Invasão russa à Ucrânia não é guerra contra o globalismo


Por Wilson Oliveira

O embaixador da Rússia na ONU, Vasily Nebenzya, durate assembleia-geral realizada nesta segunda-feira (28), deixou claro que a luta do seu país não é contra o globalismo, mas sim contra a Ucrânia. De acordo com Nebenzya, o governo ucraniano quebrou acordos previamente estabelecido com os russos, motivo pelo qual Vladimir Putin ordenou os ataques que estão acontecendo, matando centenas de civis inocentes.

Vasily Nebenzya tentou justificar a matança que ocorre em território ucraniano com as seguintes palavras:

"A raiz das ações atuais está há muitos anos na sabotagem e na desobediência das obrigações. Recentemente, houve em Kiev um acordo para reconsiderar e para que eles cumprissem aquilo que eles assinaram em 2015".

O Acordo de Minsk, também chamado de Protocolo de Minsk, é um tratado assinado em 5 de setembro de 2014 por representantes da Ucrânia, da Rússia, da República Popular de Donetsk (DNR), e da República Popular de Lugansk (LNR) para pôr fim à guerra no leste da Ucrânia.

O acordo foi assinado depois de prolongadas reuniões em Minsk, capital da Bielorrússia, sob a supervisão da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). O acordo, que foi assinado após várias tentativas de interromper os conflitos em Donbass, no leste da Ucrânia, submeteu os dois países a um cessar-fogo imediato. 

O acordo foi formulado pelo Grupo de Contato Trilateral sobre a Ucrânia, composto por representantes de Ucrânia, da Rússia e da OSCE. O grupo foi criado em junho com o objetivo de facilitar o diálogo e o fim das disputas no Leste e no Sul da Ucrânia. As reuniões do grupo, com representantes informais das Repúblicas Populares secessionistas de Donetsk e de Lugansk (confederadas no Estado Federal da Nova Rússia), aconteceram nos dias 31 de julho, 26 de agosto, 1 de setembro e 5 de setembro de 2014, data em que o documento foi finalmente assinado pelas partes. 

Os detalhes do acordo assemelham-se em grande parte ao plano de 15 pontos pela paz proposto pelo ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, em 20 de junho de 2014. As principais diretrizes do Acordo de Minsk são:

- Assegurar o cessar-fogo imediato por ambos os lados em conflito.

- Garantir a supervisão e verificação do cessar-fogo pela OSCE.

- Descentralizar o poder, inclusive através da aprovação de uma lei ucraniana sobre a descentralização do poder, nomeadamente através de uma lei sobre o "regime provisório de governação local em certas zonas dos Oblasts (regiões) de Donetsk e Lugansk".

- Assegurar a monitorização permanente da fronteira Russo-Ucraniana e a sua verificação pela OSCE, através da criação de zonas de segurança nas regiões fronteiriças entre a Ucrânia e a Federação Russa.

- A libertação imediata de todos os reféns e de todas as pessoas detidas ilegalmente.
Uma lei prevenindo o julgamento e a punição de pessoas implicadas nos eventos que ocorreram em algumas áreas dos Oblasts de Donetsk e de Lugansk, exceto em casos de crimes que sejam considerados graves.

- A continuação de um diálogo nacional inclusivo.

- A tomada de medidas para melhorar a situação humanitária na região de Donbass, no Leste da Ucrânia.

- Garantir a realização antecipada de eleições locais, em conformidade com a lei ucraniana (acordada neste protocolo) acerca do "regime provisório de governação local em certas zonas dos Oblasts de Donetsk e de Lugansk".

- Retirada dos grupos armados ilegais, equipamento militar, assim como dos combatentes e dos rebeldes pró-governo.

- Aprovação do programa de recuperação econômica e de reconstrução da região de Donbass, no Leste da Ucrânia.

- Garantir a segurança pessoal dos participantes nas negociações.
 
 

AS PRIMEIRAS VIOLAÇÕES DO ACORDO DE MINSK

Duas semanas após a assinatura do Protocolo de Minsk, houve violações frequentes do cessar-fogo por ambas as partes envolvidas no conflito. As reuniões, então, foram retomadas em Minsk com o propósito de aparar as arestas. Um complemento ao acordo assinado foi protocolado em 19 de setembro de 2014. O memorando resultante deixou a aplicação do protocolo ainda mais claro. Entre as medidas de pacificação acordadas, foram incluídas as seguintes:

- Remoção de todo o armamento pesado, 15kms para trás da linha da frente de combate, por parte de ambos os lados implicados no conflito, de modo a criar uma zona desmilitarizada de 30kms.

- Proibição das operações ofensivas.

- Proibição dos voos de aviões de combate sobre a zona de segurança.

- Retirada de todos os rebeldes estrangeiros da zona de conflito.
Configuração de uma missão da OSCE para supervisionar a aplicação do Protocolo de Minsk.

Em 26 de setembro, os membros do Grupo de Contato Trilateral sobre a Ucrânia reuniram-se novamente para discutir a delimitação da zona-tampão (eventualmente similar às "linhas verdes" existentes entre Israel e a Palestina ou no Chipre) onde o armamento pesado seria eliminado pelas partes implicadas no conflito. 

