Uma vez que essa ideia esteja espalhada na cabeça dos conservadores, o próximo passo será o surgimento de lideranças pra canalizar essa mobilização e transformá-la em assinaturas, atendendo a proporção por estado que a justiça eleitoral exige. No total são necessárias 500 mil assinaturas. Pelos meus cálculos, usando como estimativa as próprias pesquisas divulgadas pela grande mídia, o conservadorismo brasileiro tem condições de criar cinco partidos. 

Quem no Brasil poderia liderar essa empreitada de criação de partidos conservadores?

É óbvio que não podemos nos esquecer que o grande nome conservador na política brasileira é o do Bolsonaro. Ele é quem mais tem condições de reunir apoio para essa missão. Acontece que o Jair é atualmente o presidente da república, o que significa que ele já tem bastante coisa pra fazer. O Eduardo Bolsonaro está à frente da criação do Aliança pelo Brasil. Eu sei que algumas pessoas que estavam com ele nessa empreitada abandonaram o barco, mas mesmo assim o trabalho está sendo retomado. Precisamos apoiar o Eduardo, até mesmo porque o Aliança já avançou algumas etapas, não está mais começando do zero. Só que é preciso recolher assinaturas de pessoas que estejam desvinculada de qualquer partido. Não adianta o fulano que está filiado ao PSL querer assinar ficha de apoio sem antes se desfiliar do seu partido. 

Além da família Bolsonaro, há mais alguém que pode criar partido conservador no Brasil, até mesmo pra chegarmos ao número de cinco partidos?

O Príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança é o nome mais forte, a meu ver, pra criar um partido conservador monarquista. Eu não sei se ele tem isso em mente, mas o que eu vejo é que ele está cada vez mais conhecido, cada vez arrastando uma multidão maior. Atualmente, só o simples fato do nome dele aparecer em qualquer coisa já é o suficiente pra muitas pessoas se interessarem. Também temos o ex-ministro Abraham Weintraub, com apoio imenso, clareza de ideias e determinação que poderiam ser usados pra criar um partido conservador puro sangue. O Filipe G. Martins, assessor do presidente Bolsonaro, é outro nome que poderia se unir a outros mais jovens pra criar um partido conservador. É até provável que todos esses nomes se juntem na criação de um mesmo partido, mas seria importante o conservadorismo brasileiro ter nomes de excelência como essas citados atuando em várias frentes. Se o conservadorismo tentar criar apenas um partido, pode ficar sem nenhum. Se tentar criar 10, pode conseguir cinco. Se tentar criar três, pode conseguir um. É preciso fazer esse cálculo.

Dá tempo de criar partidos para a eleição de 2022?

O tempo é muito curto. Esse assunto precisava começar a ser tratado em 2016, foi quando nós, de O Congressista, começamos a visualizar essa necessidade. Infelizmente o conservadorismo brasileiro inteiro focou apenas na eleição do presidente Bolsonaro. Nem a eleição para deputados do PSL recebeu tanta atenção, por isso muitos trastes foram eleitos pela sigla. Sem partido, sem base parlamentar, não poderemos fazer quase nada na política. Para 2022, infelizmente, talvez ainda precisaremos contar com a solidariedade dos donos de partidos do centrão. Mas é importante que o trabalho de montagem de partidos conservadores comece o quanto antes. Se não começarmos logo, daqui a pouco não vamos ter tempo nem pras eleições de 2024 e 2026.

Por que o conservadorismo precisa ter seus próprios partidos e não pode espalhar candidatos por partidos do centrão?

Porque os partidos do centrão atendem aos anseios dos seus donos. E esses donos de partidos fisiológicos têm outros interesses que passam milhas e milhas e milhas de distância do que é interessante para nós, conservadores, em matéria de Brasil. Não vai ser com partidos do centrão que vamos formar nossas narrativas, nossos discursos, fortalecer nossas bandeiras, organizar nossa militância, formar nossas associações, ocupar espaços nas mais variadas camadas da sociedade civil. Os donos dos partidos do centrão estão satisfeito com as coisas como são agora, sem contar que eles sempre se mostraram dispostos a fazer alianças pontuais com a esquerda, pra qualquer coisa. 

Diante desse cenário, qual a necessidade de elegermos candidatos conservadores atualmente se ainda não temos partidos conservadores?

A maior utilidade de elegermos conservadores atualmente, ainda que seja através de partidos do centrão, é torná-los conhecidos pro grande público conservador. Luiz Philippe de Orleans e Bragança, Bia Kicis e outros ficaram mais conhecidos por serem eleitos deputados federais. O Luiz Lima, creio eu, conseguiu 6% de votos no Rio de Janeiro por ser um dos líderes do governo na Câmara. Tem outros nomes que podem ficar mais conhecidos se calibrarem melhor sua atuação parlamentar, como a deputada Chris Tonietto. Mas não podemos esperar muita coisa deles em termos de ações dentro do Congresso, pois o PSL não está nem um pouco afim de ajudá-los. Olha aí o problema de elegermos conservadores em partidos do centrão...

O que mais o conservadorismo pode conseguir se tiver seus próprios partidos?

