Analista político: ''Moro não sinaliza a favor de nenhuma pauta de direita''

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Por Wilson Oliveira

Em sua primeira entrevista, o analista político Rodolfo Quintella, que firmou uma parceria com O Congressista para este ano de 2022, falou sobre o que enxerga para o futuro da direita brasileira no curto-médio prazo. A respeito do ex-juiz Sergio Moro, Quintella afirmou que não vê como o principal nome da Lava Jato poderia ajudar os direitistas, já que não sinaliza apoio a nenhuma pauta que seja realmente de direita.

Sobre o atual presidente da república, Rodolfo Quintella apontou que o principal erro de Jair Bolsonaro foi não ter criado um partido próprio entre os anos de 2015 e 2017, quando sofria menos resistência do establishment e que, por isso, poderia ter mais facilidade nessa missão. O analista se mostrou pessimista sobre os rumos da direita no pós-governo Bolsonaro.

Confira a entrevista completa:

Muitos dizem que Bolsonaro se vendeu ao sistema ao se aliar ao centrão. Concorda?

"O erro do Bolsonaro em toda essa engenharia política foi lá atrás ao não ter criado um partido próprio. A partir do momento que ele se lança para a disputa presidencial - nem digo a partir do momento que ele é eleito, mas sim a partir do momento que ele se lança -, já era. Quando o Bolsonaro é eleito e a direita não tem nenhum partido, atinge-se um ponto de não-retorno".

Então os direitistas têm razão em criticar Bolsonaro por essa aliança?

"Não, mas não os culpo. Eles fazem essa crítica por não saberem ou por não quererem saber como funciona a política, principalmente no Brasil. E ninguém está completamente errado por não querer saber como funciona a política no Brasil, embora eu ache isso muito mais perigoso do que idosos pedindo outra intervenção militar".

Jair Bolsonaro ainda tem chance de promover uma mudança profunda na política brasileira?

"Não. E essa oportunidade não foi perdida em 2019, 2020 ou 2021. Foi perdida entre 2015 e 2017, quando ele não tinha tanta resistência, não estava no foco, e, portanto, teria mais tranquilidade pra criar o seu partido. Quando ele entra no foco, atinge uma resistência enorme por parte do sistema e tudo isso sem ter um partido próprio, ele se torna um alvo fácil que não tem nenhuma base para lhe dar suporte. É um general que tem soldados, mas não tem QG".

Na sua opinião, por que Bolsonaro não criou um partido próprio lá atrás?

"Precisamos fazer um exercício de análise fria, sem ficar com endeusamentos. Por mais que Bolsonaro tenha se colocado como outsider na campanha de 2018, ele não estava totalmente fora do sistema político brasileiro. Ele transitou por vários partidos sem manifestar nenhuma vontade de ter uma legenda própria. Ele estava à vontade no PP, mesmo rejeitando propina. Depois foi pro PSL e confiou em pessoas que ele nem conhecia direito. A meu ver, Bolsonaro não viu a necessidade de um partido de direita, o que aquela altura já era gritante para quem já tinha noção de política"

Você acha que Bolsonaro não deu contribuições para a direita brasileira?

"Deu, sim. A maior contribuição dele foi a confiança em uma imensa quantidade de brasileiros que hoje se dizem de direita sem medo de serem associados pela esquerda, maldosamente, com isso ou aquilo. Até gente que detesta o Bolsonaro hoje pode se dizer de direita graças ao presidente. Antes dele, ou a pessoa se dizia esquerdista ou dizia que não ligava para política. No máximo admitia que iria votar no PSDB, mas quase implorando para não ter que explicar o motivo do voto".

Existem opções para a direita brasileira fora do bolsonarismo?

"Opções direitistas não existem. Na direita brasileira infelizmente só há o Bolsonaro. E digo infelizmente porque o fato de só existir nosso atual presidente mostra como a direita ainda está pequena, sem desenvolvimento, sem estrutura. Hoje, o que se pode dizer caso Bolsonaro perca a eleição é que a direita brasileira ficará completamente perdida, sem chão, sem rumo e sem horizonte". 

Os filhos de Bolsonaro não poderiam conduzir a direita após o governo do pai?

"Espero que queimem a minha língua, mas não creio. O Flavio está cada dia mais parecido com um político do centrão, o que já o descredencia completamente pra liderar a direita. Eduardo poderia assumir esse papel, mas não sinto nenhuma firmeza nele para tal, nem vontade. O Carlos nem vejo como um político, mas apenas como um mero defensor do pai". 

A direita poderia tirar alguma vantagem caso Sergio Moro se tornasse um nome forte?

"Eu não diria vantagem. Porém, a meu ver, certamente um governo Moro seria bem menos nocivo para a direita do que um governo Lula. Esse papo de que o Lula respeita a democracia, é um cara de diálogo etc é uma tremenda história da carochinha. Se Lula realmente respeitasse a democracia, não teria permitido Mensalão nem Petrolão, muito menos falaria em regular os meios de comunicação. Só por esses três fatores já fica absolutamente impossível colocar o Moro no mesmo patamar de perigo que o Lula. Porém, Moro não sinaliza a favor de nenhuma pauta de direita, então não vejo como ele poderia ajudar os direitistas em alguma coisa". 

Muitos dizem que a defesa da Lava Jato é uma postura de direita...

"Isso é analfabetismo político. Há esquerdistas que querem roubar o protagonismo do PT na esquerda e que, para tal, estão defendendo a Lava Jato com unhas e dentes. As pessoas precisam entender que a Lava Jato não foi um evento ideológico, mas sim uma operação. Não foi nada além do que uma operação. Se as pessoas envolvidas na operação têm ideologia - e desconheço que essas pessoas sejam de direita, vejo muito mais traços de social-democracia -, paciência. Se formos seguir essa lógica, absolutamente tudo hoje em dia vai se transformar em evento ideológico, pois dada a polarização que vemos atualmente no país, todo mundo tem um lado".

Quando estivermos mais próximos das eleições, acredita que Sergio Moro poderá fazer algum gesto no sentido de defender pautas de direita?

"Pelas pessoas que estão o auxiliando, talvez ele comece a defender com alguma ênfase o liberalismo econômico, mas sem deixar de lado uma certa dose de assistencialismo social-democrata, pois o Podemos tem um pé em cada lado dessa polarização econômica, digamos assim. Mas não acredito que o Moro vá defender pautas conservadoras. Tenho pra mim que ele acha isso desnecessário, além de não querer criar embate com progressistas que estão no seu entorno. E seus apoiadores também não fazem questão, mesmo os mais conservadores".