A linha de demarcação entre a República Popular de Donetsk (DNR) e a Ucrânia foi acordada entre os representantes da DNR e os negociadores ucranianos, de acordo com o vice-primeiro-ministro da Ucrânia, Vitalí Yarema. Em 2 de dezembro de 2014, o parlamento ucraniano modificou unilateralmente a "Lei sobre o estatuto especial" proposta no Protocolo de Minsk, ainda que o mesmo parlamento tenha aprovado certos aspectos da lei que foi acordada na capital da Bielorrússia, como parte do acordo de cessar-fogo.

 

APÓS MODIFICAÇÕES NO ACORDO, MAIS DESENTENDIMENTOS

Após a assinatura do memorando, deu-se início à segunda batalha pelo Aeroporto Internacional de Donetsk, e ambas as partes continuaram a acusar-se mutuamente pelas violações do cessar-fogo. O aeroporto está fechado para todo tráfego aéreo desde 26 de maio de 2014 devido aos combates entre as forças leais ao novo governo da Ucrânia e os separatistas pró-Rússia. 

No final de outubro de 2014, o então Primeiro-Ministro da República Popular de Donetsk, negociador e signatário do Protocolo de Minsk, Aleksandr Zakharchenko, disse que as forças sob o seu controle voltariam a tomar o território que haviam perdido para as forças governamentais ucranianas durante a ofensiva de julho, e que as forças da República Popular de Donetsk estariam dispostas a combater em batalhas "pesadas" para alcançar os seus objetivos. 

Posteriormente, Zakharchenko disse que tinha sido mal interpretado e que o que ele queria dizer era que essas áreas seriam recuperadas através de "meios pacíficos". Durante a sua campanha no âmbito das eleições gerais de Donbass conduzidas pela República Popular de Donetsk e pela República Popular de Lugansk, numa alegada violação do Protocolo de Minsk, Zakharchenko disse que "Estes são tempos históricos. Estamos criando um novo país! É uma meta louca".

O presidente da OSCE Didier Burkhalter confirmou que essas eleições eram "contra a letra e o espírito do Protocolo de Minsk" e que suas realizações iriam complicar ainda mais o acordo de cessar-fogo. Já o Ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse que as eleições gerais na República Popular de Donetsk e na República Popular de Lugansk, realizadas em 2 de novembro de 2014, eram "exatamente compatíveis com as condições que haviam sido negociadas em Minsk" e que a Verkhovna Rada (o parlamento ucraniano) teria que aprovar um projeto de lei de anistia relativo aos líderes da República Popular de Donetsk e da República Popular de Lugansk após as eleições parlamentares na Ucrânia em outubro de 2014. 

De acordo com Lavrov, uma vigilância mais estreita da fronteira russo-ucraniana, como especifica o Protocolo de Minsk, só poderia ter lugar após a aprovação de uma lei de anistia desse tipo. Ele assinalou que anteriormente tinha pensado que um decreto presidencial emitido em 16 de setembro, que supostamente proibiria a perseguição dos combatentes separatistas em Donbass, seria respeitado pelo governo ucraniano, mas disse que "um projeto de lei propondo a revogação desse decreto havia sido apresentado".

Uma fase seguinte das negociações de paz realizadas em Minsk foi suspensa em 26 de dezembro de 2014. No entanto, ambos os lados confirmaram que após horas de negociações, concordaram em trocar prisioneiros, envolvendo, pelo menos, a libertação de 375 pessoas capturadas de ambos os lados.

O ESTOURO DA BOMBA NO FINAL DE 2021


Após a alteração por parte da Ucrânia na "Lei sobre o estatuto especial" em 2014, proposta no Protocolo de Minsk, os conflitos foram ano a ano intensificados até resultar em muita tensão e movimentações militares da Rússia e da OTAN nas fronteiras próximas de Donbass entre o final de 2021 e começo de 2022.

Dias após o reconhecimento da independência de duas novas novas repúblicas em Donbass (República Popular de Donetsk e República Popular de Lugansk), o presidente russo Vladimir Putin, que é coautor do acordo, anunciou, no dia 22 de fevereiro de 2022, que o acordo estava morto por culpa das autoridades da Ucrânia, e que isso teria acontecido muito antes do reconhecimento das repúblicas RPD e RPL. 

Além da quebra do protocolo de Minsk, outros motivos alegados por Putin para reconhecer as duas repúblicas foram que, na Ucrânia, haveria um crescimento de "clãs oligárquicos", "grupos neonazistas" e do "vírus do nacionalismo e da corrupção". As afirmações de Putin geraram um clima de muita indignação e insatisfação por parte do povo na Ucrânia que não é pró-Rússia, que alegou haver um desrespeito do presidente russo com as eleições ucranianas.

Depois disso, o que se vê são as invasões da Rússia na Ucrânia, com o número de mortos, incluindo crianças, passando de 100, com bombardeios nas maiores cidades ucranianas, como Kiev e Kharkiv . Os principais alvos têm sido aeroportos, prédios do governo, quarteis militares, prédios residenciais - até escolas e jardins de infância já foram atingidos com as explosões. 

Milhares de ucranianos cruzam as fronteiras do país buscando refúgio. O principal destino tem sido a Polônia, que desde o início se colocou à disposição para receber os refugiados, ao mesmo tempo que luta para a entrada da Ucrânia na União Europeia para que o país passe a ser merecedor de medidas de segurança mais eficazes vindas da Europa.


0 Comentários