Só dentro do poder legislativo já há um mundo de possibilidades. Por exemplo, se já tivéssemos os cinco partidos conservadores que falei mais acima, este ano já estaríamos elegendo uma grande quantidade de vereadores, pois pra eleger vereador basta ter partido com algum eleitorado. Tendo espaço ocupado nas câmaras de vereadores, nas assembleias estaduais e lá em Brasília na Câmara e no Senado, poderemos fazer tudo aquilo que uma parcela do eleitorado queria que o Bolsonaro fizesse e descobriu que tais demandas não dependem do presidente. É claro que não iríamos eleger governadores em todos os estados e prefeitos em todas as cidades médias e grandes, mas com certeza obteríamos uma parcela boa também do poder executivo. Com espaço ocupado em todas as esferas, teríamos mais chance de melhorar a segurança em muitos lugares do Brasil, poderíamos acabar com a farra da ideologia de gênero nas escolas, teríamos mais força pra brigar pelo comando de universidades públicas, poderíamos atuar de forma mais presente na proibição do aborto, poderíamos abrir caminho para medidas mais inteligentes na economia, poderíamos cortar muitos privilégios de políticos etc.  

Um partido seria suficiente pro conservadorismo brasileiro?

Depende da quantidade de partidos que existem no Brasil. Com essa quantidade atual de 40 partidos, como disse, seria necessário termos uns cinco partidos conservadores, não pra termos cinco candidatos conservadores à presidência, mas pra termos mais presença em todas as regiões do Brasil, em todos os estados, na maioria dos municípios. Agora, por outro lado, se a cláusula de barreira realmente cumprir com aquilo que muitos apostam e ocasionar um enxugamento no número de legendas, aí é possível que não precisemos criar cinco partidos conservadores, mas possamos ficar com três, dois ou até mesmo apenas um. Mas eu acho impossível que todos os conservadores brasileiros convivam sob o mesmo teto. Dentro do conservadorismo brasileiro existem diferenças, principalmente de prioridades. Acho que no mínimo vamos ter dois partidos conservadores. 

Tomar o comando de partidos já existentes não seria uma opção mais viável do que criar legendas do zero?

Aparentemente pode até parecer que sim, mas eu duvido. Os partidos já existentes são de esquerda ou fisiológicos com dono. Nós não vamos tomar um partido de esquerda porque em alguma cláusula do estatuto vai estar escrito que qualquer pessoa que defenda qualquer coisa conservadora tem que ser imediatamente expulsa. E também não vamos tomar um partido que tem dono justamente pelo fato do partido já ter dono. Alguém realmente acredita que exista democracia dentro dos partidos brasileiros? Não há atalhos para solucionar essa questão, precisamos criar nossos partidos. 

Muitos conservadores acreditam que o 'sistema' não vai permitir que o conservadorismo lance seus partidos...

Quando me falam isso, eu rebato levantando dois pontos. O primeiro é que se a gente não tentar, aí mesmo que não vamos conseguir. O segundo é que se a gente tentar criar apenas um partido, podemos acabar sem nenhum. Se a gente tentar criar uns três, podemos ficar com um. Se a gente tentar criar uns 10, podemos terminar com cinco. A esquerda sempre tentou criar muitos. Os que já existiam se dividiram em outros, e eles têm vários na fila pra obter registro. O Unidade Popular (UP) acabou de sair do forno e já compôs chapa com o PSOL, que por sua vez nasceu de uma costela do PT e hoje em dia apoia e recebe apoio de petistas. E assim por diante. 

O enfraquecimento do PT na eleição deste ano é uma derrota pra esquerda brasileira?

O enfraquecimento do PT na eleição deste ano é uma derrota para o Lula e para o seu projeto de poder absoluto até mesmo dentro da esquerda. Os eleitores de esquerda continuam votando em candidatos de esquerda, só que eles migraram pro PSOL, como vimos em São Paulo, pro PCdoB, como vimos em Porto Alegre, e no Nordeste os mesmos sobrenomes da esquerda continuam recebendo votos. Só que esses sobrenomes não são do PT, mas sim de outros partidos de esquerda. 

O centrão saiu mais forte ou mais fraco desta eleição?

O centrão continua com a força que sempre teve, que varia, às vezes aumentando um pouco, às vezes diminuindo um pouco. Porém, é uma força enganosa, traiçoeira pro centrão, porque vem de eleitores conservadores que ainda não podem votar em partidos conservadores pelo fato desses partidos ainda não existirem. Quando os partidos conservadores saírem do forno, o centrão vai perder essa força que não pertence a ele. 

Qual a relação do resultado desta eleição para uma possível chapa presidencial com Sergio Moro e Luciano Huck?

A eleição deste ano deixou bem claro que para uma chapa formada por Sergio Moro e Luciano Huck ter uma chance, eles vão precisar que não exista nenhuma opção conservadora e que as outras opções de centro sejam muito piores. Eu duvido totalmente que a extrema-esquerda brasileira vá abandonar PT, PSOL, PDT, PSB, PCdoB pra votar em Luciano Huck. Pra votar no Moro, então, aí mesmo que não vão. E esses partidos também não vão abrir mão de lançar seus candidatos pra apoiar uma chapa formada por Huck e Moro. Os partidos que vão querer abraçar essa dupla, como Novo, Podemos, DEM, PSDB e Cidadania, são partidos com 0% de militância entre os eleitores Brasil afora. Alguém pode dizer que Novo, DEM e PSDB têm sim alguma capilaridade. Pode ter, mas pra colocar um candidato com 5%, em quarto lugar, o que pra uma eleição presidencial é a mesma coisa que nada.
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