Segundo turno de São Paulo é resultado da inoperância conservadora

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Por Wilson Oliveira

Bruno Covas (PSDB) foi reeleito prefeito de São Paulo após uma disputa de segundo turno contra Guilherme Boulos (PSOL). Os paulistanos que foram às urnas nesse confronto, tiveram que escolher entre extrema-esquerda e centro-esquerda. A ausência de uma candidatura conservadora na reta final da eleição na cidade mais importante do país levantou questões ao longo desses últimos dias. Confira abaixo as perguntas e as respostas de O Congressista para tentar clarear esse cenário. 

Qual o principal motivo para o segundo turno da cidade mais importante do país ter um socialista contra um social-democrata?

A falta de um candidato conservador. É um engano achar que temos que enfraquecer a extrema-esquerda e a centro-esquerda como se isso fosse um videogame. Os eleitores de esquerda sempre vão votar em candidatos de esquerda. Nós nunca teremos um Brasil com 100% de eleitores votando na direita. O que nós podemos ter, em algum momento, são eleitores da direita votando em partidos de direita, só que esses partidos ainda não existem. 

Acredita que houve fraude nas eleições municipais de 2020?

Não tem como acreditar na idoneidade de um sistema que não é transparente nem auditável. Porém, acho que a direita vai perder tempo se ficar batendo nessa tecla. Falar pras pessoas que o sistema eleitoral brasileiro não é transparente é chover no molhado. A direita precisa parar de aceitar distrações e se concentrar no que realmente é urgente: a formação de uma base política conservadora. 

As votações de Boulos e Covas trazem quais preocupações para as eleições de 2022?

A meu ver, continuamos com as mesmas preocupações de antes. Essas votações apenas reforçaram aquilo que já sabíamos desde sempre: a extrema-esquerda tem seu eleitorado, por isso Guilherme Boulos e Manuela D'Avila foram pro segundo turno, com Marta Rocha e Benedita sendo bem competitivas no Rio. A centro-esquerda idem, como provou a eleição do Bruno Covas, assim como o centro também tem o seu eleitor, como ficou demonstrado na eleição do Eduardo Paes aqui no Rio de Janeiro, que com certeza também recebeu votos de conservadores ainda no primeiro turno. E, além disso, mostrou que a direita está desorganizada, sem base política nenhuma, e que se ficar dependendo de candidatos superficiais, como Joice e Arthur do Val, ou candidatos emprestados pelo centrão, como Marcelo Crivella e Celso Russomano, não vai chegar a lugar algum. 

Qual a relação da inoperância da direita com o surgimento de candidaturas como Joice Hasselmann e Arthur do Val, classificadas como de direita?

Na política, uma das primeiras coisas que aprendemos é que não existe vácuo de poder nem de representantes. Se não temos representantes realmente conservadores, os eleitores do conservadorismo vão votar em alguém. Repare que a Joice e o Arthur tiveram votações bem abaixo da quantidade de conservadores que existe em São Paulo. A Joice, na verdade, foi aquele fiasco total que todo mundo já previa. O Arthur do Val ainda conseguiu algum volume de votos porque o MBL, embora tenha derretido bastante, ainda tem um resíduo do trabalho de base e de militância que organizou em todo Brasil, mas principalmente em São Paulo. O Celso Russomano permaneceu competitivo durante todo o primeiro turno porque, assim como o Marcelo Crivella, ela se aproveita dessa ausência de candidaturas conservadoras, se beneficiando também do apoio recebido do presidente Jair Bolsonaro. 

Quais os erros dos conservadores em São Paulo?

Os erros cometidos pelos conservadores em São Paulo, a meu ver, são os mesmos erros cometidos pelos conservadores em todo Brasil. O fato do Russomano não ter ido pro segundo turno e do Crivella ter ido aqui no Rio de Janeiro não significa que os conservadores cariocas agiram diferente dos paulistanos. A meu ver são questões completamente circunstanciais de cada cenário eleitoral. A grande questão que enxergo é que, embora não possamos abandonar as desconstruções que fazemos todo santo dia da esquerda, do establishment etc, principalmente via internet, não podemos focar só nisso. A gente precisa diversificar nossas ações, saindo dessa zona de confronto ininterrupto e começar a pensar no nosso legado político. De 2016 pra cá, além da eleição do Bolsonaro, o que nós construímos na política brasileira? Enquanto não tivermos essa resposta, é aí que eu acredito que estará o nosso erro. 

O Movimento Conservador é o movimento mais forte do conservadorismo brasileiro, nascido do Direita SP. Por que isso não ajudou a construir uma base política pelo menos em São Paulo?

Não quero criticar o Movimento Conservador especificamente porque acredito que o Douglas Garcia é o melhor parlamentar conservador que temos atualmente em todo o Brasil. Ele, sozinho, trabalha por vários parlamentares. A quantidade de ações que eu vi ele entrando na justiça, não vi nenhum outro parlamentar conservador, seja federal, estadual ou municipal, chegando nem perto. Porém, é evidente que os movimentos conservadores não conseguem fazer um bom trabalho de divulgação sobre si próprios a ponto de atrair mais e mais filiações. Do outro lado, os próprios eleitores conservadores não têm aquela atitude de militante político, que é procurar onde se filiar, qual grupo fazer parte, pra poder agir coletivamente, tomando ações de forma coordenada. O Movimento Conservador precisaria ter essa capilaridade, essa grande quantidade de filiados, com um conjunto de ações coordenadas, pra de repente formar um partido ou, ao se aproximar de uma eleição, tomar um partido menor, como Avante ou Patriota, pra finalmente realizar um trabalho eleitoral estruturado. 

Os deputados conservadores de São Paulo, estaduais e federais, também têm culpa nessa situação?

Todos os políticos conservadores têm culpa, sem exceção, não só os de São Paulo. Assim como os eleitores conservadores ainda não tem a atitude de militante, os políticos conservadores ainda não adquiriram a visão de formadores de base política. Os políticos conservadores só ficam nas redes sociais atrás de view, seguidor e compartilhamento. Isso não forma base política alguma, pois entre esses usuários de internet tem gente fora do Brasil, tem gente que por algum motivo não pode votar, tem que gente que está só de sacanagem e nem é de direita, tem perfis fakes etc. O conservadorismo precisa formar base com pessoas de carne e osso, e isso só tem como ser feito fora da internet, na rua, nas cidades, nos bairros, nas escolas, nas universidades, nas igrejas, nos condomínios, nas comunidades etc.