O discurso conservador sobre a pandemia no Brasil

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Por Wilson Oliveira

A pandemia, sobretudo no Brasil, apresenta um quadro bastante desafiador para a formulação de um discurso conservador, que sempre anda no sentido de evitar radicalismos. O conservador jamais toma uma posição no ímpeto, na emoção, no achismo. É preciso buscar entendimento e conhecimento acerca da realidade que se apresenta. 

E se temos um grupo de epidemiológicos contra o lockdown, defendendo que o vírus deve circular para a população atingir a imunidade de rebanho, e outo grupo a favor das medidas mais restritivas, alegando que enquanto a imunidade de rebanho não chega, o sistema de saúde - público e privado - pode entrar em colapso, é preciso fazer uma investigação de qual discurso deve ser adotado levando-se em consideração as teses desses dois grupos, que paradoxalmente argumentam com total sensatez. 

Portanto, o que surge no horizonte como caminho mais seguro para o discurso conservador é justamente uma tentativa de traçar uma linha entre os dois cenários apresentados. Ou seja, antes de tudo, defender a testagem em massa das pessoas para saber quem está saudável e quem está infectado em estado leve, assim como aqueles que estão apresentando maior probabilidade de pegar a doença e os que têm menos chance de adoecer. A partir desse mapeamento, adotar um sistema racional de isolamento dos infectados e dos que têm maior tendência de contrair a doença, permitindo a circulação dos que estão saudáveis e com baixa possibilidade de se infectar. 

Tendo a ciência que há pessoas saudáveis, sobretudo com baixa probabilidade de pegar covid-19, não parece muito sensato tentar proibir que esses cidadãos circulem e tenham contato com outras pessoas saudáveis que também apresentam um quadro de chances reduzidas de contração do vírus. O problema, aparentemente, é misturar os infectados e as pessoas com baixa imunidade na circulação do dia a dia, o que certamente serviu e continua servindo como acelerador no número de pacientes que precisam utilizar o sistema de saúde, alastrando, portanto, o índice de óbitos. 

A grande questão da pandemia especificamente no Brasil foi a total falta de controle nas testagens, o que não é um problema apenas do governo federal, mas também dos estaduais e dos municipais. Infelizmente, mais uma vez, a vontade de fazer discurso político ficou em primeiro lugar.

É até entristecedor falar isso, mas a impressão que passa é que autoridades e mídia brasileira estão mais preocupados com a próxima eleição presidencial, e como a pandemia irá influenciá-la, do que com o próprio efeito da pandemia na vida dos brasileiros. Dessa forma, o antagonismo entre antibolsonaristas e bolsonaristas está impedindo por completo a existência da uma unidade, ainda que pontual, para esse momento. Autoridades políticas e veículos de comunicação estão excessivamente preocupados em mostrar como o lado oposto é o errado. 

Para se aprofundar nessa análise, precisamos desenhar o quadro político brasileiro e a grande transformação pela qual esse quadro passou nos últimos anos. Até 2016, tínhamos esquerda, centrão e o bloco que nós de O Congressista chamamos de centrinho, que antes era liderado pelo PSDB e que atualmente, denominado como "centro democrático", comporta os possíveis candidatos à presidência como Luciano Huck, Luiz Henrique Mandetta, João Dionisio Amoedo, João Doria e Eduardo Leite. 

Antes de Bolsonaro, esses três blocos não promoviam debates tão profundos sobre questões externas à política - praticamente se limitavam a trocar acusações sobre quem era mais corrupto quando confrontados em uma disputa eleitoral. O centrão, por sua vez, poderia se aliar a qualquer um dos outros dois que estivesse no poder. A esquerda apresentava um discurso mais forte e combativo, mas não encontrava uma reação com mesmo vigor por parte do centrinho, que sempre manteve uma postura mais comedida, muito menos do centrão. 

Daí tivemos o ressurgimento da direita no Brasil após décadas de sono profundo. E rapidamente os direitistas alcançaram à presidência da república, em uma verdadeira avalanche política, varrendo a preferência em praticamente todos os estados brasileiros. A esquerda, que sempre teve um discurso forte e combativo, manteve a sua postura, até pisando mais no acelerador. E o centrinho, que sempre foi comedido, começou a ficar mais combativo contra o novo bloco que surgia, juntando-se aos esquerdistas nessa renovada queda de braço na política brasileira. Já o centrão em alguns momentos se mostra um aliado da direita, mas em outros, tenta florescer um meio-termo - porém, ninguém dá muitos ouvidos ao centrão justamente por saber que nunca foi um bloco que defendesse algo além dos seus próprios interesses.

