O riquinho da zona sul não sabe o que é uma favela dominada pelo tráfico

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Por Wilson Oliveira

As entidades que reivindicam "trabalho de inteligência" no Rio de Janeiro não fazem a menor ideia do que é entrar em uma favela dominada (ditatorialmente) pelo crime organizado. É claro que matar 25 traficantes também não vai mudar nada nesse cenário. Provavelmente essa operação da Polícia Civil foi um revide à chacina de policiais na Linha Amarela, que aconteceu semanas atrás e gerou praticamente nenhuma comoção por parte dos progressistas, que certamente nem se lembram desse ocorrido. 

A população carioca, o cidadão do povão, que mora principalmente nos subúrbios da zona norte (obviamente estou excluindo a classe média dos belos prédios da zona sul e dos condomínios luxuosos da Barra da Tijuca e Recreio, pois eles vivem em outra realidade, completamente diferente de quem reside de "São Cristóvão pra lá"), e os moradores dos municípios da Baixada da Fluminense, lamentavelmente se acostumaram a conviver com os 'revides'. 

Vez ou outra um comboio de traficantes assassina um grupo de policiais, seja em uma avenida, seja em um ataque orquestrado, seja em uma situação inesperada. E a polícia, por sua vez, promove uma reação extra-oficial para devolver na mesma moeda. Vamos falar a realidade nua e crua: não existe combate nenhum a coisa nenhuma. Simplesmente pelo fato das condições urbanas do Rio somadas às condições jurídicas do país não permitirem. 

O que existe no Rio de Janeiro é: cada um no seu quadrado, mas se matar vai morrer. E quem se assusta com essa frase apenas está confirmando que só conhece um trecho bem pequeno da cidade, próximo às praias da zona sul e zona oeste. Novamente: quem habita algum bairro "de São Cristóvão pra lá", sabe muito bem que é exatamente essa a nossa realidade. E mais: os traficantes costumeiramente cruzam essa linha, pois o sonho deles é dominar a capital, depois o estado, por completo. 

É aqui que entidades e riquinhos progressistas da zona sul que acham que a Cidade "Maravilhosa" pode ter uma polícia parecida com a de alguns países maravilhosos da Europa precisam entender: não existe a menor possibilidade de se fazer um "trabalho de inteligência" dentro de um Complexo do Alemão, dentro de uma Rocinha, dentro de um Jacarezinho. Simplesmente não há! Entendam de uma vez por todas: nem ambulância pode entrar nesses locais. Ambulância! Quanto mais algum "trabalho de inteligência".

A não ser que o objetivo seja uma maquiagem superficial só pra dizer que "a única solução é legalizar as drogas". Sabemos bem que essa é a meta de muitos que defendem "trabalho de inteligência". Mas trata-se de uma opinião de quem vive longe desses currais autoritários do crime de organizado. Quem é vizinho ou vive dentro dessas verdadeixas faixas de Gaza sabe bem que a legalização é uma piada de muito mal gosto. 

Portanto, o que deveria ser óbvio e claro, mas é varrido pra debaixo do tapete por parecer muito "radical", é que não teremos nenhuma solução realmente eficaz e sincera com o povo carioca enquanto esses verdadeiros QG's do crime organizado continuarem existindo. Nenhuma pessoa deveria morar em condições como as encontradas nas favelas do Rio: sem saneamento básico, sem serviço público e coagidos todo santo dia por homens brutalmente armados, com fuzis pendurados no ombro, que se sentem protegidos por essa quantidade imensa de moradores ao seu redor, além da situação geográfica, que sempre vai deixar a polícia em desvantagem.

A falta de senso de realidade por parte de quem insiste em falar em "trabalho de inteligência" é tão grande, que muitos moradores das favelas cariocas já desistiram de tudo e praticamente se entregaram nas mãos desses traficantes. É até comum essas pessoas falarem, num exemplo prático da ditadura a que estão submetidos, que "apesar de tudo, pelo menos dentro da favela quem roubar vai ser morto, e que por isso se sentem seguros". O curioso é que eles só se sentem seguros dentro das comunidades, justamente onde ocorrem esses tiroteios que deixam os "moradores do asfalto" tão aterrorizados.