Olavo fez mais pela democracia brasileira que toda mídia e esquerda


Por Wilson Oliveira

Eu estava fortalecendo minha posição liberal, em meados de 2013, recém saído da esquerda, quando comecei a ter meus primeiros contatos com o conservadorismo por meio de Edmund Burke, considerado o pai das ideias conservadoras modernas. Me interessei logo de cara pelo que estava conhecendo e, pouco tempo após conhecer Burke, busquei outros autores conservadores, chegando aos nomes de Russel Kirk, Roger Scruton, Richard Weaver, William F. Buckley Jr, John Adams, Alexander Hamilton, Theodore Dalrymple e Jordan Peterson. Foi uma imersão totalmente satisfatória. 

Embora eu sempre tenha considerado a importância da minha fase liberal, que foi transitória e me mostrou, principalmente no lado da economia, como o socialismo é um completo naufrágio, foi o contato com o conservadorismo que me contemplou no entendimento da relação Estado-indivíduo-política. Os escritos dos conservadores são muito mais completos que os dos liberais, pois aborda não apenas a importância do Estado não intervir demasiadamente na vida das pessoas, como também busca um ponto de equilíbrio ao explicar que a inexistência completa do mesmo é um sonho tão utópico - e perigoso - quanto o desejo tresloucado dos comunistas de transformar o mundo em uma comunidade internacional sem nações. 

Mas consumir todo o conteúdo de conservadores estrangeiros, embora me contemplasse, não me satisfazia por completo. Eram ideias importantes, valiosas, porém importadas. Eu não sentia nenhuma proximidade com a realidade histórica do Brasil, que como todo país tem as suas particularidades. Já na passagem de 2013 para 2014 procurei autores conservadores brasileiros e rapidamente dei de cara com Olavo de Carvalho. Li artigos que estão disponíveis na internet e me interessei rapidamente pela forma clara, concisa e direta com a qual Olavo sempre escreveu. 

Porém, ao conhecer a versão youtuber desse filósofo, minha primeira reação foi negativa. Nem lembro o tema do primeiro vídeo que assisti de Olavo de Carvalho, mas não esqueço que foi carregado de palavrões e xingamentos. Era uma linguagem que imaginei jamais encontrar saindo da boca de um autor conservador, ainda mais um tão experimentado, justamente porque eu estava construindo a ideia que o conservadorismo é uma busca eterna do equilíbrio, do pensamento mais frio e mais racional em contraposição ao emotivo e sentimental progressismo. 

Até então, eu ainda não tinha uma noção tão exata da quantidade de pessoas que Olavo de Carvalho estava atingindo. Eu já tinha percebido que ele tinha o seu público, mas achava que era uma bolha como tantas que existem na internet, a maioria totalmente desconhecida do grande público. Ao buscar participações em grupos sobre política nas redes sociais, com tendências mais à direita, reparei que Olavo havia realizado uma verdadeira revolução, mesmo sendo um conservador. 

Como universitário de Jornalismo, vi com meus próprios olhos que no ambiente das faculdades praticamente não existe espaço para autores conservadores, apenas progressistas, sendo que a maioria promove uma doutrinação nos seus livros sem o menor pudor, embora isso não seja tão claro para boa parte dos estudantes. Foi a partir dessa questão que comecei a entender o motivo pelo qual Olavo de Carvalho era tão enfático, e até mesmo verborrágico, na sua maneira de ser. Ao conhecer mais sobre o filósofo, descobri que sua maneira nos vídeos não era uma questão de personagem, mas sim de personalidade. Identificando-me ou não com essa maneira de ser, não podia deixar de admirar. Autenticidade sempre será uma qualidade, nunca um defeito.

Ligando os pontos, me dei conta que aquele único homem, sozinho, estava equilibrando as forças e estabelecendo uma queda de braço com milhares de professores universitários que são de esquerda, e que, obviamente, empurram seus alunos para terem olhos apenas para autores esquerdistas. Apesar de toda essa imposição estrutural, Olavo de Carvalho estava furando essa lógica da doutrinação vermelha e estava mostrando o outro lado da moeda para uma quantidade de pessoas, principalmente jovens, equiparável ao número de formandos em matérias de humanas no ensino superior. Como não admirar um trabalho desse tamanho?

Graças a esse esforço hercúleo, hoje podemos mensurar uma considerável ala da direita adpeta a leitura, hábito essencial para a formação cultural e intelectual do outro lado da moeda na política brasileira, mas que vai muito além de assuntos referentes às esferas de poder. Como dizia o próprio Olavo, as miudezas do dia a dia da política nunca, jamais, em hipótese alguma podem ser colocadas acima da formação intelectual e cultural de uma geração, seja da atual ou de anteriores. Os conservadores que não leem e menosprezam aqueles que valorizam os livros estão cometendo um terrível erro capital.