Agora, acreditamos que estamos em um ponto de não-retorno, pelo menos no curto-médio prazo, a respeito desse Fla-Flu, com direita de um lado, esquerda e centrinho do outro. Duvidamos, por exemplo, que caso o presidente Bolsonaro não mencionasse em nenhum momento o tratamento precoce, houvesse tanto repúdio, por parte desses dois blocos opositores, aos medicamentes que o compõem. 

De igual forma, caso a dupla esquerda-centrinho tivesse defendido o tratamento precoce antes, não sabemos se os mais fiéis a Jair Bolsonaro comprariam a ideia. O mais provável é que não. O nível de desconfiança de um lado sobre o outro está em um ponto que acreditamos ser 100%. Não vemos um bolsonarista confiar em um antibolsonarista, assim como o oposto também está impraticável.   

Podemos discutir se a principal culpa do presidente Jair Bolsonaro nesse processo que se transformou a pandemia no Brasil é a comunicação, que tem sido uma falha do governo desde o seu primeiro dia. Bolsonaro poderia ser mais flexível e orientar os brasileiros a evitarem aglomerações justamente pra frear o número de casos e assim reduzir a demanda de quem defende o lockdown fervorosamente. Mas também temos a sensação que o presidente está apostando pesadamente, inclusive com objetivos eleitorais, em ter o apoio irrestrito de todos aqueles que são contra as medidas mais restritivas, não sobrando espaço para uma tentativa de discurso conciliador em nome da nação. 

Por outro lado, caso o presidente tentasse esse discurso ameno, não sabemos se aqueles que o odeiam iriam respeitá-lo. Não é absurdo imaginar que se Bolsonaro defendesse o lockdown, os antagônicos ao presidente arrumassem uma forma para ficar contra, talvez dizendo que ele estaria mostrando uma veia autoritária ou algo do tipo por querer fechar "tudo" no país. 

Portanto, reconhecemos que, apesar do próprio Bolsonaro não fazer muita questão de conciliar os lados antagônicos, seria muito difícil ele alcançar tal objetivo se esse fosse o seu desejo, já que o outro lado da moeda tampouco está preocupado em conciliação com o presidente, mas sim em derrotá-lo de uma vez por todas, nas urnas ou fora delas.

Feitas todas essas ressalvas, falando especificamente sobre a pandemia, o discurso conservador tem por obrigação não entrar em nenhuma demagogia, falácia e soluções fáceis para alimentar o ego de quem quer que seja. O primeiro ponto a ser abordado é que não é nada fácil encontrar uma saída para a pandemia no Brasil pelo fato de termos realidades econômico-sociais profundamente diferentes no país. 

Usando o Rio de Janeiro como cenário para análise, o morador da classe média alta, que reside sobretudo na zona sul e na Barra da Tijuca, pode lidar com a pandemia de um jeito, adotando o home office, evitando até mesmo ir ao supermercado e gastando um pouco mais do seu dinheiro com pedidos de comida por aplicativos, enquanto o cenário for de transmissões e mortes em uma escalada descontrolada. 

Indo à realidade social diametralmente oposta, o morador da favela não tem nenhuma condição de trabalhar em casa, muito menos de ficar solicitando refeições por app, ou por falta de dinheiro, ou pelo fato do local onde reside não poder receber entregadores. Temos indícios de que aqueles que defendem fervorosamente o lockdown - que são pessoas concentradas nas classes média, média-alta e alta - não pararam em momento algum pra pensar nessas questões sobre as comunidades carentes. 

Outro ponto são as pessoas que têm por natureza não respeitar nem orientações nem regras que sejam mais rígidas sobre o conceito de ir e vir - muitas de forma bastante despreocupada e irresponsável, como vemos em bailes e festas clandestinas. É ingênuo achar que esse retrato seria diferente caso o presidente Bolsonaro integrasse a defesa das medidas mais rígidas, uma vez que nesse grupo de pessoas há quem goste do presidente, quem não goste e quem simplesmente sequer presta atenção no que ele diz ou deixa de dizer.