Já aqueles autointitulados imparciais, que ao avaliarem a história de Olavo de Carvalho no dia da sua morte lhe acusaram, muito injustamente, de egocentrismo, soberba e vazio bibliotecário, deixaram claro seu preconceito e ignorância quanto ao filósofo. Olavo jamais foi fechado para falar apenas das suas obras. O professor tanto foi importante ao derramar uma quantidade gigantesca de autores de todos os períodos da história literária para seus alunos e admiradores como foi o responsável por abrir as portas no mercado literário brasileiro para autores conservadores que surfaram a sua onda no meio da literatura - muitos dos quais, de tão ingratos que são, hoje se tornaram seus ferrenhos críticos. 

E não foi apenas na publicação de livros e divulgação de autores que Olavo quebrou paradigmas. Ele também foi o grande responsável por verdadeiras revelações antes inatingíveis, como por exemplo a existência do Foro de São Paulo. Algo até pouco tempo tratado como piada por parte da imprensa brasileira, apesar de ser uma organização com mais de 20 anos de existência, que contou com a participação de políticos brasileiros na sua fundação, como Luis Inácio Lula da Silva, hoje é reconhecido por todos como o principal elo dos governos de esquerda da América Latina com as facções do crime organizado do continente.

Outra revelação importante a ser creditada ao nome de Olavo de Carvalho, porém mais relevante para a direita, é a denúncia do amadurecimento e expansão do positivismo no Brasil, que durante décadas, por ocasião do Regime Militar, foi confundido com direitismo justamente para se apossar do vácuo que a direita brasileira havia deixado no início dos anos 1960, ao ser aniquilada exatamente pelos fardados que haviam tomado o poder no Brasil, acabando com toda e qualquer possibilidade de existência de lado político no país. Olavo há décadas é um crítico contumaz dos problemas políticos que os "Anos de Chumbo" nos trouxeram, por isso é injustamente atacado e desrespeitado por aqueles que admiram muito mais um militar no poder a um político de direita. 

Se podemos apontar uma característica marcante em Olavo de Carvalho é o seu poder de causar incômodo naquelas que não suportam conviver com o poder de persuasão e leitura histórica do filósofo, contrariando toda e qualquer tentativa de se formar unanimidades, que sempre serão burrices. Aqueles que tentaram - e conseguiram durante décadas - abafar as ideias da direita no Brasil foram humilhantemente derrotados pela ascensão de Olavo no debate público brasileiro. Hoje não é mais possível fingir que não existe direita e/ou colocar sociais-democratas e positivistas para ocupar esse posto. Mesmo que as redes sociais se unam para censurar tudo que foi produzido por Olavo de Carvalho, seus livros são um legado que já entrou para a eternidade e ainda vai despertar muitas mentes no futuro. 

Aliás, despertar mentes é uma - talvez a principal - esperança que Olavo de Carvalho deixa para a direita. Embora muito dos seus admiradores tenham imortalizado a frase "Olavo tem razão", lamentavelmente vários dos seus ensinamentos políticos valiosos foram ignorados na sua forma e conteúdo pelos direitistas brasileiros nesses anos tão decisivos para a política no Brasil. Enquanto Olavo se cansou de dizer que mais importante do que a eleição de um presidente é a formação de uma base política, a direita mirou quase que exclusivamente na vitória do Bolsonaro, e com anos de atraso, muita lentamente, começou só por agora a detectar que é preciso construir a tal base, sem ainda promover grandes movimentações nesse sentido. 

Quando uma pessoa importante, com quilométrica obra reconhecida, faz a passagem da vida mundana para a vida espiritual, é comum dizer que vai-se o homem e eterniza-se o seu significado. Cabe a direita brasileira, a partir de agora, trabalhar para que todo o esforço de Olavo de Carvalho não seja em vão. É urgente pararmos de nos preocuparmos apenas com eleição para presidente e despejarmos toda a importância na construção de uma base política, intelectual, artística, social e ocuparmos todas as áreas disponíveis na sociedade brasileira. 

Fazendo isso, estaremos colaborando para a democracia brasileira, que, aliás, Olavo sempre defendeu ferrenhamente, embora a mídia brasileira, por tentar desconstruir aquele que escancarou a ignorância política dos seus, tentasse nesses últimos anos desesperadamente lhe atribuir a etiqueta de antidemocrático. 

Olavo sempre foi e sempre será o grande responsável por fazer as pessoas perceberem a diferença de uma democracia forçada, de gabinete, fake, para uma democracia verdadeira, autêntica, genuína, onde você, que não concorda com a esquerda, também tem o direito de falar, de opinar, de ler livros e de ter contato com intelectuais e filósofos que não foram selecionados por professores esquerdistas. 


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